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Mostrando postagens de julho, 2026

Os Jurássicos

    O reencontro começou do jeito que as melhores histórias começam: por acaso. Dois setentões, sobreviventes das curvas do destino, esbarraram-se numa esquina qualquer. Um reconheceu o outro, e pronto: estava armado o início da saga. O café entrou em cena como testemunha ocular. Entre goles, risadas e aquele ritual de ajustar óculos para enxergar melhor o passado, lembraram as aventuras do bairro, as peladas de domingo, as serenatas mal ensaiadas e das paixonites que nunca deram certo. E ali, entre uma história e outra, decidiram: “Vamos reunir o resto da tropa.” A tropa, claro, já não era bem tropa — era mais um museu de figuras raras espalhadas pelo mundo. Cinco décadas tinham passado. Uns se casaram, outros descasaram, alguns mudaram de cidade, outros mudaram de dimensão. A vida tinha feito o que sempre faz: embaralhado tudo. Mas havia algo ainda mais extraordinário nessa ausência prolongada: o mundo tinha virado de cabeça pra baixo. A velha calculadora virou caixa eletr...

A Goteira

  O problema começou com um único pingo. Uma gota trêmula, que escorria pelo telhado de zinco da velha casa de madeira como se carregasse um presságio sombrio. No início, eu até suportava aquele tic… tic… tic… ritmado, que nas noites chuvosas de inverno parecia compor uma melodia triste para meus pensamentos mais profundos. Era quase poético — até o instante em que deixou de ser. Porque infiltração, meu caro, é como visita inconveniente. Aquele primeiro sinal, que eu até tratava com certa paciência, logo convocou reforços. E vieram todos. Uma verdadeira procissão de gotas, cada qual revelando sua própria maneira de cair: a que despenca torta, a que desaba com violência, a que cai preguiçosa — como se soubessem que a escuridão amplifica qualquer desespero. O assoalho, coitado, recebia resignado aquela torrente doméstica, como quem diz: “É a vida, fazer o quê”. E eu ali, deitado, ouvindo o tilintar das gotas ecoar pelas entranhas da casa — e pelas minhas também. Às vezes o som par...

Quem Lembra do Trocador?

  Voltemos aos anos 1960, quando carro era privilégio de poucos e viajar de ônibus era, de fato, viajar. Ir de Ipanema ao Centro de Porto Alegre podia levar duas horas. Para quem não viveu essas aventuras coletivas, vale decifrar o ritual. A distância era grande, a velocidade modesta e, não raro, o ônibus precisava reabastecer no caminho para completar o trajeto. A ligação entre a longínqua Ponta Grossa e o Centro exigia superar uma série de obstáculos viários, especialmente a subida — ou descida — da Pedra Redonda, que parecia testar a coragem do motor, a fé dos passageiros e a habilidade do motorista em evitar que o ônibus voltasse de ré. Só depois desse desafio chegávamos ao ponto onde se fazia a troca de ônibus — então chamada de “baldeação” — no D.A.T.C., o Departamento Autônomo de Transportes Coletivo, criado em 1947 e situado no bairro Tristeza. (1) Os ônibus eram personagens por si só: o Papa-fila (FNM), o Renault, o Available , o Mercedes-Benz. Cada modelo tinha se...

O Outro Ipanema

  Quando cheguei, ainda pequeno, Ipanema era um balneário. As casas, muitas em estilo bangalô de madeira, davam ao lugar um charme que hoje só existe nas fotografias desbotadas. O ano era 1955. As ruas e avenidas tinham nomenclaturas pitorescas, homenagens aos bairros cariocas: Rua da Gávea, Flamengo, Leme, Leblon… Viver ali naquele tempo era ser considerado “nativo”, pois a maioria das residências eram casas de veraneio de famílias abastadas e tradicionais da sociedade porto-alegrense. Cresci entre o Guaíba — ainda rio — e ruas arborizadas, com pitangueiras que perfumavam o ar e sabiás que anunciavam o alvorecer. No verão, as areias escaldantes nos empurravam para o refúgio dos banhos de praia, sempre próximos à Taba, tradicional bar e restaurante da orla, ponto de encontros, conversas e namoros. Naquele mesmo bairro havia uma associação que reunia nomes prestigiados da sociedade: velejadores, tenistas, jogadores de basquete, vôlei, bocha e bolão. Alguns chegaram a se destac...

