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Mostrando postagens de maio, 2026

A Vacina

  Desde muito cedo me ensinaram que vacina era um “mal necessário”. Não havia escolha, não havia debate. Havia fila. Uma fila comprida no pátio da escola primária, onde crianças inquietas esperavam por um instrumento de metal que parecia mais uma geringonça de ficção científica do que algo feito para proteger. Nada de agulhas delicadas: era ferro, pressão e um líquido misterioso que doía, deixava marca, dava febre. E a gente seguia brincando, porque criança não tem tempo para drama prolongado. Sobrevivemos. Crescemos. E aqui estou, na velhice, assistindo ao país transformar a vacina em campo de batalha. É curioso: aquilo que antes era só rotina virou bandeira, virou trincheira. Não me oponho a quem pensa diferente — cada um sabe de si — mas ainda me soa estranho ouvir que vacina faz mal, como se décadas de ciência coubessem numa frase de rede social. O Brasil, com seus 213,4 milhões de especialistas instantâneos, virou um grande laboratório de debates intermináveis. Não sobre vír...

A Pressa

  A pressa sempre foi uma velha conhecida nossa. Na juventude, ela nos empurra pelas ruas como um vento impaciente, dizendo que o mundo é logo ali e que tudo precisa ser vivido antes que o sol se ponha. E nós acreditamos. Corremos. Pulamos fogueiras. Cantamos alto nas noites frias de São João, quando o “Padroeiro das Festas Juninas” parece sorrir para cada balão que sobe, teimoso, rumo ao céu.   Naquele tempo, a vida tinha cheiro de pinhão assado e quentão fumegante. A fogueira ardia como se fosse eterna, e nós também achávamos que éramos. As cantigas ecoavam sem pudor — “cai, cai balão, cai, cai balão aqui na minha mão” — e tudo parecia possível, até pisar em madeiras em brasas. A alegria era simples, imediata, quase infantil.   Mas o universo, esse velho relojoeiro, não para. E nós, que antes corríamos, começamos a caminhar. Depois, a andar devagar. E um dia percebemos que a pressa mudou de lado: já não é ela que nos empurra; somos nós que tentamos segurá-la pelo ...

O Inquilino Invisível

    Toda cidade pequena tem uma casa que ninguém jura ter medo, mas também ninguém entra depois do pôr do sol. Aqui, é a mansão da rua da ladeira. Um casarão antigo, de madeira escura, que parece ter sido construído não para abrigar gente, mas para guardar segredos. E guarda bem. À noite, os corredores estalam como quem respira, as janelas observam sem pudor, e o silêncio… o silêncio nunca é completo. Os mais velhos contam que ali viveu um barão — severo, porém “justo”, como gostam de dizer, talvez para aliviar a própria consciência. A esposa dele, delicada, criou três filhos com esmero: duas moças de modos finos e um rapaz que falava baixo e andava sempre alinhado. Mas, veja bem, a história que corre por aqui não é sobre eles. Nem sobre os escravizados que trabalharam, sofreram e sobreviveram naquele chão. É sobre outra presença. Uma que não aparece em livro de história. Dizem que, de tempos em tempos, algo sumia na casa. Nada valioso: comida, ferramentas, pequenos obje...

A Que Vai Com as Outras

  Ela nunca soube exatamente quando começou a andar no passo dos outros. Um dia era o chá de boldo recomendado pela vizinha; no outro, o lilás decretado pela colega como “cor do ano”. E lá ia ela, engolindo infusões amargas e vestindo tons que não eram seus, só para não destoar. Seguia porque era fácil, porque decidir cansava, porque as vozes alheias pareciam sempre mais seguras que suas próprias dúvidas. No grupo da família, bastou alguém dizer que dormir de meia atraía boas energias para que ela, que odiava pés abafados, fosse para a cama parecendo um pinguim — e ainda acordasse elogiando a experiência. O mais curioso é que ela não era tola; só era… maleável. Flexível demais. Daquelas pessoas que preferem o conforto do coro ao risco de cantar uma nota sozinha. Até que, no trabalho, pediram que ela escolhesse entre dois projetos. Sem plateia, sem opinião terceirizada, sem manual de instruções. Ela travou. O mundo parou. O universo aguardou. E então ela respirou fundo e escol...

