O problema começou com um único pingo. Uma gota trêmula, que escorria pelo telhado de zinco da velha casa de madeira como se carregasse um presságio sombrio. No início, eu até suportava aquele tic… tic… tic… ritmado, que nas noites chuvosas de inverno parecia compor uma melodia triste para meus pensamentos mais profundos. Era quase poético — até o instante em que deixou de ser. Porque infiltração, meu caro, é como visita inconveniente. Aquele primeiro sinal, que eu até tratava com certa paciência, logo convocou reforços. E vieram todos. Uma verdadeira procissão de gotas, cada qual revelando sua própria maneira de cair: a que despenca torta, a que desaba com violência, a que cai preguiçosa — como se soubessem que a escuridão amplifica qualquer desespero. O assoalho, coitado, recebia resignado aquela torrente doméstica, como quem diz: “É a vida, fazer o quê”. E eu ali, deitado, ouvindo o tilintar das gotas ecoar pelas entranhas da casa — e pelas minhas também. Às vezes o som par...
Bem‑vindo ao blog de Nélson Menezes Florisbal — um lugar para histórias simples, humanas e cheias de verdade. Aqui você encontra crônicas breves que registram momentos do cotidiano: um gesto, um ruído, um encontro, um pensamento que surge no meio da pressa. São relatos que abraçam o leitor e mostram que, mesmo nos dias mais comuns, sempre há algo digno de ser contado.