Ausência

  Dizem que ele sumiu. Ninguém sabe ao certo quando começou o desaparecimento, mas alguns analistas em convivência — garantem que foi logo depois de perceber que suas mensagens no grupo recebiam a mesma atenção dedicada aos termos de uso do WhatsApp: absolutamente nenhuma Ele, pobre criatura otimista, tentou interpretar o fenômeno. Imaginou que o mundo estivesse ocupado demais, ou que o sinal tivesse caído, ou que todos os seus amigos tivessem sumido. Mas não: estavam todos lá, vivíssimos, hiperativos, enviando figurinhas, memes reciclados, vídeos de bom dia com flores animadas e correntes motivacionais que prometem riqueza se você encaminhar para 12 pessoas. Só não estavam… com ele. A ausência, portanto, não era um acidente. Com o tempo, ele percebeu que o silêncio digital tem uma habilidade extraordinária: não apenas isola, mas também apaga. A cada dia sem resposta, sentia-se como um arquivo sendo arrastado para a lixeira — e sem direito a backup. Mas eis que, num raro momento...

Ser Avós

  A data chega suave, como quem pousa os pés na memória. É um dia comum, mas traz um brilho que só o tempo entende. Ser avós é renascer para o amor — um amor que não cobra, não exige, não pesa. É ser pais outra vez, porém com asas soltas e o coração desarmado. Ser avós é desfazer regras com delicadeza, abrir frestas no cotidiano, permitir que a vida escorra leve. É oferecer chocolate na hora proibida, refrigerante entre as refeições, e transformar pequenos desvios em grandes aventuras. É pular compromissos, inventar fugas, caminhar sem destino para lugar nenhum — e ainda assim chegar sempre ao afeto. Há uma arte nisso: a arte de amar sem moldura, sem manual, sem medo. Somos assim — todos somos assim — guiados por um instinto que não calcula consequências, apenas multiplica ternuras. Ser avós é ser abrigo, é ser conselho, é ser porto onde o tempo repousa. E quando o dia é lembrado, o coração se estreita. A distância às vezes dói, e então voltamos aos cenários antigos, às exp...

Dia do Escritor

  Hoje decidi mudar o tema da crônica. A data merece destaque: é Dia do Escritor, e não poderia deixar passar em branco algo que, de certa forma, atravessa meu caminho. O calendário vive cheio de comemorações — santos, efemérides, homenagens históricas, lembranças afetivas e datas criadas apenas para movimentar o comércio. Algumas, porém, carregam uma ternura essencial, como o Dia das Mães. Outras celebram figuras que moldaram nossa cultura. Entre minhas relações, tenho amigos que cultivam a palavra com talento, e escritores que admiro profundamente, daqueles que leio tudo o que publicam. Ler é hábito que trago desde a juventude. Para meus filhos, os presentes preferidos sempre foram vales ‑ livro; cresceram cercados de hist ó rias, capas coloridas e personagens que atravessam gera çõ es: Dom Quixote, O Pequeno Pr í ncipe, os contos dos Grimm, Gulliver e tantos outros. Nos tempos atuais, fiquei incrédulo ao ver que alguns desses clássicos vêm sendo contestados por supostos conteú...

