Todo bairro tem suas lendas, mas poucas andam de bicicleta, carregam um apito e ostentam uma estrela no peito. No nosso pedaço de mundo, entre o cheiro de pitangueira e o vento frio vindo do Guaíba, reinava o “Xerife” — figura folclórica, meio guardião, meio artista, totalmente inesquecível. Ele surgia sempre no silêncio da madrugada, quando até os vira-latas cochilavam e as janelas eram apenas sombras. A Monark dele, já cansada de guerra, rangia como se contasse histórias próprias. E antes mesmo de avistá-lo, vinha o aviso: o apito. Aquele silvo agudo, que atravessava a noite como um telegrama urgente: “Estou aqui.” Para nós, moleques de calça curta, era música e susto ao mesmo tempo. A gente ria, claro — porque o Xerife, com seu quepe torto e o bigodinho à la Errol Flynn , parecia mais personagem de cinema do que autoridade. Mas também tremia um pouco, porque aquele uniforme de vigilante, com a estrela brilhando no peito, dava a ele um ar de policial de verdade. E policia...
Bem‑vindo ao blog de Nélson Menezes Florisbal — um lugar para histórias simples, humanas e cheias de verdade. Aqui você encontra crônicas breves que registram momentos do cotidiano: um gesto, um ruído, um encontro, um pensamento que surge no meio da pressa. São relatos que abraçam o leitor e mostram que, mesmo nos dias mais comuns, sempre há algo digno de ser contado.