O dia nasceu com a respiração curta do inverno. Aqui no Sul, o frio não chega: ele se instala. Entra pelas frestas da casa como quem conhece o caminho, desliza pelas paredes, toca a pele com a precisão de uma lâmina recém-afiada. Há um silêncio branco na manhã, um silêncio que dói. É nesse instante que a memória se abre, como porta antiga rangendo no vento. Volto à infância — à casa humilde, ao chão de tábuas que guardava segredos de noites longas, ao estudante pequeno que eu era, caminhando para a escola com a coragem que só as crianças pobres carregam sem perceber. O gramado amanhecia branco, um algodão frio cobrindo a terra. Havia beleza ali, mas uma beleza que mordia. Sob aquele véu gelado, escondiam-se as durezas que a manhã não tinha pudor de revelar. Meus pés, enfiados em tamancos de madeira, sentiam cada estalo do gelo. A tira de couro, rígida, parecia zombar da pele. Os dedos, encolhidos, davam a impressão de que se quebrariam ao menor descuido. E, no entanto, ca...
Bem‑vindo ao blog de Nélson Menezes Florisbal — um lugar para histórias simples, humanas e cheias de verdade. Aqui você encontra crônicas breves que registram momentos do cotidiano: um gesto, um ruído, um encontro, um pensamento que surge no meio da pressa. São relatos que abraçam o leitor e mostram que, mesmo nos dias mais comuns, sempre há algo digno de ser contado.