O Smartphone

  O celular foi sucedido por um objeto ainda mais ambicioso: o smartphone , essa máquina extraordinária que redesenhou a comunicação humana e acelerou o que antes era lento, trabalhoso e cheio de ruídos. Nos anos 90, surgiu com pompa — grande, pesado, de sinal caprichoso — mas carregava um brilho social inegável. Ter um celular era ostentar pertencimento ao grupo dos privilegiados. Era mais símbolo do que ferramenta. Com o tempo, porém, o objeto cresceu em inteligência. Ganhou funções, ampliou alcance, atravessou fronteiras. De repente, notícias de um terremoto na Ásia chegavam em segundos; resultados esportivos eram instantâneos; o mundo cabia na palma da mão. O aparelho deixou de ser acessório e virou extensão do corpo. Quase o vestimos. A tecnologia avançou tanto que o nome precisou mudar: smartphone . Agora ele digita, fotografa, grava, envia, recebe, armazena, vigia — e, ironicamente, ainda é possível telefonar, como nos tempos do velho aparelho de Graham Bell. O que não pre...

Ela Voltou

  A enchente retorna, devastadora, deixando danos irreparáveis e enclausurando comunidades inteiras. O Sul novamente submerso, famílias ilhadas, cidades paralisadas — E nós, espectadores de uma tragédia repetida, retomamos o velho ritual: indignação, acusações, promessas, discursos. As críticas surgem com tom de terra arrasada, como se tudo fosse culpa exclusiva da política. Sim, há omissão, negligência e falta de planejamento. Há gestores que tratam rios como ornamento e só lembram da Defesa Civil quando a água invade o gabinete. Mas reduzir tudo à incompetência pública é confortável demais — e nos absolve. A verdade incômoda é outra: o planeta está cobrando a conta. Nenhum órgão meteorológico controla uma atmosfera em desequilíbrio. Nenhum radar impede chuvas torrenciais. Nenhuma barragem segura a fúria de encostas desmatadas e rios estrangulados por ocupações irresponsáveis. Seguimos repetindo o erro de tratar a natureza como inimiga, quando ela apenas responde ao que fizemos ...

A Vírgula

  Usada para listar coisas, ações ou características que possuem a mesma função sintática, é proibida quando interrompe a conexão natural entre os termos da frase. Até aqui tudo certo — definições gramaticais nos compêndios escolares e dicionários. Mas o que pretendo escrever é sobre os efeitos desse pequeno sinal de pontuação. Na escola eu era um aluno mediano — não por falta de esforço, mas porque a vírgula já me perseguia desde cedo. Ler e escrever não eram minhas maiores habilidades, embora eu tivesse uma fome literária digna de personagem de romance. Gostava de livros, de folhear páginas, de cheirar papel (sim, eu era esse tipo de criança). Isso acabou me levando ao curso técnico de artes gráficas: virei tipógrafo, linotipista, profissional da palavra — mas apenas da palavra impressa, porque a escrita, essa danada, continuava me olhando torto. Mas vamos em frente. São tantas as vezes em que nos deparamos com frases construídas em ritmo acelerado, onde o atropelo da fala conj...

A Copa Acabou

  A Copa acabou — e, como toda grande festa, deixou aquele rastro de barulho, lembranças e pequenas irritações que só quem ficou do lado de fora das quatro linhas percebe. O campo se fecha, os refletores se apagam, mas nós, espectadores, continuamos remoendo o que realmente nos marcou. E não estou falando do campeão, nem do gol perdido aos 47 do segundo tempo. Falo da Copa vista por quem não correu, não suou, não levou cartão — e, claro, não atuou como VAR. Antes mesmo de a bola rolar, já havia espetáculo. O cerimonial das partidas se transformou em um show à parte: o desfile impecável dos atletas, as bandeiras tremulando com precisão quase coreográfica, os hinos ecoando em estádios lotados, cada detalhe milimetricamente organizado para emocionar. Era como se cada jogo começasse com uma celebração própria, um ritual de beleza rara que preparava o público para o drama que viria depois. E, no meio disso tudo, a interação das torcidas caracterizadas — um mosaico de cores, sotaques...

