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Mostrando postagens de agosto, 2026

O Lado Invisível de Gramado

Estive há poucos dias em Gramado. Retornar a essa cidade glamourosa é sempre uma experiência incrível. Sua aparência europeia, com construções que remetem às regiões italianas e germânicas — ainda que muitas outras etnias também tenham deixado sua marca por ali — sempre me encantou profundamente. Mas desta vez resolvemos inovar. Eu e minha companheira de toda a vida organizamos um roteiro pela Gramado invisível, aquela que não aparece nas propagandas nem nas filas intermináveis dos pontos turísticos tradicionais. E foi uma surpresa arrebatadora. Caminhamos por estradas rurais de paisagens deslumbrantes, onde o burburinho da cidade grande simplesmente não existe. Visitamos lugares que extasiam a retina: cascatas escondidas, vales silenciosos, paredões que parecem não ter fim, rios que serpenteiam entre matas e pequenas propriedades. Uma vida rural pulsante, ali, coladinha à Rua Coberta — quase inacreditável. Nunca havíamos imaginado que Gramado oferecesse algo além das atrações milimetr...

Quando o Jogo Murcha

    O Gre ‑ Nal n ã o perde intensidade por falta de vontade. Perde porque o desempenho dos dois times anda t ã o irregular com as mudan ç as dos projetos das dire çõ es; se é que existe, cada ano troca t é cnico, filosofia, contrata çõ es, discurso … nada amadurece. Os elencos são montados por urgência, não por ideia — jogadores chegam para “tapar buraco”, mas o buraco continua lá, firme, resiliente, quase heróico. A política interna é tão presente que às vezes parece que o clube joga com doze: onze em campo e um conselheiro soprando no cangote. O torcedor olha e não sabe se o time tenta atacar, defender ou apenas cumprir tabela. E a base, coitada, virou quase lenda: todo mundo diz que existe, mas ninguém vê. Com esse cenário, o clássico sofre. Porque Grenal é termômetro — e ultimamente anda marcando febre baixa. Quando os clubes estão fortes, o jogo explode, vira caos, vira ópera, vira guerra santa. Quando estão fracos, o Grenal murcha, desce a ladeira, vira aque...

Época de Eleição

    Hoje vou abordar um tema sensível. A disputa eleitoral chegou novamente e, para ser franco, insistir no óbvio já não faz sentido. As cartas estão expostas, e nenhuma alternativa oferece um projeto de governo consistente. É a mesma engrenagem desgastada que gira desde 15 de novembro de 1889. Naquele dia, tínhamos um marechal — Deodoro da Fonseca — à frente do golpe militar que depôs Dom Pedro II e proclamou a República. A história seguiu seu curso, mas o país nunca mais foi o mesmo. Iniciamos outra caminhada, marcada por lutas, discórdias, ideologias, suicídios e cassações. Entre tropeços e remendos, fomos nos acostumando a viver entre o futebol, o samba, a cachaça e certas práticas menos confessáveis. E, se o assunto for polêmica, o terreno é tão amplo quanto um campo de futebol: aqui, derrota nunca é aceita; se ela veio, é porque alguma coisa — inevitavelmente — estava errada. Mas o que pretendo dizer é simples: apesar da instituição do voto secreto — que de secreto tem...

Um Fio Escuro de Cabelo

    Acordou sobressaltada, o coração em agitação. No escuro do quarto, acendeu o abajur de cabeceira, cuja luz difusa e amarelada inundou o ambiente. As sombras nas paredes pareceram esticar-se, ganhando vida própria. A brisa que vinha de fora moveu a cortina de seda, que se enroscou no espaldar da cadeira de descanso. O quarto parecia respirar, e ela sentiu o desconforto crescer — uma presença invisível que a observava. Ergueu-se rapidamente, abriu as janelas e deixou a cidade invadir o quarto. Um alívio imediato percorreu seu corpo ao ouvir o jornaleiro gritando as manchetes, o som das buzinas, o burburinho cotidiano que lhe devolvia a realidade. A claridade revelou cada detalhe do interior, e foi então que ela viu — sobre o lençol de seda — um fio escuro de cabelo. Correu até o espelho. A imagem refletida era a mesma: a mulher loira, exuberante em sua juventude. Fitou a própria cabeleira dourada e, em silêncio, interrogou-se. O fio preto na cama. Tentou reconstruir ...

