Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de setembro, 2026

O Mercado Público

    Sempre que viajo, minha agenda inclui uma visita ao Mercado Público da cidade em que estou. É automático, um ato espontâneo que me leva a caminhar por entre bancas repletas de cores, sabores e aromas. É um deleite para os olhos e para o olfato. Queijos, embutidos, temperos, carnes; prateleiras e tulhas transbordam de produtos das mais diversas procedências. Os vendedores, quase membros da família, abordam a freguesia, cada um oferecendo seu produto como o de melhor qualidade e o de preço mais acessível. São os mais variados condimentos: açafrão, cominho, páprica, pimentas, louro, tomilho. Há também bacalhau, carnes especiais, farinhas e uma boa erva-mate para o chimarrão, além do vinho verde português. Logicamente, como em todo bom mercado público, existem os bares e restaurantes, com suas comidinhas regionais. Cada estabelecimento apresenta um cardápio próprio, capaz de despertar a curiosidade e proporcionar o deleite dos visitantes. E assim, entre uma viagem ...

O Tempo Não Está Acabando

    Hoje estava divagando sobre a vida e sobre tudo o que fizemos em nossa passagem por este plano. Fui tomado por uma ansiedade repentina enquanto minha mente percorria momentos vividos. Tantas alegrias, tantas tristezas e tantas dúvidas. Perguntei a mim mesmo o que ainda estou deixando passar nesse fio de vida que, dia após dia, segue correndo. A vida é boa demais. Ainda tenho muito a fazer, muito a contribuir. Tenho uma vontade danada de sair pelo mundo, conhecer novos lugares, viver novas histórias e aproveitar todas as possibilidades que meu trabalho agora me proporciona nesta fase da aposentadoria. O melhor presente que a vida me deu foi a família e os amigos, peças indispensáveis nesta jornada. São eles que dão sentido aos dias, que transformam momentos simples em memórias eternas e que fazem valer cada passo do caminho. E agora, quando meu maior objetivo é simplesmente viver, viver muito e viver bem, percebo que o tempo não está acabando. Na verdade, ele está...

Picumã (1)

  A casa de madeira era pequena, com apenas duas peças: a cozinha e um cômodo adjacente que servia, ao mesmo tempo, de sala e dormitório. Nos rigorosos invernos dos campos do Sul, a família reunia-se em torno do fogão a lenha de quatro bocas. O crepitar das brasas e os lampejos avermelhados refletidos nas paredes aqueciam aquele ambiente simples, onde o tempo parecia correr mais devagar. Entre um mate e outro, a panela de ferro, encrostada de gordura, cozinhava a carne do almoço. A fumaça escapava do fogão e subia lentamente em direção ao telhado de telhas de barro. Ali, onde as vigas se encontravam formando ângulos semelhantes a pequenas pirâmides, acumulava-se o “picumã” . Negro e espesso, nascido da fuligem de incontáveis fogueiras, ele se agarrava às ripas como se fizesse parte da própria construção. Crescia devagar, ano após ano, formando franjas escuras que balançavam quando o vento encontrava frestas entre as tábuas da casa. As teias de aranha, recobertas pela fumaça...

A Batina do Padre Salvatore

  Houve um tempo em que as missas dominicais da igrejinha do bairro reuniam quase toda a comunidade. Dizia-se que metade dos presentes comparecia por fé e a outra metade por simples curiosidade. Ninguém sabia ao certo se a conta era verdadeira, mas bastava olhar ao redor para acreditar. Os velhos bancos de madeira, gastos por décadas de joelhos penitentes, acolhiam figuras que hoje permanecem apenas na memória daqueles que viveram aqueles dias. Entre elas estava o Vesgo Caolho, homem magro como vara de pescar, que jamais perdia uma missa. Os mais maldosos comentavam que ele aparecia apenas para receber a hóstia, como quem garantia uma refeição. Ele, porém, sempre negava. — Eu venho pela palavra de Deus — costumava responder, limpando a boca logo depois da comunhão. Na primeira fila sentavam-se as irmãs Margarida, Madalena e Magnólia. Já haviam passado dos quarenta e muitos anos e nunca se separavam. Vestiam-se com discrição, carregavam enormes terços e rezavam com uma dev...