Ter Amigo

  Ter amigo é uma dessas tarefas da vida que não cabe em definição única. Podemos nomeá-los com mil adjetivos: tem os que abraçam forte, os que choram junto, os solidários, os chatos, os que chegam de repente, os que dividem tudo, os brigões, os irônicos. Cada um com seu ritmo, sua maneira de existir. E, mesmo tão diferentes, todos são amigos. Ter amigos é construir escadas para alcançar espaços inimagináveis. É erguer pontes que atravessam o tempo, preservando identidades, histórias e afetos. É cultivar relações duradouras, mesmo quando a vida muda tudo de lugar. Eu tenho muitos amigos — cada um com seu temperamento — e hoje eu celebro todos eles. Não pelo número no calendário, mas pelo significado que esse dia carrega. Hoje, muitas frases serão lembradas, muitas histórias revisitadas, muitas memórias ternas dos que partiram, deixando seu legado, sua luz e sua trajetória escrita em nossos corações. Recordar os risos e as lágrimas, os encontros e desencontros, as reconciliações, é ...

A Estrada Velha

  Por muitos anos, foi o elo entre Porto Alegre e o litoral norte. Antiga rota de tropeiros e carroças, a velha RS ‑ 17 carregava hist ó rias antes mesmo de ter nome. Depois virou ERS ‑ 030, mas para quem a percorreu, continuou sendo simplesmente a Estrada Velha. Perdeu protagonismo com a construção da Freeway , é verdade, mas nunca perdeu caráter. Foi por ali que cheguei ao litoral inúmeras vezes, conduzindo meu Chevette “Tubarão” 1 , fiel companheiro de aventuras. E como havia aventuras. Chuvas torrenciais transformavam o caminho em desafio, buracos surgiam como armadilhas, e todas as mazelas que só quem viajou por aquela estrada conhece. Mas nem tudo era ruim — longe disso. A parada em Santo Antônio da Patrulha era um ritual que ninguém ousava quebrar. Desde os tempos da colonização açoriana, a cidade se tornou ponto de descanso e abastecimento, e ainda guarda esse espírito. Ali, cumpria-se o velho costume: aliviar a bexiga, alongar o esqueleto e, sobretudo, render-se aos ...

A Difícil Arte de Falar do Óbvio

  Falar sobre o óbvio sempre traz um certo desafio — afinal, nada mais difícil do que explicar aquilo que todo mundo já sabe, mas insiste em fingir que descobriu sozinho. Tempos atrás escrevi sobre Neymar, “a unanimidade nacional”. Unanimidade, claro, no sentido brasileiro da palavra: todo mundo concorda até alguém discordar. Cada um tem suas predileções, e o contraditório é lindo… quando não é você quem está errado. Mas hoje quero falar de outra unanimidade, desta vez internacional: Messi. Sim, ele mesmo, o argentino que me obriga a elogiar argentinos — o que, convenhamos, já é uma violência emocional. Falando de maneira geral, minha admiração pelos vizinhos é relativamente limitada. E não coloco em disputa minhas intenções quando o assunto é futebol. Para deixar explícito meu pensamento, registro: Pelé foi melhor . E não é opinião, é constatação científica. Risos. Mas vamos ao Messi. O menino de Rosário, diagnosticado aos 11 anos com deficiência do hormônio do crescimento, ac...

O Ofício de Escrever

  Escrever diariamente é um hábito prazeroso, embora carregado de desafios. É preciso estar atento aos fatos do momento, vencer a barreira quase intransponível da língua com suas nuances gramaticais e, sobretudo, lidar com o temor de não saber como o leitor irá reagir ao texto. Quem escreve precisa ter a sensibilidade e a imparcialidade como meta — e isso nunca é simples. Dias atrás, fui despertado por um comentário de um leitor: “Crônica sensata para um tema conflitante. Parabéns pela abordagem instigante.” A leitura dessas palavras, tão singelas, cria no autor uma responsabilidade nova: a de continuar abordando questões diárias, sociais e reflexivas, oferecendo ao leitor algo que o toque, o provoque, o faça pensar. Comentários assim são pequenos prêmios, discretos, mas profundamente gratificantes. É por narrativas assim que sigo firme e constante nas minhas escritas. Continuo buscando inspiração para criar textos que, mesmo nos dias mais comuns — quando tudo parece igua...

Ilhas Malvinas ou Falklands?