Frio de Renguear Cusco - Memórias, música e um rancho na zona sul de Porto Alegre

    Desde menino — daqueles tempos de calça curta — convivo com a expressão gaudéria “frio de renguear cusco”. Ela sempre me acompanhou como uma espécie de termômetro afetivo: quando o frio apertava de verdade, era esse o jeito de medir a friagem. Lembro do meu pai chegando ao entardecer, depois da lida, enxaguando o corpo porque o frio parecia entrar pelas juntas. Logo se achegava ao fogão a lenha, a única mordomia possível naqueles tempos escassos. A lenha já estava cortada. Minha mãe, entre tantas tarefas, manejava o machado com uma habilidade admirável. Eu, vez ou outra, arriscava cortar umas “achas”, mas nunca fui um exímio cortador de lenha. Sobre o fogão, a velha chaleira de ferro — impregnada de fumaça, com uma crosta espessa de tanto uso — aquecia a água para o chimarrão, ritual sagrado das tardes invernais. Era ali, naquele cenário simples, que o frio parecia menos bravo. No último final de semana, essas lembranças voltaram com força. Estive na zona sul de ...

Entre a Razão e o Coração

    Neste final de semana, me juntei à desesperança dos amigos — ao ar pesado que paira sobre o futebol gaúcho — e às arquibancadas já vazias, onde Grêmio e Inter atravessam o Brasileirão como quem caminha sobre um fio esticado entre o abismo e a crença de que ainda é possível. A razão, essa velha conselheira, tenta sussurrar ao torcedor que o campeonato é longo, que matemática existe, que ainda há rodadas suficientes para corrigir rumos, reorganizar esquemas, reencontrar o futebol que se perdeu em algum lugar entre lesões, escolhas equivocadas e noites mal dormidas. Ela calcula, projeta, desenha cenários: “Se ganhar dois, empata um, torce por tropeço alheio…”. A razão é paciente, metódica, quase fria. Mas o coração — ah, o coração — esse não sabe esperar. Ele pulsa em vermelho e azul, exige reação imediata, cobra raça, entrega, mudança. Ele não entende por que o Grêmio sofre para sair da zona da confusão, por que o Inter tropeça quando mais precisa caminhar firme. Ele...

Os Músicos

  Para Miron e Mareu. Confesso sem pudor: carrego uma pequena inveja desses músicos que se espalham pelas noites, iluminando bares, cabarés e esquinas com aquilo que lhes transborda da alma. Eles são, muitas vezes, os responsáveis por minhas desilusões — e por minhas esperanças. Há dons que Deus distribui com generosidade seletiva, e isso sempre me inquietou. Talvez eu ainda precise aprender que cada pessoa nasce com uma missão, e que algumas delas vêm embaladas em acordes. A música — a verdadeira — é divina. É alívio, é companhia, é aquela mão invisível que ajeita o coração quando ele insiste em desandar. Tenho amigos músicos, e muitos outros que cruzei pelos bares da vida. Cada um com seu estilo, sua poesia, sua performance e suas habilidades. Tenho até um filho dotado desse poder de encantar com sua musicalidade e a desenvoltura ao dedilhar um violão. Mas, nesse vasto universo que é a arte musical, quero falar de um amigo em especial. Não dos mais chegados, como se d...

Se Essa Rua…

    Acordei cedo, calcei meu velho tênis Conga desbotado e segui em direção ao mar. O céu, límpido, deixava o horizonte se revelar aos poucos. Caminhei alguns passos e, ao longe, o oceano se abriu diante de mim: um turbilh ã o de á gua inquieta. Vi veleiros riscando a superf í cie, navios e gaivotas que desenhavam arabescos no ar. Por um instante, tracei mentalmente rotas imaginárias — linhas que ligavam terras distantes ao ponto exato onde eu estava. Respirei fundo. Ao redor, a cidade despertava. Telhados, chaminés, e do pátio da escola vinha a algazarra das crianças, cantando com aquela alegria que só elas dominam: “Se essa rua, se essa rua fosse minha…” O coro infantil se misturava ao gorjear dos pássaros, como se todos participassem de um mesmo ensaio para celebrar o dia. Meu pensamento, sempre apressado, reorganizou-se na velocidade da luz — porque o cérebro, quando provocado, é assim: responde antes mesmo que a gente termine a pergunta. E então, num gesto qua...