O Sorriso Perturbador

    A gargalhada ecoou de forma sinistra pelos corredores da enfermaria, espalhando-se pelos outros andares do prédio. Havia nela um tom sarcástico e perturbador. Como acontecia quase todas as noites, ele despertava sob uma estranha agonia. Seus olhos percorriam o quarto escuro, enquanto vultos pareciam deslizar pelas paredes. As atendentes do andar ficavam atônitas sempre que ele insistia em afirmar que estava sendo perseguido. Com o dedo apontado para o vazio, balbuciava palavras indecifráveis, como se tentasse alertar alguém sobre uma ameaça que somente ele conseguia enxergar. O silêncio que se seguia era ainda mais assustador. As funcionárias trocavam olhares inquietos, sem saber ao certo se presenciavam os delírios de uma mente atormentada ou algo que escapava à compreensão de todos. Assim, os anos foram passando, e aquele corpo quase inerte sobre a cama já não lembrava em nada o jovem audacioso e esbelto que, um dia, atraíra os olhares apaixonados de tantas mul...

Mexer em Vespeiro

    Na vida, certas circunstâncias merecem ser tratadas com a devida cautela. A pressa quase nunca foi boa conselheira e a afoiteza, como dizem os antigos, nunca foi madrinha para ninguém. Mexer em vespeiro é assim. Antes de agir, convém avaliar as consequências. Nem toda provocação merece resposta, nem toda verdade precisa ser dita de qualquer maneira. A vida ensina que prudência não é covardia. Prudência é inteligência. É compreender que algumas batalhas podem ser evitadas e que a serenidade costuma produzir resultados melhores do que a impulsividade. Há momentos em que o silêncio vale mais do que uma resposta imediata. Muitas vezes, uma palavra dita no calor da emoção tem o poder de criar problemas que a razão jamais teria permitido. E embora se diga que "palavras ditas o vento leva", a verdade é que algumas permanecem por muito tempo na memória de quem as ouviu. No fim das contas, a sabedoria está em saber distinguir quando falar, quando agir e, principalmente, ...

Chorar Sobre o Leite Derramado

    Hoje me veio à memória um dito popular que sem nenhuma razão filosófica, resolvi misturar com um assunto que vive aparecendo nos noticiários. Coisas da idade: a gente começa lembrando do leite derramado e termina falando de transporte público. Lembro bem daquela época. Era o ano de 1976, quando o vereador Sadi Schwerdt, icônico lateral-esquerdo do Sport Club Internacional, foi o autor do projeto da lei dos táxis-lotação. Mas o que quero deixar registrado, de certa forma, tem a ver com o ditado: "Não adianta chorar sobre o leite derramado". A junção desses dois fatos me remete aos dias atuais. Apesar de já ter passado meio século, as modernidades disponibilizam meios de transporte em abundância. Os carros tornaram-se comuns em grande parte das famílias, desde as mais humildes, para as quais os veículos são ferramentas de trabalho, até as mais aquinhoadas, que os utilizam para deleite próprio e demonstração de status. Com a evolução, novas formas de locomoção fo...

O Paciente do Quarto 69

    Ninguém compreendia a aversão que ela demonstrava sempre que precisava entrar no quarto 69. Para a equipe, era apenas mais um paciente: um homem reservado, de meia-idade, internado havia meses. Nada parecia justificar tamanho desconforto. Mas, ao se aproximar daquela porta, sentia o estômago revirar e o coração disparar. Era como se fosse arrastada para um passado que tentava esquecer. Após ser afastada do trabalho, refugiou-se em seu apartamento. Entre garrafas de whisky vazias e noites sem sono, abriu uma velha caixa guardada no fundo do armário. Dentro dela havia fotografias, recortes de jornais e lembranças que jurara nunca mais revisitar. Foi então que encontrou uma fotografia. Ao vê-la, empalideceu. Era ele. Mais jovem, mas inconfundível. O paciente do quarto 69 não era um estranho. Vinte e sete anos antes, havia sido o principal suspeito de um desaparecimento jamais esclarecido. Sem provas, o caso foi arquivado, e ela seguiu a vida acreditando ter ...

O Relógio Cuco

  Por mais de dois séculos ele esteve ali, ao pé da grande escadaria da mansão. O velho relógio cuco, datado de 1730, era muito mais do que um simples objeto de decoração. Sua presença silenciosa atravessara gerações, testemunhando risos, lágrimas, celebrações e despedidas. A cada hora, o pequeno pássaro surgia para anunciar a passagem do tempo com seu inconfundível “cu-cu” , um som que se misturava à própria identidade da casa. Constava nos relatos familiares que o primeiro morador da mansão o trouxera entre seus pertences mais valiosos, recebido como herança de antigos antepassados. Ninguém mais sabia ao certo quantas mãos o haviam preservado ou quantas histórias ele carregava em sua estrutura de madeira escurecida pelo tempo. Os mais velhos lembravam que, quando crianças, corriam pelos corredores e escadarias em meio às brincadeiras, sempre acompanhados pelo compasso regular do pêndulo. Era ele quem marcava a hora da merenda, dos deveres escolares, das aulas de piano e do banho ...