  Hoje, ao escolher o tema da minha crônica diária, deparei-me com um daqueles assuntos que parecem escolhidos pelo destino: Argentina e Inglaterra na semifinal da Copa do Mundo de 2026. A coincidência é irresistível, sobretudo porque esses dois países carregam uma disputa secular cuja legitimidade permanece envolta em interpretações, lacunas e narrativas que mudam conforme o narrador. Desde 1592, acumulam-se desembarques, expulsões, bandeiras hasteadas e retiradas, tudo embalado por Bulas Papais, Tratado de Tordesilhas e leituras convenientes da história. No centro de tudo, uma dúvida que nunca se dissipou: afinal, de quem são as ilhas? Documentos e versões existem aos montes — consenso, não. Em 1833, o Reino Unido expulsou o governador e a guarnição argentina, assumindo o controle das Malvinas — hoje um dos 14 Territórios Ultramarinos Britânicos. Em termos bem brasileiros, foi “na mão grande”. Mas nem isso encerrou a questão: para muitos historiadores, a legitimidade britânica se...

A Outra Queda da Bastilha

  Hoje, 14 de julho. Há aproximadamente duzentos anos, entre rebeliões, forcas, autoritarismo e uma crise econômica que parecia não ter fim, a França do Iluminismo fez capitular a Bastilha. Assim aprendi na escola: um povo exausto derrubando um símbolo de opressão e inaugurando a Revolução Francesa. Coincidentemente — ou talvez não — hoje a seleção francesa vai a campo buscando reafirmar, em outro tipo de batalha, aqueles mesmos preceitos de liberdade, igualdade e fraternidade. Abro aqui um parêntese para lembrar que França e Espanha já se enfrentaram em cenários bem mais sombrios: a Guerra dos Trinta Anos, com suas alianças instáveis e ambições territoriais; e, em outras épocas, a figura de Napoleão, com sua genialidade estratégica e suas explosões de raiva quando contrariado, redesenhando mapas e destinos. A história, caprichosa como sempre, insiste em repetir seus duelos — ainda que em campos de grama bem aparada. Hoje, o confronto se reencena em novas personagens: Mbappé x Yama...

Coisas Que Sinto Saudades

  Sinto saudade das bolinhas de gude, do carrinho de lomba, de soltar pipa, de jogar taco, de tomar banho no Guaíba. A cidade era o quintal da minha geração, e nós éramos donos de um tempo que não tinha pressa. Hoje caminho e sinto falta daquele romantismo simples, daquela ingenuidade que permitia errar sem o olhar inquisidor das mídias do século 21. Não reconheço mais aquela Porto Alegre dos Casais, onde o amor parecia ter mais tempo. Bancos, cinemas, cafés — tudo era pausa, tudo era encontro. Agora tudo corre, até os sentimentos. Também sinto saudade das quermesses na escola, do desfile da juventude, dos bailes de garagem onde a vida começava — tímida, desajeitada, bonita. Ali nasciam amizades, paixões, promessas que o tempo levou. Sinto falta dos sabores que não voltam: o pão quente da padaria, o café passado na hora, o cheiro do Mercado Público misturado com histórias. E das conversas de antes, quando olhar nos olhos era suficiente e o silêncio não assustava. Envelheci, e o mun...

Cartas Marcadas

  Há dias em que, ao escrever, tenho a sensação de remar contra a maré. A palavra não flui, o pensamento tropeça, e qualquer tentativa de organizar o mundo no papel nasce com um gosto de desalinho. Talvez seja reflexo da minha frustração ao ver a seleção brasileira fora das pré ‑ classificadas para a pr ó xima fase da Copa do Mundo; talvez seja apenas a velha incapacidade de aceitar o ó bvio quando ele se imp õ e sem pedir licen ç a. Vivemos num mundo automatizado, onde quase todas as nossas escolhas — com raras exceções, se é que ainda existem — passam por filtros invisíveis, algoritmos silenciosos, estruturas que moldam nosso cotidiano sem pedir licença. Nesse labirinto de possibilidades pré ‑ programadas, minha desconfian ç a cresce como erva daninha. E, num impulso irracional, me encontro tentando procurar chifre em cabe ç a de cavalo, como se a l ó gica pudesse justificar o inc ô modo que me atravessa. Provavelmente não encontrarei nada. Mas o convencimento íntimo — essa t...

