Minha mãe era dessas mulheres que o tempo não apaga. Não porque fez barulho no mundo, mas porque fez silêncio — e dentro dele construiu vidas inteiras. A minha, sobretudo. Foi ela quem me deu a vida e, depois disso, nunca mais descansou. Quando eu era pequeno, cuidava de mim como quem protege um tesouro raro. Quando cresci, continuou me protegendo, como se o mundo lá fora fosse grande demais para um filho só. E talvez fosse mesmo, mas com ela por perto tudo parecia caber na palma da mão. Eu e meu irmão crescemos vendo aquela mulher transformar esforço em amor. As roupas lavadas no tanque de concreto, a água gelada cortando a pele nos invernos rigorosos, o sabão em barra deslizando firme entre os dedos. O ferro a carvão chiando, cuspindo calor, enquanto ela engomava camisas alvas para comissários e pilotos da Varig — um brilho de céu dentro da nossa casa simples. Havia também as fardas militares, os ternos alinhados dos diretores do Banco do Brasil. Cada peça que ela entregava par...
Bem‑vindo ao blog de Nélson Menezes Florisbal — um lugar para histórias simples, humanas e cheias de verdade. Aqui você encontra crônicas breves que registram momentos do cotidiano: um gesto, um ruído, um encontro, um pensamento que surge no meio da pressa. São relatos que abraçam o leitor e mostram que, mesmo nos dias mais comuns, sempre há algo digno de ser contado.