A Campainha

      Horas antes, ela havia chegado mais cedo ao apartamento. Carregava uma tristeza profunda, dessas que não têm nome nem motivo. Ligou a vitrola e aproximou a agulha do vinil gasto; o chiado abriu espaço para a voz melancólica de Sinatra em “Strangers in the Night”. Sobre a estante, um copo de uísque a esperava. Sorveu-o de um gole só, como quem tenta calar um pensamento. Então, o toque rouco da campainha cortou o silêncio: trim-trim ... Ela ainda estava na banheira quando ouviu o som. A água quente envolvia seu corpo nu, e a penumbra projetada pela cortina desenhava sua silhueta como um traço frágil. A agulha da vitrola feria o disco como unhas arranhando pele. Um arrepio percorreu sua espinha. Não era frio. Não era prazer. Era algo que ela não soube nomear. Um espasmo, talvez. Um pressentimento. Ergueu-se abruptamente, a água escorrendo como um véu rompido. Desceu as escadas com pressa, o coração batendo fora do compasso. Parou no último degrau. Respirou fu...

O Economista

    Economia é uma palavra antiga, nascida lá na Grécia de Aristóteles: oikonomía : oiko s, casa; nomos , administração. No começo, tratava da arte de gerir os bens da família ou da pólis. Hoje, virou ciência, profissão, campo de estudo — mas também virou folclore. Porque, convenhamos, economia não vive só nos livros: vive nas pessoas. Tenho amigos economistas, profissionais brilhantes, dedicados, daqueles que enxergam números onde eu só vejo caos. Mas também tenho amigos “econômicos”. Não no sentido acadêmico — no sentido popular mesmo: canguinhas, pão-duro, mão de vaca, sovinas, avarentos, unha de fome. O dicionário inteiro cabe neles. E, claro, estão sempre presentes: nos churrascos, nas festas, nos encontros. São personagens fixos, quase patrimônio imaterial da amizade. Lembro de um episódio com a nitidez de quem revive a cena. Estávamos em um congresso da minha área profissional, e na hora do almoço fomos todos a um restaurante daqueles pé sujo de beira de praia, ond...

O Violinista

    Para o amigo João Carlos, que inspirou estas linhas.   O mês era junho — talvez julho; a memória insiste em borrar as bordas desse tempo. Na esquina, a velha mansão dormia sob a sombra dos jacarandás. As paredes brancas, exibiam rachaduras que lembravam veias expostas, sugerindo que o casarão tinha um corpo próprio, uma história que ainda pulsava sob a tinta desbotada. Imponente, guardava aquele pedaço da cidade como quem vigia um segredo. Dizem que, em seus dias de brilho, ali aconteciam saraus que atravessavam a madrugada. Senhores de cartola e bengala, damas com seus chapéus cloche , todos desfilando silhuetas elegantes pelo salão. Era um cenário que parecia arrancado do século XIX. A família que vivia ali — oito pessoas — orbitava em torno de um patriarca austríaco: homem alto, cabelos cor de fogo, barba espessa, postura que não admitia contestação. Entre os quatro filhos homens, havia um que se destacava pelos pendores artísticos. Tinha aquela alma se...

Crônica do Velho

    Ninguém sabia ao certo quando ele começara a ocupar aquele banco. Para muitos, o velho sempre estivera ali, como um marco silencioso da praça, tão permanente quanto as árvores que a cercavam. Chovesse ou fizesse sol, lá estava ele: o corpo arqueado, as mãos pousadas sobre o bastão gasto, o olhar perdido em algum ponto que ninguém mais conseguia enxergar. Eu o via todos os dias no caminho para o trabalho. No início, era apenas uma figura curiosa, um detalhe da paisagem. Mas com o tempo, comecei a notar que havia algo diferente na maneira como ele observava o mundo. Não era o olhar de quem espera; era o olhar de quem recorda. Seu rosto era um mapa de sulcos profundos, traçados pelo tempo com a precisão de quem escreve uma história longa demais para caber em palavras. Às vezes, quando o vento soprava mais frio, uma lágrima escorria devagar por aqueles vales. Não era tristeza — era memória. Uma memória tão antiga que parecia não pertencer mais ao corpo que a carregava....