A Fé que Mora no Silêncio

  Falar de fé sempre parece simples até que a gente tenta explicar. É como tentar descrever o vento: você sente, mas não pega; percebe, mas não mede. A fé é esse sopro que passa por dentro da gente sem pedir licença, mas também sem fazer alarde. Cada pessoa carrega a sua como pode. Uns a vestem como armadura, outros a guardam dobradinha no bolso, para usar só quando o mundo pesa demais. Há quem a proclame em voz alta, e há quem a viva em silêncio, quase escondida, como um segredo precioso que não se divide com qualquer um. O curioso é que a fé não exige compreensão. Ela não precisa ser lógica, nem coerente, nem comprovada. Ela apenas é. E talvez seja justamente isso que a torna tão íntima: não cabe em palavras, não se encaixa em definições, não se explica — se sente. E, no fundo, essa fé pequena é enorme. Porque é ela que sustenta a gente quando o resto falha. É ela que nos lembra que viver não é só enfrentar tempestades, mas também reconhecer os pequenos abrigos que aparecem...

Sete Décadas e Um Oceano

Setenta anos. A vida, com seu enredo imprevisível, desenhou caminhos inesperados, mas o desejo permaneceu intacto — como uma carta guardada com carinho, à espera do momento certo para ser aberta. O sonho de pisar em solo europeu nunca se desfez; apenas amadureceu, como um vinho bem envelhecido. E, quando finalmente chegou o dia, tudo se transformou em expectativa. Portugal era o destino. A terra de Camões, de Fernando Pessoa, dos navegadores que partiram em caravelas e cruzaram mares nunca antes navegados — ao menos por olhos europeus. Há quem diga que descobriram terras novas, mas, se já havia quem as habitasse, então talvez o verbo correto fosse “encontrar”. Mas essa história fica para outro momento. Hoje, a viagem começa com outro tipo de descoberta: a pessoal. O avião decolou, cortando o oceano com sua precisão calculada. Pela janela, o Atlântico se estendia infinito, um mistério líquido que separava meu passado do meu futuro. Atravessar aquele mar era mais do que uma travessia geo...

O Merecimento

Dia destes, sentado numa roda de velhos amigos — daqueles que atravessaram conosco as décadas desde os anos 60 — surgiu, sem aviso, um tema que sempre volta quando a vida resolve nos cutucar: “o merecimento”.   Entre lembranças de juventude, risadas gastas pelo tempo e algumas dores que insistem em acompanhar a idade, alguém comentou sobre pessoas que parecem receber de volta exatamente aquilo que plantam, enquanto outras enfrentam injustiças, dores e provações que ninguém ousaria desejar.   Foi então que um dos presentes, espírita convicto, homem de bem e de vasto conhecimento da doutrina — embora a natureza não lhe tenha poupado de sofrimentos físicos — ergueu a voz com a serenidade de quem já conversou muito com a própria alma:   — Isso é merecimento. Disse assim, seco e firme, como quem enuncia uma lei da natureza. E começou a discorrer sobre suas próprias mazelas, comparando-as às dádivas que outros recebem. Para ele, tudo se encaixava numa lógica invisível...

Unanimidade Nacional

A cada quatro anos, o Brasil parece acordar de um torpor coletivo apenas para mergulhar em outro: o da Copa do Mundo. É como se o país, tão acostumado às suas próprias crises, encontrasse no futebol uma espécie de anestesia social. De repente, tudo respira bola. Nos bares do centro, nos botecos escondidos nas vilas, nos salões climatizados dos hotéis cinco estrelas da orla de Copacabana — o idioma é um só, e a gramática é a da paixão. A velha expressão “pátria de chuteiras” volta a fazer sentido, mesmo que o país já não seja o mesmo, e o futebol tampouco. A sociedade evolui, transforma-se, e o esporte acompanha — às vezes tropeçando, às vezes correndo atrás do próprio rabo. O que não muda é a expectativa. Mas, convenhamos, nas últimas décadas o escrete canarinho não tem correspondido às expectativas. Não por falta de talento, mas talvez por falta de pertencimento. A seleção virou uma espécie de “legião estrangeira”: atletas brasileiros, sim, mas moldados em outros gramados, outros ...

