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Mostrando postagens de maio 5, 2026

O Varredor Filósofo

  Com seu uniforme laranja e vassoura gasta, Seu Orlando varre as ruas do Centro como quem medita. Não reclama do lixo — entende que ele é parte da cidade, como o barulho, o cheiro e a pressa. Varre com ritmo, com respeito, com filosofia. Já foi professor, já foi bancário, já foi esquecido. Hoje, é guardião da calçada. Enquanto recolhe papéis, folhas e descuidos, murmura versos que decorou na juventude. Às vezes Drummond lhe escapa pelos lábios: “No meio do caminho tinha uma pedra...” E ele completa, reinventando: “...e no meio da calçada, tinha um resto de bala, uma bituca, um silêncio esquecido.” Os versos se misturam ao som dos passos apressados, ao chiado dos ônibus, ao pregão dos ambulantes. Poucos escutam. Mas ele segue, como quem planta palavras no asfalto. Os jovens o ignoram, os adultos o evitam. Alguns desviam como se a vassoura fosse ameaça. Outros jogam lixo no chão logo após ele passar. Seu Orlando não se ofende. Ele entende que a pressa cega, — e que o c...