Os Pardais da Goiabeira

    Os pardais da goiabeira são meus vizinhos mais barulhentos. Todo amanhecer eles me acordam com um alarido que mistura sinfonia e tumulto, como se a cidade inteira tivesse decidido ensaiar no meu quintal. Vêm dos becos, das marquises, dos fios elétricos que cruzam o céu em linhas tortas. Trazem no corpo pardo e ocre a paleta discreta das fachadas antigas, como se fossem parte da arquitetura. A goiabeira, teimosa sobrevivente entre muros e concreto, os recebe como plateia fiel. Já me acostumei a esse ritual. Eles marcam o compasso do meu dia com mais precisão que qualquer despertador. Quando o sol atravessa as frestas da janela, eles já estão lá, riscados no ar como grafites vivos, sobrevoando o quintal em trajetórias improvisadas. No chão, espalham-se como pequenos pontos móveis, sementes inquietas sobre o gramado que resiste ao avanço do cimento. Ocupam cada palmo de terreno, como se reivindicassem o direito de existir naquele pedaço de terra. E quando os vejo as...

O Aperol

    A Itália me recebeu como quem abre um livro antigo e precioso: cada viela era uma página marcada pelo tempo, cada pedra carregava o peso de uma história que não se apaga. Em Milão, com sua elegância urbana; em Pompeia, onde o silêncio das ruínas sussurrava segredos de um mundo que já não existe. De norte a sul, o país inteiro parece suspenso entre séculos, preservado com um zelo quase sagrado — uma dedicação que desperta uma inveja profunda. Como conseguiram guardar tanto, por tanto tempo, com tamanha beleza? Eu, viajante deslumbrado, deixei-me contaminar pela alegria espontânea do povo italiano. Caminhei por ruas estreitas, avenidas largas, becos escondidos, estradas que serpenteiam colinas. Entrei em bodegas, bares, tavernas, cafés que mais pareciam salas de estar abertas ao mundo. E em todos esses lugares, como um símbolo nacional, lá estava ele: o Aperol . Um ritual, uma celebração, uma pausa. Criado em 1919 pelos irmãos Barbieri, em Pádua, mas eterno como o sol ...

A Máquina de Escrever

    Todos os dias, quando me sento diante do teclado do computador, sinto o eco distante da velha máquina de escrever que marcou o início da minha caminhada. É curioso como certas memórias não se apagam; apenas mudam de forma, como se fossem letras migrando de um papel amarelado para uma tela iluminada. Era 1963, e eu ainda um menino de escola técnica, tentando descobrir que futuro cabia nas minhas mãos. A vida em casa era simples, apertada, mas nunca pequena. Minha mãe, lavadeira, carregava nos braços o peso das roupas e o peso dos sonhos que tinha para mim. Meu pai, consertador de sapatos, cuidava dos passos de tanta gente importante, enquanto sustentava os meus. Naquele tempo, cada tostão tinha destino certo. E foi juntando tostões — aqueles que minha mãe economizava — que ela me matriculou no curso de datilografia, lá na escola profissionalizante do bairro. Eu ainda nem sabia, mas aquele gesto era uma espécie de empurrão silencioso para o mundo. Lembro-me bem dos...

Coincidência… ou algo mais

  Entre as décadas de 1940 e 1960, existiu um personagem chamado Amigo da Onça , criado pelo cartunista Péricles. Ao lembrar dessa figura, vem à mente seu humor satírico, irônico e sempre crítico — mestre em provocar aquela sensação incômoda de “será que isso foi coincidência mesmo?” E quando observamos certos sorteios — em especial os que envolvem a disputa nacional — é difícil não perceber um sopro desse espírito irônico pairando no ar. Clássicos regionais, rivalidades históricas, confrontos que parecem escritos por roteiristas… tudo isso alimenta a imaginação. Tecnicamente, sorteios são eventos aleatórios.   Mas o cérebro humano não gosta de aleatoriedade pura — ele busca padrões, narrativas, explicações. Quando o sorteio coloca frente a frente rivais tradicionais, caminhos que parecem “desenhados” para uma final específica, confrontos que inflamam audiência e mídia, a matemática vira coadjuvante e o imaginário popular assume o protagonismo. Não é que exista f...

