Há coisas que a gente não conta para muita gente. Não porque sejam segredos, mas porque moram num lugar tão delicado da memória que dá medo de estragar ao tocar. A Maria Fumaça é uma dessas coisas minhas — dessas que vivem entre o peito e o silêncio. Lembro-me, ainda muito pequeno, de estar dentro de um daqueles vagões de madeira. As imagens são vagas, como fotografias antigas meio desbotadas, mas ainda assim carregadas de afeto. Os bancos forrados de couro, o balanço suave da composição, o trocador passando com seu perfurador de bilhetes — tec, tec, tec — e a paisagem se abrindo pelas janelas como um filme que só existia para quem estivesse ali. Depois veio o trenzinho de lata, no Natal. Colorido, barulhento, meio torto. Mas era meu. E eu o fazia rodar pela casa inteira, como se pudesse recriar, na sala, a emoção que eu ainda não sabia nomear. Acho que foi ali que percebi que algumas paixões não se escolhem — elas simplesmente acontecem, como um sopro. Na adolescência, quando o...
Bem‑vindo ao blog de Nélson Menezes Florisbal — um lugar para histórias simples, humanas e cheias de verdade. Aqui você encontra crônicas breves que registram momentos do cotidiano: um gesto, um ruído, um encontro, um pensamento que surge no meio da pressa. São relatos que abraçam o leitor e mostram que, mesmo nos dias mais comuns, sempre há algo digno de ser contado.