Horas antes, ela havia chegado mais cedo ao apartamento. Carregava uma tristeza profunda, dessas que não têm nome nem motivo. Ligou a vitrola e aproximou a agulha do vinil gasto; o chiado abriu espaço para a voz melancólica de Sinatra em “Strangers in the Night”. Sobre a estante, um copo de uísque a esperava. Sorveu-o de um gole só, como quem tenta calar um pensamento. Então, o toque rouco da campainha cortou o silêncio: trim-trim ... Ela ainda estava na banheira quando ouviu o som. A água quente envolvia seu corpo nu, e a penumbra projetada pela cortina desenhava sua silhueta como um traço frágil. A agulha da vitrola feria o disco como unhas arranhando pele. Um arrepio percorreu sua espinha. Não era frio. Não era prazer. Era algo que ela não soube nomear. Um espasmo, talvez. Um pressentimento. Ergueu-se abruptamente, a água escorrendo como um véu rompido. Desceu as escadas com pressa, o coração batendo fora do compasso. Parou no último degrau. Respirou fu...
Bem‑vindo ao blog de Nélson Menezes Florisbal — um lugar para histórias simples, humanas e cheias de verdade. Aqui você encontra crônicas breves que registram momentos do cotidiano: um gesto, um ruído, um encontro, um pensamento que surge no meio da pressa. São relatos que abraçam o leitor e mostram que, mesmo nos dias mais comuns, sempre há algo digno de ser contado.