Com seu uniforme laranja e vassoura gasta, Seu Orlando varre as ruas do Centro como quem medita. Não reclama do lixo — entende que ele é parte da cidade, como o barulho, o cheiro e a pressa. Varre com ritmo, com respeito, com filosofia. Já foi professor, já foi bancário, já foi esquecido. Hoje, é guardião da calçada. Às vezes, enquanto limpa a sujeira dos outros, recita trechos de Drummond: “No meio do caminho tinha uma pedra...” “...e no meio da calçada, tinha um papel de bala, uma bituca, um silêncio”. Os versos se misturam ao som dos passos apressados, ao chiado dos ônibus, ao murmúrio dos vendedores. Poucos escutam. Mas ele segue, como quem planta palavras no asfalto. Os jovens o ignoram, os adultos o evitam. Alguns desviam como se a vassoura fosse ameaça. Outros jogam lixo no chão logo após ele passar. Seu Orlando não se ofende. Ele entende que a pressa cega, e que o chão é o último lugar onde se olha. Mas uma vez por semana, uma menina chamada Luana — s...
Bem‑vindo ao blog de Nélson Menezes Florisbal — um lugar para histórias simples, humanas e cheias de verdade. Aqui você encontra crônicas breves que registram momentos do cotidiano: um gesto, um ruído, um encontro, um pensamento que surge no meio da pressa. São relatos que abraçam o leitor e mostram que, mesmo nos dias mais comuns, sempre há algo digno de ser contado.