A Travessia do Contraditório

  Em uma sala de debates invisível, onde ideias se cruzam como ventos em tempestade, vive um pensador inquieto. Ele acredita no direito ao contraditório — esse pilar que sustenta a justiça, que garante que toda voz tenha seu eco, que todo argumento encontre sua contraparte. Mas algo o incomoda: ao abrir espaço para o outro, sente que sua própria análise se dilui, como tinta em água. Não se trata de intolerância, tampouco de ego. É o receio de que, ao conceder espaço à divergência, esteja renunciando à própria interpretação dos fatos. Como se o ato de ouvir o outro fosse, paradoxalmente, uma forma de calar a si mesmo. Ele observa que, em muitas situações, há dois lados — e uma terceira posição: a abstenção. Mas essa abstenção não nasce da dúvida, e sim da impossibilidade de desagradar. É como se o silêncio fosse a única forma de não ferir, de não tomar partido, de não ser injusto com nenhum dos lados. E, nesse silêncio, surge a angústia: será que omitir-se é ser cúmplice d...

A Fome

  A fome tem muitas faces. Há a fome evidente, aquela que corrói o corpo e se manifesta em olhos cansados e mãos trêmulas. Mas existe também a fome invisível do conhecimento, da dignidade, da esperança. Enquanto alguns lutam contra o vazio do estômago, outros enfrentam a escassez de oportunidades, de afeto, de perspectivas. A fome não é apenas a falta de alimento; é a ausência do que sustenta a vida em sua plenitude. Em um mundo de excessos, onde sobras se acumulam e desperdícios se tornam rotina, a fome persiste. Não por falta de recursos, mas pela desigualdade que separa quem tem de quem precisa. Erradicar a fome não é apenas alimentar bocas, mas nutrir almas. Dar acesso, garantir respeito, criar caminhos para cada ser humano poder viver sem sentir o peso da escassez. Porque ninguém deveria ter que lutar pelo básico.

Una Colaboración Para el Almuerzo – Una Propina

  Minha jornada pelo território portenho parecia simples no mapa, mas tinha a precisão de uma operação militar. Entramos pela velha Uruguaiana, terra da Califórnia da Canção, e seguimos rumo a Paso de Los Libres — onde a normalidade, aquela que sempre engana viajante experiente, resolveu acabar. As histórias sobre o trajeto até Buenos Aires variavam entre verdade, exagero e pura superstição de fronteira. Mas quem carrega o espírito do pampa não teme o desconhecido; apenas o respeita. E assim seguimos, até sermos parados na aduana por uma figura sisuda, bigode de décadas e postura de decreto oficial. Entre nós, ganhou imediatamente o apelido inevitável: Sargento García. "La documentación del vehículo, matafuego , botiquín de primeros auxílios e control en el baúl,  por favor . ”  Foi aí que a comédia começou: ao abrir o porta ‑ malas, surgiu um pared ã o de malas que desanimaria qualquer fiscal motivado. Garc í a franziu o cenho — n ã o por suspeita, mas por pregui ç a....

A Sacola das Sardinhas

  A primeira aventura pelas vielas do Porto parecia coisa de filme: ruas estreitas, fachadas azulejadas, cheiro de café com maresia… tudo tão bonito que dava vontade de pedir para a cidade ficar quietinha um minuto só para a gente conseguir prestar atenção. Cada esquina era motivo para uma foto. E cada foto era motivo para mais turistas pararem, olharem e fotografarem também, como se estivéssemos todos numa coreografia espontânea de deslumbramento coletivo. Porto tem esse poder: transforma qualquer adulto responsável em criança solta numa loja de brinquedos. Foi então que encontramos o templo sagrado da cultura portuguesa: uma loja de sardinhas. Mas não sardinhas comuns. Eram sardinhas com pedigree , sardinhas que pareciam ter passado por um curso de artes plásticas. Latas tão lindas que pareciam ter sido pintadas por artistas renascentistas em seus momentos de lazer. Vasculhamos as prateleiras como se estivéssemos procurando o Santo Graal marinho. Escolhi minhas preciosidades: ...

Meu Álbum de Figurinhas

  Em tempos de Copa do Mundo, é normal falarmos de álbum de figurinhas. Eu mesmo financiava minha coleção com um esquema altamente sofisticado: os tostões “esquecidos” nos bolsos do paletó do meu pai ou no cofrinho de barro — aquele do porquinho gorducho que minha mãe guardava. Era tipo banco estatal: difícil de abrir, mas, quando abria, vinha verba. Eram tempos difíceis, e o único alimento possível era o pão nosso de cada dia. Lembro bem: os farelos espalhados sobre a mesa confundiam-se com os cromos coloridos. O mundo inteiro cabia naquele retângulo de madeira — continentes, estádios, heróis, sonhos. E eu, menino, acreditava que podia viajar sem sair de casa; bastava completar mais uma página do álbum. Havia álbuns de tudo: Tarzan pendurado em cipós, Jane com cara de quem já sabia que o Tarzan não ia dar futuro, e a Chita olhando de lado, tipo sogra desconfiada. As figurinhas vinham grudadas em balas carameladas, adoçando a infância com açúcar e aventura. Mas nenhum deles m...

