O “Antisséptico” cumpria bem sua missão: desinfetava cortes, eliminava bactérias, afastava infecções. Só não dava conta das outras dores — aquelas que não surgiam na pele, mas lá dentro, onde ninguém via. Parecia ter sido criado por alguém que acreditava que personalidade se construía na base do grito. E o mais curioso é que, naquela época, os adultos aplicavam o tal “Antisséptico” com uma serenidade. Chegavam com o frasco vermelho como quem exibe um troféu. A gente entendia na hora: se ele aparecia, a situação ia piorar antes de melhorar. O ritual era sempre o mesmo: examinar o machucado, garantir que “não vai doer” e, claro, provocar uma ardência capaz de fazer a gente reconsiderar todas as escolhas da vida. E não era só o “Antisséptico”. Crescemos cercados por remédios que hoje seriam proibidos — e sobrevivemos. Talvez por isso sejamos tão resistentes: fomos temperados no fogo daquele frasco vermelho. Hoje, o “Antisséptico” não ar...
Bem‑vindo ao blog de Nélson Menezes Florisbal — um lugar para histórias simples, humanas e cheias de verdade. Aqui você encontra crônicas breves que registram momentos do cotidiano: um gesto, um ruído, um encontro, um pensamento que surge no meio da pressa. São relatos que abraçam o leitor e mostram que, mesmo nos dias mais comuns, sempre há algo digno de ser contado.