O Babaca

  Ontem eu testemunhei um espetáculo raro: a performance completa de um babaca em seu habitat natural. Começou cedo. Acordou já achando que o universo tinha decidido sabotá-lo. O despertador tocou no horário exato, como sempre, mas ele interpretou aquilo como um ataque pessoal. Levantou-se com a convicção de que tudo estava errado — inclusive coisas que estavam perfeitamente certas. No trânsito, buzinou para um senhor que dirigia com a calma de quem acredita que o tempo é um conceito opcional. No mercado, reclamou da fila. Uma fila de cinco pessoas, veja bem. Uma tragédia. Uma calamidade. Uma afronta à própria existência. Fez aquela cara de “isso aqui é um absurdo”, como se fosse um fiscal da eficiência humana. E soltou o clássico suspiro dramático — aquele que não muda nada, mas serve para avisar ao mundo que ele sofre de uma condição rara chamada impaciência aguda. Em casa, estava tão econômico nas palavras, distribuindo respostas curtas como quem entrega panfletos: sem olhar, ...

A Seta

  A evolução tem criado oportunidades nunca imaginadas para que o ser humano desenvolva suas capacidades intelectuais e criativas. Todos os dias, os noticiários anunciam avanços tecnológicos nas mais diversas áreas — medicina, comunicação, energia, transporte. Vivemos cercados de invenções que prometem facilitar a vida, ampliar horizontes, corrigir falhas.   Mas, ironicamente, o básico parece andar para trás. O elementar, aquilo que deveria ser natural, automático, está em regressão exponencial. É como se cada salto tecnológico empurrasse o ser humano um passo para fora da própria capacidade de pensar e reagir ao cotidiano. Hoje, dirigindo pelas avenidas da capital, me deparei com cenas desconcertantes, quase surreais. A indústria automobilística produz veículos guiados por sistemas de altíssima precisão, sensores que enxergam mais do que os olhos humanos, algoritmos que calculam riscos antes que o motorista perceba o perigo.   E, ao lado dessa sofisticação, o com...

Incredulidade

  Há temas que, de tão revisitados, parecem já ter perdido o brilho. A incredulidade é um deles. Essa velha conhecida que nos acompanha desde que o mundo é mundo, sempre pronta para se manifestar quando algo não bate, não encaixa, não convence. Como reza a falácia popular, “bate-se o martelo”, mas a verdade exposta continua a parecer torta, exagerada, suspeita. E então, quase sem que percebamos, aquela frase shakespeariana — há algo de podre no reino da Dinamarca — atravessa o pensamento como um reflexo condicionado, sinal de que a incredulidade ainda não nos abandona. O imponderável acontece. E quando acontece, desmonta nossas certezas com a delicadeza de um vendaval. Ficamos ali, meio zonzos, olhando para fatos que saltam aos olhos, que nos deixam pasmos, incrédulos, como quem tenta decifrar um truque de mágica. E nesta Copa do Mundo, a incredulidade resolveu fazer morada. Não é uma visita ocasional; é hóspede permanente. A cada rodada, a cada apito, a cada decisão que parece co...

A Outra Copa

Para nós, brasileiros, a Copa do Mundo acabou. Fecha-se o álbum, desmonta-se o bolão, e resta escolher outra nação para torcer — porque desistir de torcer não é opção. Daqui a quatro anos estaremos novamente, embora não todos, fazendo nossas apostas e prognósticos sobre quem evoluiu, quem regrediu, quem merece nossa simpatia temporária. É o ciclo natural do torcedor. Mas o que desejo escrever agora não é sobre a Copa do Mundo, e sim sobre a outra Copa: o futebol brasileiro, aqui mesmo, no nosso quintal. A competição mais longa e difícil do planeta, segundo especialistas esportivos, e que nos últimos anos tem exibido uma disparidade galáctica entre os líderes e a turma do meio da tabela. Dos lanternas nem convém falar — mas por ironia é necessário, pois ali, naquele pelotão de sofrimento, está a dupla dos pampas gaúchos. Vivi a esperança ilusória de que nossa seleção seria campeã, e assim esqueceríamos por um tempo das questões regionais e das mazelas esportivas. Infelizmente, meus ...

