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Mostrando postagens de 2026

O Mercado Público

    Sempre que viajo, minha agenda inclui uma visita ao Mercado Público da cidade em que estou. É automático, um ato espontâneo que me leva a caminhar por entre bancas repletas de cores, sabores e aromas. É um deleite para os olhos e para o olfato. Queijos, embutidos, temperos, carnes; prateleiras e tulhas transbordam de produtos das mais diversas procedências. Os vendedores, quase membros da família, abordam a freguesia, cada um oferecendo seu produto como o de melhor qualidade e o de preço mais acessível. São os mais variados condimentos: açafrão, cominho, páprica, pimentas, louro, tomilho. Há também bacalhau, carnes especiais, farinhas e uma boa erva-mate para o chimarrão, além do vinho verde português. Logicamente, como em todo bom mercado público, existem os bares e restaurantes, com suas comidinhas regionais. Cada estabelecimento apresenta um cardápio próprio, capaz de despertar a curiosidade e proporcionar o deleite dos visitantes. E assim, entre uma viagem ...

O Tempo Não Está Acabando

    Hoje estava divagando sobre a vida e sobre tudo o que fizemos em nossa passagem por este plano. Fui tomado por uma ansiedade repentina enquanto minha mente percorria momentos vividos. Tantas alegrias, tantas tristezas e tantas dúvidas. Perguntei a mim mesmo o que ainda estou deixando passar nesse fio de vida que, dia após dia, segue correndo. A vida é boa demais. Ainda tenho muito a fazer, muito a contribuir. Tenho uma vontade danada de sair pelo mundo, conhecer novos lugares, viver novas histórias e aproveitar todas as possibilidades que meu trabalho agora me proporciona nesta fase da aposentadoria. O melhor presente que a vida me deu foi a família e os amigos, peças indispensáveis nesta jornada. São eles que dão sentido aos dias, que transformam momentos simples em memórias eternas e que fazem valer cada passo do caminho. E agora, quando meu maior objetivo é simplesmente viver, viver muito e viver bem, percebo que o tempo não está acabando. Na verdade, ele está...

Picumã (1)

  A casa de madeira era pequena, com apenas duas peças: a cozinha e um cômodo adjacente que servia, ao mesmo tempo, de sala e dormitório. Nos rigorosos invernos dos campos do Sul, a família reunia-se em torno do fogão a lenha de quatro bocas. O crepitar das brasas e os lampejos avermelhados refletidos nas paredes aqueciam aquele ambiente simples, onde o tempo parecia correr mais devagar. Entre um mate e outro, a panela de ferro, encrostada de gordura, cozinhava a carne do almoço. A fumaça escapava do fogão e subia lentamente em direção ao telhado de telhas de barro. Ali, onde as vigas se encontravam formando ângulos semelhantes a pequenas pirâmides, acumulava-se o “picumã” . Negro e espesso, nascido da fuligem de incontáveis fogueiras, ele se agarrava às ripas como se fizesse parte da própria construção. Crescia devagar, ano após ano, formando franjas escuras que balançavam quando o vento encontrava frestas entre as tábuas da casa. As teias de aranha, recobertas pela fumaça...

A Batina do Padre Salvatore

  Houve um tempo em que as missas dominicais da igrejinha do bairro reuniam quase toda a comunidade. Dizia-se que metade dos presentes comparecia por fé e a outra metade por simples curiosidade. Ninguém sabia ao certo se a conta era verdadeira, mas bastava olhar ao redor para acreditar. Os velhos bancos de madeira, gastos por décadas de joelhos penitentes, acolhiam figuras que hoje permanecem apenas na memória daqueles que viveram aqueles dias. Entre elas estava o Vesgo Caolho, homem magro como vara de pescar, que jamais perdia uma missa. Os mais maldosos comentavam que ele aparecia apenas para receber a hóstia, como quem garantia uma refeição. Ele, porém, sempre negava. — Eu venho pela palavra de Deus — costumava responder, limpando a boca logo depois da comunhão. Na primeira fila sentavam-se as irmãs Margarida, Madalena e Magnólia. Já haviam passado dos quarenta e muitos anos e nunca se separavam. Vestiam-se com discrição, carregavam enormes terços e rezavam com uma dev...