Espumas ao Vento

  Confesso que, mesmo vivendo em plena era das fibras ópticas supersônicas — onde a informação atravessa continentes antes mesmo de eu terminar um gole de café — ainda me surpreendo com a capacidade humana de transformar qualquer coisa em assunto do momento.  A modernidade me deixa atônito, mas nada, absolutamente nada, me preparou para ver um detergente assumir o papel de celebridade global. Enquanto engenheiros enviam sondas para Marte e médicos imprimem órgãos em 3D, nós estamos aqui, firmes e fortes, debatendo apaixonadamente sobre um frasco de sabão. A humanidade realmente sabe priorizar. É claro que existem órgãos fiscalizadores. Eles testam, analisam, certificam. Fazem o trabalho sério. Mas a internet? Ah, essa não precisa de laboratório. Basta um vídeo tremido, uma legenda dramática e pronto: nasce a nova verdade absoluta. O detergente, que só queria lavar um prato em paz, agora precisa se defender de acusações dignas de tribunal internacional. E o mais fascinante é a ...

O Bobo da Corte e a Inquisição dos Preços

A vida me ensinou muitas coisas, mas nenhuma tão intrigante quanto uma interrogação. Sim, uma simples interrogação — esse gancho torto que, ao invés de puxar respostas, puxa metade da minha capacidade de entender o mundo. Parece exagero, mas não é. Eu realmente travo. Principalmente quando o assunto envolve… combustível. Porque lá estou eu, inocente, diante da bomba — não há que explode, a outra, a que suga a alma e o salário — e leio em letras garrafais: GASOLINA. Só gasolina. Simples. Direta. Objetiva. Só que não. A tal gasolina, descubro eu, é um fóssil. Não no sentido de ultrapassada, mas no sentido literal: restos de dinossauros, samambaias jurássicas e sei lá mais o quê. Até aí tudo bem. O problema é quando vem a Gasolina Comum, que de comum não tem nada. Tem 27% de álcool anidro, um toque de enxofre, e provavelmente um pouco de lágrimas de consumidores, mas isso a lei não exige declarar. E as outras variações? Ah, essas são um carnaval químico. Cada uma com seu tempero, seu arom...

Buracos no Caminho

Já subi a encosta do Vesúvio, sentindo sob os pés o silêncio quente de um vulcão que ainda respira. Pisei nas alamedas de Pompéia, onde o tempo se petrificou em cinzas e memórias. Desbravei as encostas da ilha de Capri, deixando que as águas do Mediterrâneo molhassem minha pele como quem batiza um viajante para novas jornadas. Do Atol das Rocas ao ponto mais setentrional do continente europeu, atravessei latitudes como quem coleciona horizontes. Observei o Atlântico com a visão de um desbravador desde a torre de Belém, imaginando caravelas rasgando mares desconhecidos. No Coliseu senti a energia dos gladiadores ecoando pelas pedras, e quase ouvi a agitação na Tribuna de Júlio César. Caminhei pelas ruínas do Fórum Romano, onde imperadores conduziam os destinos de Roma com gestos que ainda parecem vibrar no ar. Nos labirintos subterrâneos da cidade, percorri caminhos tocados por Da Vinci e Michelangelo, mestres que moldaram o Renascimento com mãos que pareciam conversar com a luz. ...

Crônica de Uma Mãe Invencível

  Minha mãe era dessas mulheres que o tempo não apaga. Não porque fez barulho no mundo, mas porque fez silêncio — e dentro dele construiu vidas inteiras. A minha, sobretudo. Foi ela quem me deu a vida e, depois disso, nunca mais descansou. Quando eu era pequeno, cuidava de mim como quem protege um tesouro raro. Quando cresci, continuou me protegendo, como se o mundo lá fora fosse grande demais para um filho só. E talvez fosse mesmo, mas com ela por perto tudo parecia caber na palma da mão. Eu e meu irmão crescemos vendo aquela mulher transformar esforço em amor. As roupas lavadas no tanque de concreto, a água gelada cortando a pele nos invernos rigorosos, o sabão em barra deslizando firme entre os dedos. O ferro a carvão chiando, cuspindo calor, enquanto ela engomava camisas alvas para comissários e pilotos da Varig — um brilho de céu dentro da nossa casa simples. Havia também as fardas militares, os ternos alinhados dos diretores do Banco do Brasil. Cada peça que ela entregava par...