A Arte de Não Conversar

    Andamos tão apressados, tão ocupados em cumprir metas, que esquecemos das pequenas gentilezas — aquelas que antes costuravam o tecido das relações humanas com pontos firmes e delicados.   Hoje, conversamos por atalhos. A fala virou ícone. As palavras, coitadas, foram reduzidas a símbolos que exigem quase um curso de arqueologia para serem decifrados. Às vezes me sinto diante de uma escrita cuneiforme moderna, tentando entender o que significa aquele conjunto de carinhas, corações, foguinhos e mãos que apontam para todos os lados.   Conversar com os mais jovens, então, é uma aventura antropológica, quase um exercício de resistência. Eles falam rápido, digitam mais rápido ainda, e respondem com uma economia de vocábulos que faria qualquer gramático chorar. Um “kk”, um “blz”, ou pior: um emoji que você não sabe se significa aprovação, sarcasmo ou pedido de socorro. E eu fico pensando: estamos perdendo a capacidade de comunicação verbal ou apenas terceiriza...

O Varredor Filósofo

  Com seu uniforme laranja e vassoura gasta, Seu Orlando varre as ruas do Centro como quem medita. Não reclama do lixo — entende que ele é parte da cidade, como o barulho, o cheiro e a pressa. Varre com ritmo, com respeito, com filosofia. Já foi professor, já foi bancário, já foi esquecido. Hoje, é guardião da calçada. Às vezes, enquanto limpa a sujeira dos outros, recita trechos de Drummond: “No meio do caminho tinha uma pedra...”   “...e no meio da calçada, tinha um papel de bala, uma bituca, um silêncio”. Os versos se misturam ao som dos passos apressados, ao chiado dos ônibus, ao murmúrio dos vendedores. Poucos escutam. Mas ele segue, como quem planta palavras no asfalto. Os jovens o ignoram, os adultos o evitam. Alguns desviam como se a vassoura fosse ameaça. Outros jogam lixo no chão logo após ele passar. Seu Orlando não se ofende. Ele entende que a pressa cega, e que o chão é o último lugar onde se olha. Mas uma vez por semana, uma menina chamada Luana — s...

Os Santinhos da Web

    Diariamente recebo centenas. É um verdadeiro congestionamento de “Santos” atravessando minha tela, disputando espaço como se o smartphone fosse uma procissão infinita. Eles chegam sem pedir licença, empurrando-se uns aos outros, obstruindo minha capacidade de entender os limites da fé — se é que ainda existem limites quando o assunto é corrente religiosa digital. Entre uma imagem de Santo Antônio borrada e uma Nossa Senhora em resolução duvidosa, surgem também as mensagens motivacionais. Todas carregam doses generosas de amor, esperança e justiça, como se fossem vitaminas espirituais prescritas para o bom funcionamento da alma. “Bom dia!”, “Deus te abençoe!”, “Que Nossa Senhora Mãe dos Homens ilumine seu dia!” — incentivos diários para que eu cumpra minha jornada com a serenidade de um monge tibetano. São tantas manifestações que minha caixa postal transborda. Entope. Fica saturada de pequenos “cookies 1 ” emocionais — fragmentos de fé, carinho e boas intenções que...

Passarelas da Gaivota

  O horizonte da Gaivota — uma só , grafada assim mesmo, no singular — talvez porque, se existiu outra, nunca a vi. Todos os dias, amanhece como quem abre lentamente uma cortina, estendendo-se diante de nós, imenso e paciente, oferecendo nuances que mudam conforme o humor do sol. Há manhãs em que o mar se veste de vermelho intenso, quase dramático; em outras, deixa que a luz se dissolva suavemente nas areias do balneário, como se estivesse com preguiça de começar o dia. A cada passo, não consigo evitar que a memória me leve para muito antes de qualquer calçadão colorido. Imagino os “carijós”, donos primeiros destas terras, moldando sambaquis que hoje são testemunhas silenciosas de uma história que quase esquecemos. Depois vieram os “açorianos”, trazendo sotaques, crenças e o desejo de fincar raízes num território que ainda era mais natureza do que cidade. Mas o tempo, esse escultor incansável, não para. Hoje, o litoral se desenha em passarelas infinitas, cada uma com seu ri...