Eu, Meu Cão e o Guarda‑chuva

  Apareceu do nada, numa tarde cinzenta de outono. Chovia fino, quando vi um pequeno c ã o olhando atrav é s das grades do port ã o, tremendo de frio e medo, um fiapinho de vida encharcado. Era pequeno, frágil, agitado. Pelo jeito como surgiu, dava pra ver que buscava abrigo e comida. Talvez o instinto tenha guiado seus passos até ali, porque naquela casa encontraria exatamente o que precisava: afeto. Os dias passaram, e lá estava, todo santo dia, no portão. Abanava aquela penugem de rabo como quem diz “voltei”. Ganhou carinho, comida e um lugar. Nome, por enquanto, não tinha — era só presença, dessas que a vida coloca no nosso caminho sem explicação. Até que meu neto, com a simplicidade bonita das crianças, resolveu adotá ‑ la. Olhou pra ela, olhou pro c é u daquela noite e disse: Vai ser “ Lua. ” Talvez porque o c é u estava t ã o claro. “Lua” cresceu. Os meses viraram anos, e ela se acostumou à nossa casa de praia. Mas existe um problema: de tempos em tempos, precisam...

Adeus, Legião Estrangeira

  A seleção brasileira adiou, de novo, a busca pela sexta estrela. Nada surpreendente. O que entrou em campo não foi o Brasil — foi uma caricatura, uma cópia malfeita, sem alma, sem garra, sem brilho. Uma seleção que parece ter vergonha da própria identidade, moldada ao estilo europeu por convocações equivocadas e decisões tão tardias que, quando finalmente acordaram, já havia uma muralha viking esperando para nos lembrar do óbvio: quem não sabe o que é, não vence ninguém. O gosto da derrota é amargo, mas não injusto. É o sabor exato do que construímos: um time sem personalidade, sem coragem, sem rumo. Agora resta catar os cacos — e olha que são muitos — para tentar reinventar não apenas o futebol, mas a forma de pensar o futebol. Porque o que vimos foi um Brasil que não pensa, não reage, não sente. Apenas cumpre tabela. É difícil analisar com frieza quando a frustração ainda está quente, mas não dá para fingir que o problema foi só o adversário. Do outro lado havia equipes ...

O Videogame

Sou entusiasta das novas tecnologias e de seus benefícios. Utilizo constantemente as ferramentas disponíveis para pesquisas e para facilitar meu cotidiano. Mas faço questão de que qualquer revisão — seja de gramática, clareza ou estrutura — não substitua minha autoria. A tecnologia pode ajudar, mas não deve assumir o lugar da consciência humana. Vivemos tempos em que fake news , manipulações digitais e distorções de identidade se tornaram rotina. Textos, fotos e vídeos são fabricados com a mesma facilidade com que se aperta um botão. A veracidade, antes um valor, virou detalhe. E confesso: sinto-me desanimado com os caminhos que a humanidade escolheu trilhar, como se estivéssemos todos hipnotizados por uma tela que decide por nós. Ao pensar nisso, volto à década de 80/90, quando comprei para meus filhos o primeiro videogame. Aqueles bonecos multicoloridos corriam pela tela verde dos computadores, empunhando armas toscas e inocentes. Era tudo folclórico, amador, quase ingênuo. A h...

