Por mais de dois séculos ele esteve ali, ao pé da grande escadaria da mansão. O velho relógio cuco, datado de 1730, era muito mais do que um simples objeto de decoração. Sua presença silenciosa atravessara gerações, testemunhando risos, lágrimas, celebrações e despedidas. A cada hora, o pequeno pássaro surgia para anunciar a passagem do tempo com seu inconfundível “cu-cu” , um som que se misturava à própria identidade da casa. Constava nos relatos familiares que o primeiro morador da mansão o trouxera entre seus pertences mais valiosos, recebido como herança de antigos antepassados. Ninguém mais sabia ao certo quantas mãos o haviam preservado ou quantas histórias ele carregava em sua estrutura de madeira escurecida pelo tempo. Os mais velhos lembravam que, quando crianças, corriam pelos corredores e escadarias em meio às brincadeiras, sempre acompanhados pelo compasso regular do pêndulo. Era ele quem marcava a hora da merenda, dos deveres escolares, das aulas de piano e do banho ...
Bem‑vindo ao blog de Nélson Menezes Florisbal — um lugar para histórias simples, humanas e cheias de verdade. Aqui você encontra crônicas breves que registram momentos do cotidiano: um gesto, um ruído, um encontro, um pensamento que surge no meio da pressa. São relatos que abraçam o leitor e mostram que, mesmo nos dias mais comuns, sempre há algo digno de ser contado.