O Apagamento

  Dizem que ele morreu. Falam isso com naturalidade. Mas ninguém sabe ao certo. O que sabem, repetem. O que não sabem, inventam. Ele era figura constante nas vielas da periferia, desses que parecem conhecer cada buraco. Caminhava como quem desliza, sempre surgindo onde menos se esperava. Conversava com todos: com o dono do bar, com a senhora que vendia frutas na esquina, com os meninos que jogavam bola no campinho de terra. Tinha ideias demais para caber nas ruas estreitas que o moldaram. E então, um dia, sumiu. Não foi só ausência. Foi apagamento. Como se uma mão invisível tivesse passado pela cidade e varrido sua existência. Sem aviso, sem ruído, sem despedida. Escafedeu-se. Evaporou como se nunca tivesse existido. Nenhum corpo, nenhum rastro, nenhuma pista. Só o vazio. E o vazio, como sempre, foi preenchido por boatos. Nos becos, sussurravam que ele fugiu. Nos bares, juravam que ele foi silenciado. Nas redes, inventaram histórias tão elaboradas que pareciam roteiros de...

O Homem do Guarda‑Chuva Azul

  Anselmo chegava cedo à Praça da Catedral. Sentava-se sempre no mesmo banco, o guarda ‑ chuva azul aberto — n ã o contra a chuva, mas contra a “ tristeza que vinha de cima ” . Lia um jornal de 2003 como se fosse atual, dobrando as p á ginas com cuidado. Os pombos o cercavam; ele conversava com eles como velhos amigos. Rozeli passava cantando boleros, olhos fechados, dona de um palco imaginário. Anselmo nunca falava com ela, apenas escutava — e isso bastava para os dois. Até que Caíque apareceu, menino de onze anos, vendedor de chicletes e perguntas. Sentou-se ao lado de Anselmo e voltou todos os dias. Queria saber do guarda ‑ chuva, do jornal velho, da vida antiga que cheirava a bolo e sil ê ncio. Anselmo contou que j á dirigira ô nibus, que reconhecia passageiros pelo jeito de subir, e que uma vez quase perdeu o ponto final porque algu é m cantou “ Contigo Aprendi ” . Naquela tarde, Rozeli parou diante deles e cantou baixinho. Anselmo fechou os olhos. O jornal caiu de s...

O Antisséptico

  O “Antisséptico” cumpria bem sua missão: desinfetava cortes, eliminava bactérias, afastava infecções. Só não dava conta das outras dores — aquelas que não surgiam na pele, mas lá dentro, onde ninguém via.   Parecia ter sido criado por alguém que acreditava que personalidade se construía na base do grito. E o mais curioso é que, naquela época, os adultos aplicavam o tal “Antisséptico” com uma serenidade. Chegavam com o frasco vermelho como quem exibe um troféu. A gente entendia na hora: se ele aparecia, a situação ia piorar antes de melhorar.   O ritual era sempre o mesmo: examinar o machucado, garantir que “não vai doer” e, claro, provocar uma ardência capaz de fazer a gente reconsiderar todas as escolhas da vida.   E não era só o “Antisséptico”.   Crescemos cercados por remédios que hoje seriam proibidos — e sobrevivemos. Talvez por isso sejamos tão resistentes: fomos temperados no fogo daquele frasco vermelho.   Hoje, o “Antisséptico” não ar...

A Cortina

  A cortina, em sua forma mais simples, é apenas um pedaço de tecido. Um objeto doméstico, discreto, que cumpre a função prática de separar ambientes, controlar a luz, preservar a intimidade. Ela não julga, não escolhe lados, não cria conflitos. Apenas delimita. Fecha o que deve ser fechado, abre quando é preciso abrir. A cortina concreta é honesta: mostra exatamente o que é — uma fronteira móvel, reversível, que existe para proteger e organizar. Mas na sociedade humana, a cortina ganhou outra natureza. Tornou-se símbolo. Tornou-se arma. Tornou-se desculpa. Hoje, ergue-se uma cortina da discórdia em quase tudo: na política, nos esportes, nas crenças, nos debates mais banais. Não é feita de tecido, mas de palavras, preconceitos, medos, desinformação. E ao contrário da cortina real, essa não se abre com um simples puxar de mãos. Ela se fecha sozinha, se reforça, se torna mais espessa quanto mais se tenta atravessá-la. Criamos barreiras para separar o que consideramos puro do ...

