Há dias em que Porto Alegre parece acordar mais leve — não por encanto, mas por ausência. Falta-lhe um pedaço. Um silêncio estranho paira onde antes havia um casarão de janelas altas, um sobrado de azulejos portugueses, um muro coberto de heras que testemunhou risos, brigas, encontros e despedidas. A cada demolição, a cidade emagrece, mas não de forma saudável: perde massa histórica, perde identidade, perde alma. O estrondo das máquinas não é apenas ruído urbano; é uma espécie de luto metálico. O concreto que cai não é só concreto — são lembranças que se pulverizam no ar, como se a poeira carregasse consigo histórias que ninguém mais contará. E o pior é que tudo isso acontece sob o olhar cúmplice de legislações tortuosas, pareceres obscuros, autorizações que surgem como mágica, sempre a favor da pressa, nunca da preservação. A modernização, palavra tão bonita quando usada com cuidado, aqui vira desculpa. Especulação imobiliária se veste de progresso, mas seu perfume é o da ...
Bem‑vindo ao blog de Nélson Menezes Florisbal — um lugar para histórias simples, humanas e cheias de verdade. Aqui você encontra crônicas breves que registram momentos do cotidiano: um gesto, um ruído, um encontro, um pensamento que surge no meio da pressa. São relatos que abraçam o leitor e mostram que, mesmo nos dias mais comuns, sempre há algo digno de ser contado.