O Xerife

  Todo bairro tem suas lendas, mas poucas andam de bicicleta, carregam um apito e ostentam uma estrela no peito. No nosso pedaço de mundo, entre o cheiro de pitangueira e o vento frio vindo do Guaíba, reinava o “Xerife” — figura folclórica, meio guardião, meio artista, totalmente inesquecível. Ele surgia sempre no silêncio da madrugada, quando até os vira-latas cochilavam e as janelas eram apenas sombras. A Monark dele, já cansada de guerra, rangia como se contasse histórias próprias. E antes mesmo de avistá-lo, vinha o aviso: o apito. Aquele silvo agudo, que atravessava a noite como um telegrama urgente: “Estou aqui.” Para nós, moleques de calça curta, era música e susto ao mesmo tempo. A gente ria, claro — porque o Xerife, com seu quepe torto e o bigodinho à la Errol Flynn , parecia mais personagem de cinema do que autoridade. Mas também tremia um pouco, porque aquele uniforme de vigilante, com a estrela brilhando no peito, dava a ele um ar de policial de verdade. E policia...

A Verdadeira Amizade

  A verdadeira amizade é daquelas raridades que o tempo não corrói. É como uma joia antiga, lapidada pelas horas boas e pelas horas duras, que brilha justamente porque já atravessou tempestades. Nos dias de hoje, em que tudo parece correr depressa demais e as relações se desfazem com a mesma facilidade com que surgem, ter um amigo de verdade é quase um ato de resistência. Amigo é aquele que chega antes mesmo de ser chamado. Que percebe o silêncio, entende o olhar e traduz aquilo que nem nós conseguimos explicar. É quem segura firme quando o chão falta, quem oferece palavra quando a voz falha, quem nos devolve ao eixo quando a vida insiste em nos desalojar. E, ao mesmo tempo, é quem celebra nossas vitórias como se fossem próprias, quem vibra com nossas conquistas sem sombra de inveja, apenas com a alegria genuína de quem torce por nós. A amizade verdadeira não exige presença constante, mas oferece constância. Não cobra perfeição, mas entrega lealdade. É feita de gestos simples...

Já Não Somos Mais os Garotos Que Amavam os Beatles e os Rolling Stones

  Há dias em que a memória me pega pelo braço, como um velho amigo insistindo para revisitar histórias que o tempo tentou guardar em silêncio. Basta abrir a caixa de papelão no alto do armário — aquela mesma que já mudou de casa mais vezes do que eu gostaria de admitir — e lá estão eles: meus discos de vinil, sobreviventes de tantas mudanças e fases da vida. As capas, desbotadas como fotografias esquecidas, ainda carregam o cheiro de tardes mormacentas no bairro Ipanema. Era ali, entre ruas tranquilas e sonhos barulhentos, que a vida parecia sempre prestes a começar. Os bailes de garagem, improvisados com caixas de som que chiavam mais do que tocavam, eram o nosso passaporte para um mundo onde tudo era possível. A soda gelada, a Cuba Libre mal feita — mais rum do que cola, mais ousadia do que técnica — era o nosso batismo. Bebíamos fazendo careta, fingindo que entendíamos de drinques, quando na verdade só queríamos sentir que estávamos crescendo. Era o gosto da liberdade impro...

O Varredor Filósofo

  Com seu uniforme laranja e vassoura gasta, Seu Orlando varre as ruas do Centro como quem medita. Não reclama do lixo — entende que ele é parte da cidade, como o barulho, o cheiro e a pressa. Varre com ritmo, com respeito, com filosofia. Já foi professor, já foi bancário, já foi esquecido. Hoje, é guardião da calçada. Enquanto recolhe papéis, folhas e descuidos, murmura versos que decorou na juventude. Às vezes Drummond lhe escapa pelos lábios: “No meio do caminho tinha uma pedra...” E ele completa, reinventando: “...e no meio da calçada, tinha um resto de bala, uma bituca, um silêncio esquecido.” Os versos se misturam ao som dos passos apressados, ao chiado dos ônibus, ao pregão dos ambulantes. Poucos escutam. Mas ele segue, como quem planta palavras no asfalto. Os jovens o ignoram, os adultos o evitam. Alguns desviam como se a vassoura fosse ameaça. Outros jogam lixo no chão logo após ele passar. Seu Orlando não se ofende. Ele entende que a pressa cega, — e que o c...