Canto do Ibirapuitã

Silenciou-se o canto de “Bagre Fagundes”, lenda viva da música nativista, que agora segue para outras querências levando consigo o som do Alegrete. Fica a herança de um autêntico gaúcho, daqueles que honram o pago e carregam no peito o compromisso de divulgar nosso cancioneiro. E não há gaúcho que não tenha, em algum momento da vida, ouvido, cantado ou bailado ao som de Canto Alegretense — seja nos fandangos, seja nos churrascos que unem famílias pelas casas do Rio Grande. Essa música atravessou gerações como um hino afetivo, sempre presente quando o coração quer lembrar de onde veio. Como diz a estrofe de sua própria música: “E na hora derradeira que eu mereça, ver o sol alegretense entardecer. Como os potros, vou virar minha cabeça, para os pagos no momento de morrer.” Rendo aqui minha homenagem a este grande centauro dos pampas, oriundo de uma família que sempre enalteceu as tradições gaúchas e que, juntos, produziram clássicos eternos da nossa discografia. Siga em paz, Eu...

Temos Que Acreditar

    O Grêmio joga hoje, e o torcedor já se prepara para mais uma dose de sofrimento. E, salvo algum percalço de caminhada, todos já sabemos o desfecho. O clube que ostenta 8 títulos nacionais oficiais — 2 Brasileiros, 5 Copas do Brasil e 1 Supercopa — há muito tem decepcionado sua imensa torcida. Não é exagero dizer que metade da população gaúcha carrega o tricolor no peito, mas carrega também o peso das frustrações recentes. O codinome “Imortal” parece ter perdido validade. Já não resistimos a nenhum antídoto futebolístico; nem o VAR nos ressuscita desse buraco sem fim em que nos enfiamos. As gestões se sucedem, atletas chegam e partem, mas nada se sustenta dentro de um esquema tático minimamente coerente. E o pior: adversários de menor porte perderam o respeito pela camiseta que antes pesava toneladas. E os pequenos, antes temerosos, agora dançam na nossa casa como se fosse salão de festa. Cadê você, Grêmio? Cadê aquele do Olímpico, que fazia tremer arquibancada, con...

Esquinas Terapêuticas

  Nas cidades brasileiras, as esquinas deixaram de ser simples cruzamentos: viraram pontos de encontro entre necessidade e lucro. Onde antes havia padarias e armazéns, agora brotam farmácias — muitas, incontáveis — como pequenas filiais de laboratório exibindo a vitrine da nossa doença coletiva. E não falo da doença que se mede com termômetro, mas da outra, mais grave: a falta de pudor. A velha lei do capitalismo reina sem cerimônia. Quanto mais vulnerável o cliente, maior o preço; quanto mais urgente a necessidade, mais gordo o faturamento. Ontem, meu neto recém-nascido precisou de um medicamento. Nada raro. Entrei numa das cinco farmácias da mesma esquina e pedi o remédio. O atendente trouxe dois frascos: adultos e pediátrico. A etiqueta vermelha — “Uso pediátrico” — gritava mais alto que o preço. O frasco infantil custava 50% a mais, embora tivesse a mesma fórmula, dosagem e apresentação. A única diferença era o rótulo, como se tivesse sido impresso com tinta de ouro. O atende...

Os Cogumelos

  Hoje de manhã, enquanto eu tentava convencer o café a me acordar, reparei que o quintal tinha recebido umas pequenas visitas: cogumelos. Daqueles que aparecem depois de uma noite úmida, como se a terra tivesse decidido improvisar uma decoração. Não eram muitos — uns três ou quatro — mas chamavam atenção. Um deles parecia até um cogumelo alucinógeno, desses que prometem viagens interiores e mundos paralelos. Fiquei ali parado, olhando para eles como quem observa um milagre. No fundo, era só um cogumelo, claro. Mas às vezes o cotidiano insiste em puxar conversa. Peguei o celular para fotografar. Antes de abrir a câmera, apareceu uma notificação: uma matéria lembrando o aniversário da bomba de Hiroshima. A imagem do “cogumelo” gigante, aquele que não nasce da terra, mas da mão do homem, tomou a tela inteira. E aí, pronto. O cérebro fez o que mais gosta de fazer: associações improváveis. Fiquei olhando os cogumelos do quintal e pensando na ironia da palavra. Uns nascem para enfeita...