Os Fantasmas da Memória

  Passaram-se muitos anos. Ela havia se recuperado, ao menos em aparência, das situações adversas que fizeram dela uma mulher triste e emocionalmente fragilizada. Mas certas feridas não desaparecem; apenas aprendem a se esconder. O mundo ao seu redor era um emaranhado de dúvidas e questionamentos. Nunca mais foi a mesma. Vivia em permanente estado de alerta, como se algo terrível estivesse prestes a acontecer. O simples toque do telefone podia anunciar uma tragédia. Um atraso de poucos minutos transformava-se em motivo para angústia. Tudo servia de combustível para seus medos. O apartamento, localizado no final de uma rua sem saída, tornou-se seu refúgio e sua prisão. Durante o dia, era apenas mais um imóvel cercado pelo silêncio do bairro. À noite, porém, assumia outra forma. Os corredores pareciam mais longos, as sombras mais densas, os ruídos mais ameaçadores. Ali, entre paredes que guardavam lembranças demais, ela enxergava criaturas imaginárias. Não eram monstros de de...

Ser Gaúcho é um Estado de Espírito

    Vivemos mais uma Semana Farroupilha, período em que o orgulho de ser gaúcho se fortalece por meio de grandes celebrações da nossa cultura. Entre os destaques estão a Expointer e o Acampamento Farroupilha, eventos que simbolizam a força das tradições do Rio Grande do Sul. Somam-se a eles dezenas de iniciativas realizadas em diferentes regiões do Estado, mantendo vivas nossas raízes e reforçando o sentimento de pertencimento e identidade com esta terra. Ano após ano, milhares de pessoas reúnem-se para prestigiar a pecuária, a agricultura, os concursos de animais, as provas campeiras, a música, a dança e a gastronomia típica. São manifestações que preservam costumes transmitidos de geração em geração. Mais do que eventos festivos, representam o encontro de um povo com suas raízes. Ali estão presentes a memória dos que desbravaram campos, enfrentaram adversidades e ajudaram a construir a história do Rio Grande do Sul. Cada mate compartilhado, cada churrasco em família ...

Procuração em Branco

    As esquinas do país transformaram-se em verdadeiros exércitos de bandeirolas. Uma fila interminável de rostos que jamais serão conhecidos, mas que se apresentam por meio de frases de efeito vazias de conteúdo. Minha vontade, como cidadão, é poder me dirigir a cada um desses pré-candidatos aos quais delego uma procuração assinada em branco, dando plenos poderes para representar meus anseios e expectativas de uma sociedade mais solidária e de leis mais justas em benefício de todos, sem distinção. Gostaria de perguntar-lhes o que fizeram ontem para merecer a confiança que pedem hoje. Gostaria de ouvir algo além dos slogans cuidadosamente ensaiados, das fotografias sorridentes e das promessas recicladas a cada eleição. Porque honestidade, trabalho e compromisso não deveriam ser promessas de campanha. Deveriam ser requisitos básicos para quem pretende ocupar um cargo público. E, depois de avaliar tudo, vejo apenas uma sucessão de rostos estampados em papel, disputando...

O Homem Só

    A cidade estava vazia naquela tarde. Uma brisa leve formava redemoinhos nas esquinas, levantando nuvens de poeira, jornais envelhecidos e pequenos restos de descartes que a vassoura do gari deixara escapar. O homem caminhava vagarosamente entre bancas de revistas fechadas e cavaletes de ambulantes abandonados. Estranhamente, naquela rua não havia sinal de viva alma. Era um deserto. De vez em quando, junto à sarjeta, um pequeno vulto se movia. Um rato. Nada mais. Nenhum carro, nenhuma conversa, nenhum telefone tocando. Apenas o som de seus próprios passos ecoando entre as fachadas silenciosas. Sem perceber, começou a acelerar o ritmo. Sua mente processava cada detalhe do ambiente ao redor. Algo estava errado. O silêncio não era apenas ausência de ruído; era uma presença inquietante, pesada, que parecia observá-lo de todos os cantos. Sentia-se só. Cada esquina que surgia diante de seus olhos trazia uma nova sensação de desconforto. Onde estavam todos? O que havia acontecid...

Carne Fake

    Hoje fui surpreendido por uma notícia que, embora bombástica, já não deveria causar espanto em tempos de evolução acelerada. Cientistas afirmam, com toda a segurança possível, que técnicas laboratoriais permitirão produzir carne a partir de proteína animal — sem abate, sem sangue, sem o ritual milenar que sempre acompanhou nossa alimentação. Sob o ponto de vista ético, há quem comemore. Para defensores da vida animal, é quase um alívio: enfim, carne sem morte. Mas o que me inquieta não é o fim do abate, e sim o começo de outra coisa. Como esse produto será introduzido no nosso cardápio diário? Que segurança teremos ao consumir alimentos processados em laboratório? Serão realmente saudáveis — mais saudáveis até do que os tradicionais? A verdade é que já convivemos há muito tempo com alimentos de origem duvidosa. Chocolate “sabor cacau”, leite que não é leite, embutidos que são uma mistura indecifrável de carnes e outros suprimentos. Pagamos caro por isso, muitas vez...

