Os pardais da goiabeira são meus vizinhos mais barulhentos. Todo amanhecer eles me acordam com um alarido que mistura sinfonia e tumulto, como se a cidade inteira tivesse decidido ensaiar no meu quintal. Vêm dos becos, das marquises, dos fios elétricos que cruzam o céu em linhas tortas. Trazem no corpo pardo e ocre a paleta discreta das fachadas antigas, como se fossem parte da arquitetura. A goiabeira, teimosa sobrevivente entre muros e concreto, os recebe como plateia fiel. Já me acostumei a esse ritual. Eles marcam o compasso do meu dia com mais precisão que qualquer despertador. Quando o sol atravessa as frestas da janela, eles já estão lá, riscados no ar como grafites vivos, sobrevoando o quintal em trajetórias improvisadas. No chão, espalham-se como pequenos pontos móveis, sementes inquietas sobre o gramado que resiste ao avanço do cimento. Ocupam cada palmo de terreno, como se reivindicassem o direito de existir naquele pedaço de terra. E quando os vejo as...
Bem‑vindo ao blog de Nélson Menezes Florisbal — um lugar para histórias simples, humanas e cheias de verdade. Aqui você encontra crônicas breves que registram momentos do cotidiano: um gesto, um ruído, um encontro, um pensamento que surge no meio da pressa. São relatos que abraçam o leitor e mostram que, mesmo nos dias mais comuns, sempre há algo digno de ser contado.