Heranças de Afeto: Ser Avô

A vida segue seu curso num constante ir e vir, como se cada fim carregasse dentro de si o anúncio silencioso de um novo começo. Com o passar dos anos, percebo que as gerações não apenas se sucedem — elas nos transformam. Cada criança que nasce reacende algo que julgávamos adormecido: esperança, ternura, um amor que se renova sem pedir licença. Ser avô é viver esse renascimento de forma profunda, quase sagrada. Foi assim quando, em tempos distintos, chegaram meus primeiros netos, esses pequenos ocuparam um espaço dentro de mim que eu nem sabia existir. Trouxeram luz aos dias comuns, preencheram a casa com uma alegria que corre pelos corredores, como se a infância tivesse voltado para me lembrar de quem eu fui e quem ainda posso ser. Cada gesto deles reabre memórias antigas, desperta sensações guardadas, devolve ao cotidiano um frescor que só a inocência é capaz de oferecer. Ser avô é descobrir que o amor não se desgasta com o tempo — ele se aprofunda. É sentir o espírito paterno renasce...

O Figurino da Mentira Veste Roupa de Verdade

Outro dia me peguei pensando que a mentira anda mais arrumada do que muita gente por aí. Sai de casa perfumada, alinhada, com aquele ar de quem sabe exatamente para onde vai. E nós, distraídos, seguimos rolando a tela como quem passeia pela vitrine de um shopping : olhando tudo, absorvendo nada. A informação, que já foi artigo de luxo, virou poeira fina. Está em todo lugar, entra pelos olhos, pelos ouvidos, pelos cantos da casa. A gente respira notícia como quem respira ar poluído: sem perceber o que está entrando, só sentindo o peso depois. E no meio dessa névoa, surgem as frases motivacionais — essas pequenas almofadas de conforto que as redes sociais insistem em jogar no nosso colo. “Você é capaz”, “Acredite nos seus sonhos”, “Tudo acontece por um motivo”. A gente lê, dá um like automático e segue adiante, como quem passa por um outdoor repetido na estrada. Já nem repara. As notícias, então, parecem sombras de si mesmas. Surgem por toda parte com a mesma cara, mudando apenas o dis...

Quando a Cidade Perde a Memória

  Há dias em que Porto Alegre parece acordar mais leve — não por encanto, mas por ausência. Falta-lhe um pedaço. Um silêncio estranho paira onde antes havia um casarão de janelas altas, um sobrado de azulejos portugueses, um muro coberto de heras que testemunhou risos, brigas, encontros e despedidas.  A cada demolição, a cidade emagrece, mas não de forma saudável: perde massa histórica, perde identidade, perde alma. O estrondo das máquinas não é apenas ruído urbano; é uma espécie de luto metálico. O concreto que cai não é só concreto — são lembranças que se pulverizam no ar, como se a poeira carregasse consigo histórias que ninguém mais contará. E o pior é que tudo isso acontece sob o olhar cúmplice de legislações tortuosas, pareceres obscuros, autorizações que surgem como mágica, sempre a favor da pressa, nunca da preservação. A modernização, palavra tão bonita quando usada com cuidado, aqui vira desculpa. Especulação imobiliária se veste de progresso, mas seu perfume é o da ...

A Tarde Que Fiquei Triste

  Era uma tarde qualquer. Daquelas em que o céu parece ter esquecido como se faz azul. A chuva caía fina, persistente, como se lavasse lentamente os restos de um verão que já não voltaria. Na casa da praia, cercado pelo som das ondas e pelo silêncio das lembranças, divagava sobre o mundo, sobre o tempo que passa sem pedir licença. Pensava na velhice que se aproxima sorrateira, nas amizades que resistem — ou não — ao desgaste dos dias. A vida, naquele instante, parecia um livro cujas páginas estavam se desfazendo entre os dedos. Foi então que ouvi o lacônico sinal do celular. Uma notificação entre tantas outras, quase sempre irrelevantes. Abri a mensagem: “Bom dia!!!” Tão simples. Tão comum. Mas naquele contexto, carregava um peso inesperado. O que parecia apenas mais uma saudação digital escondia, nas entrelinhas, o fim de uma caminhada. A mensagem seguinte era clara, seca, definitiva. Uma amizade antiga, daquelas que pareciam eternas, estava se desligando dos laços que n...