Eu fui criança. Fui moleque. Como qualquer menino, corri pelos becos, rabisquei muros e testei os limites entre travessura e irresponsabilidade. Mas nunca, nunca pensei que poderia carregar a marca de um carrasco. Era uma manhã como qualquer outra. O varal tremulava ao vento, segurando com firmeza as roupas lavadas por minha mãe—o sustento de nossa casa humilde dependia daquelas peças bem cuidadas. E ali, entre fios estendidos e brisas suaves, pousou um pequeno beija-flor. Na inocência da infância, a “funda” 1 ou bodoque era mais que um objeto—era extensão de um espírito aventureiro e inconsequente. Pequenas esferas de cinamomo ou seixos eram lançadas sem grande reflexão, atingindo alvos que, em sua fragilidade, não compreendiam a brutalidade de um gesto tão impulsivo. Mas naquele dia, a brincadeira perdeu seu nome. O disparo ecoou como sentença. O arame do varal vibrou como um sino fúnebre, e o pequeno beija-flor, indefeso diante da força invisível, tombou. Não houve tempo par...
Bem‑vindo ao blog de Nélson Menezes Florisbal — um lugar para histórias simples, humanas e cheias de verdade. Aqui você encontra crônicas breves que registram momentos do cotidiano: um gesto, um ruído, um encontro, um pensamento que surge no meio da pressa. São relatos que abraçam o leitor e mostram que, mesmo nos dias mais comuns, sempre há algo digno de ser contado.