O Relógio

Sempre tivemos uma relação pouco amistosa, eu e ele.  Na infância, era o encarregado de me arrancar da cama para a escola. Nos dias em que alguma moléstia infantil me derrubava, lá estava ele marcando com precisão o horário dos remédios — aqueles de sabor salobro que pareciam castigo. Na adolescência, tivemos alguns momentos de trégua. Quando eu aguardava ansioso para encontrar a namoradinha, a pressa dos ponteiros finalmente jogava a meu favor. Mas, ao final das noitadas com amigos pelos bailes da vida, quando amanhecia, lá estava ele novamente, em parceria com minha mãe:  “Menino, já é hora de acordar. Você não tem vergonha de dormir até essa hora?” O tempo passou, e ele permaneceu. Registrou meu ingresso nos escritórios, definiu turnos, intervalos, almoços. Sempre ele, um perseguidor implacável do tempo.  Hoje, quando a idade enfim me concedeu o justo descanso da aposentadoria, continua marcando — agora com velocidade galáctica — o momento da minha extinção.  Mas,...

Frio no Polo Sul

  O dia nasceu com a respiração curta do inverno. Aqui no Sul, o frio não chega: ele se instala. Entra pelas frestas da casa como quem conhece o caminho, desliza pelas paredes, toca a pele com a precisão de uma lâmina recém-afiada. Há um silêncio branco na manhã, um silêncio que dói. É nesse instante que a memória se abre, como porta antiga rangendo no vento. Volto à infância — à casa humilde, ao chão de tábuas que guardava segredos de noites longas, ao estudante pequeno que eu era, caminhando para a escola com a coragem que só as crianças pobres carregam sem perceber.   O gramado amanhecia branco, um algodão frio cobrindo a terra. Havia beleza ali, mas uma beleza que mordia. Sob aquele véu gelado, escondiam-se as durezas que a manhã não tinha pudor de revelar. Meus pés, enfiados em tamancos de madeira, sentiam cada estalo do gelo. A tira de couro, rígida, parecia zombar da pele. Os dedos, encolhidos, davam a impressão de que se quebrariam ao menor descuido. E, no entanto, ca...

Divergência de Opiniões

  Já manifestei meu ponto de vista sobre essa questão em outra crônica — e, como sempre, descobri que opinião é igual a chute de atacante nervoso: cada um dá o seu, quase nunca acerta, mas insiste em repetir. O direito ao contraditório, dizem, enriquece debates. Enriquecer até enriquece, mas também cansa, irrita e às vezes dá vontade de pedir cartão vermelho para certos argumentos. Desenvolver raciocínio sobre determinados assuntos põe em xeque nossa capacidade de argumentação. E põe mesmo: há fatos tão visíveis, tão óbvios, tão escancarados, que só não vê quem não quer — ou quem prefere acreditar na teoria da conspiração da semana. No futebol, então, virou moda contestar tudo: a intervenção do VAR, a decisão do juiz, o vento que soprou a bola para a esquerda, e até a sombra do bandeirinha, que certamente estava ali com intenções obscuras. Com a avalanche midiática, os interesses extracampo se multiplicam como comentaristas em mesa-redonda: cada um com sua verdade absoluta, sua int...

Bilhete Premiado

  Sempre desconfiei dessa expressão “jogo de azar”. Há algo de ambíguo nela, quase irônico. Afinal, se é jogo, deveria ser de sorte. Quando compro um bilhete, espero o mínimo: que esteja premiado. Não é otimismo, é lógica. Se eu pago por um pedaço de papel colorido, quero que ele venha com algum brilho, nem que seja um prêmio de consolação, tipo “parabéns, você ganhou o direito de continuar acreditando”. Mas o bilhete, esse traidor silencioso, quase sempre devolve apenas um “tente outra vez”, que é a forma educada de dizer “perdeu, campeão”. O problema é que essa expectativa inocente esconde um outro lado, bem menos romântico. O jogo tem um charme perigoso. Ele se apresenta como quem não quer nada, piscando para você com aquele olhar de “vem, é rapidinho”. E aí entram os apostadores — figuras fascinantes, quase personagens de novela. Alguns são estrategistas, outros são poetas da esperança, mas a maioria é formada por otimistas profissionais, gente que acredita que a vida está pres...