A chuva cai mansa na vidraça, desenhando caminhos tortos que se encontram, se separam, se perdem. Lá fora, as folhas de outono navegam pela sarjeta como pequenas caravelas, cada uma seguindo seu próprio destino, empurrada pelo vento, pela água, pelo acaso. O telhado responde com seu tamborilar antigo, um som que parece vir de outras épocas, enquanto os pardais fazem algazarra na laranjeira, como se comemorassem a festa que só eles entendem. E então a memória se abre. Recordo quando eu era moleque correndo pelas ruas do bairro, o corpo encharcado e a mente leve, habitada apenas pelas despreocupações da infância. Não havia dores nem sobressaltos; a vida escorria mansa. Os pés batiam no chão e levantavam ondas agitadas, como se eu tivesse o poder de comandar mares inteiros. O sorriso vinha fácil, como se a alegria fosse o estado natural das coisas. Não havia dores. Não havia pressa. Não havia o medo que hoje se esconde nos cantos da vida adulta. A maldade era apenas o dragão das histórias...
Bem‑vindo ao blog de Nélson Menezes Florisbal — um lugar para histórias simples, humanas e cheias de verdade. Aqui você encontra crônicas breves que registram momentos do cotidiano: um gesto, um ruído, um encontro, um pensamento que surge no meio da pressa. São relatos que abraçam o leitor e mostram que, mesmo nos dias mais comuns, sempre há algo digno de ser contado.