O Pequeno Mundo da Janela

    Todas as manhãs, ele ergue as folhas desgastadas da persiana, o retângulo da janela se abre como um pequeno mundo particular. É sempre o mesmo enquadramento, mas nunca a mesma história. Lá fora, a cidade desperta em sua coreografia repetida: o horizonte recortado pelas paredes frias dos prédios, árvores teimosas que insistem em existir entre camadas de concreto, o canto melancólico dos sabiás nas laranjeiras, as caturritas em suas algazarras matinais, e dezenas de janelas que se abrem para mais um dia — cada uma guardando vidas e segredos que jamais conhecerá. Ele fica ali, sentado diante da escrivaninha, as mãos repousadas sobre o teclado, a mente vagando por entre prédios, nuvens e lembranças. Busca inspiração como quem procura um sinal no céu. A rotina, às vezes pesada como chumbo, outras vezes leve como uma pluma que serpenteia perdida entre arbustos e sacadas, molda seus pensamentos. Entre silêncios e rabiscos, seus textos começam a nascer. Personagens surgem co...

Tudo é Possível, Quando o Impossível Acontece

    Ele havia sido demitido da gráfica: trabalhos rareando, funcionários demais, futuro nenhum. Juntou seus pertences — uma régua, lápis, papéis e um livro de Camões com folhas soltas —, objetos que guardava na gaveta da escrivaninha. Despediu-se dos colegas e enfrentou a tarde cinza da cidadezinha do interior. Ao dobrar a esquina, deu de frente com a placa luminosa da cafeteria. Entrou pela porta giratória e sentou-se à mesa de tampo de mármore. A garçonete loira de sempre anotou o pedido: um expresso, um copo d’água e um pastel frio da manhã. Comeu como quem encerra um capítulo. Do bolso puído da calça de brim retirou uma nota amassada, pagou a conta, respirou fundo e partiu sem rumo. Restava-lhe apenas a incerteza. Sem trabalho, sem amores, sem fé — caminhou até a pequena ponte que ligava a cidade ao nada. Parou no meio, suspirou. Ao erguer o olhar, viu uma menina tentando salvar um barquinho de papel levado pela correnteza. Ele se aproximou e, num gesto rápido, r...

Último Beijo

    Foi um encontro casual, desses que acontecem sem aviso. Uma troca de olhar, um sorriso tímido, e a vida seguiu seu curso. Ele ficou extasiado observando a imagem dela se dissolver na retina. Era a primeira vez que a via, e algo o desconcertou de imediato, como se uma peça interna tivesse se movido sem permissão. Os dias passaram. De vez em quando, lá estava ela: mesmo olhar, mesmo sorriso, nenhuma palavra. Havia algo de mágico naquela troca silenciosa, embora ele não imaginasse o tamanho do que estava por acontecer. Até que, num dia qualquer, tomado por uma coragem súbita e um fôlego descompassado, aproximou-se. — Oi… A resposta veio instantânea: — Oi! Qual é teu nome? Ele, num misto de encantamento e insegurança, balbuciou: — Eros. Ela sorriu, curiosa e irônica: — Eros? — Sim. E o seu? — Afrodite. A gargalhada ecoou ao redor dos dois, e assim começou uma amizade que logo se transformou em amor. Os anos passaram, e aquela fagulha que explodi...

Ego – O Eu de Cada Um

  O ego é um daqueles habitantes silenciosos da nossa mente: não paga aluguel, mas ocupa espaço; não faz barulho, mas interfere em tudo. Na psicologia, dizem que ele é o mediador — o ponto de equilíbrio entre nossos desejos internos, as regras da sociedade e a realidade que insiste em nos lembrar que o mundo não gira ao nosso redor. É ele que nos dá a noção de identidade, personalidade, esse “eu” que carregamos como assinatura. Eu sei que estou mexendo numa área da qual não sou especialista. Mas, como indivíduo disponível para ser analisado, me permito observar esse personagem que vive dentro de mim — e dentro de todos nós. No meu ambiente familiar, há quem entenda disso com mais propriedade; ainda assim, arrisco minhas próprias conclusões. O ego, esse substantivo masculino tão pequeno na gramática e tão enorme na vida, muitas vezes atropela nosso destino. Faz isso por arrogância, por orgulho excessivo, por aquela mania de controle que nos prende mais do que nos protege. Outr...