O Sorriso Perturbador

    A gargalhada ecoou de forma sinistra pelos corredores da enfermaria, espalhando-se pelos outros andares do prédio. Havia nela um tom sarcástico e perturbador. Como acontecia quase todas as noites, ele despertava sob uma estranha agonia. Seus olhos percorriam o quarto escuro, enquanto vultos pareciam deslizar pelas paredes. As atendentes do andar ficavam atônitas sempre que ele insistia em afirmar que estava sendo perseguido. Com o dedo apontado para o vazio, balbuciava palavras indecifráveis, como se tentasse alertar alguém sobre uma ameaça que somente ele conseguia enxergar. O silêncio que se seguia era ainda mais assustador. As funcionárias trocavam olhares inquietos, sem saber ao certo se presenciavam os delírios de uma mente atormentada ou algo que escapava à compreensão de todos. Assim, os anos foram passando, e aquele corpo quase inerte sobre a cama já não lembrava em nada o jovem audacioso e esbelto que, um dia, atraíra os olhares apaixonados de tantas mul...

Mexer em Vespeiro

    Na vida, certas circunstâncias merecem ser tratadas com a devida cautela. A pressa quase nunca foi boa conselheira e a afoiteza, como dizem os antigos, nunca foi madrinha para ninguém. Mexer em vespeiro é assim. Antes de agir, convém avaliar as consequências. Nem toda provocação merece resposta, nem toda verdade precisa ser dita de qualquer maneira. A vida ensina que prudência não é covardia. Prudência é inteligência. É compreender que algumas batalhas podem ser evitadas e que a serenidade costuma produzir resultados melhores do que a impulsividade. Há momentos em que o silêncio vale mais do que uma resposta imediata. Muitas vezes, uma palavra dita no calor da emoção tem o poder de criar problemas que a razão jamais teria permitido. E embora se diga que "palavras ditas o vento leva", a verdade é que algumas permanecem por muito tempo na memória de quem as ouviu. No fim das contas, a sabedoria está em saber distinguir quando falar, quando agir e, principalmente, ...

Chorar Sobre o Leite Derramado

    Hoje me veio à memória um dito popular que sem nenhuma razão filosófica, resolvi misturar com um assunto que vive aparecendo nos noticiários. Coisas da idade: a gente começa lembrando do leite derramado e termina falando de transporte público. Lembro bem daquela época. Era o ano de 1976, quando o vereador Sadi Schwerdt, icônico lateral-esquerdo do Sport Club Internacional, foi o autor do projeto da lei dos táxis-lotação. Mas o que quero deixar registrado, de certa forma, tem a ver com o ditado: "Não adianta chorar sobre o leite derramado". A junção desses dois fatos me remete aos dias atuais. Apesar de já ter passado meio século, as modernidades disponibilizam meios de transporte em abundância. Os carros tornaram-se comuns em grande parte das famílias, desde as mais humildes, para as quais os veículos são ferramentas de trabalho, até as mais aquinhoadas, que os utilizam para deleite próprio e demonstração de status. Com a evolução, novas formas de locomoção fo...

O Paciente do Quarto 69

    Ninguém compreendia a aversão que ela demonstrava sempre que precisava entrar no quarto 69. Para a equipe, era apenas mais um paciente: um homem reservado, de meia-idade, internado havia meses. Nada parecia justificar tamanho desconforto. Mas, ao se aproximar daquela porta, sentia o estômago revirar e o coração disparar. Era como se fosse arrastada para um passado que tentava esquecer. Após ser afastada do trabalho, refugiou-se em seu apartamento. Entre garrafas de whisky vazias e noites sem sono, abriu uma velha caixa guardada no fundo do armário. Dentro dela havia fotografias, recortes de jornais e lembranças que jurara nunca mais revisitar. Foi então que encontrou uma fotografia. Ao vê-la, empalideceu. Era ele. Mais jovem, mas inconfundível. O paciente do quarto 69 não era um estranho. Vinte e sete anos antes, havia sido o principal suspeito de um desaparecimento jamais esclarecido. Sem provas, o caso foi arquivado, e ela seguiu a vida acreditando ter ...

O Relógio Cuco

  Por mais de dois séculos ele esteve ali, ao pé da grande escadaria da mansão. O velho relógio cuco, datado de 1730, era muito mais do que um simples objeto de decoração. Sua presença silenciosa atravessara gerações, testemunhando risos, lágrimas, celebrações e despedidas. A cada hora, o pequeno pássaro surgia para anunciar a passagem do tempo com seu inconfundível “cu-cu” , um som que se misturava à própria identidade da casa. Constava nos relatos familiares que o primeiro morador da mansão o trouxera entre seus pertences mais valiosos, recebido como herança de antigos antepassados. Ninguém mais sabia ao certo quantas mãos o haviam preservado ou quantas histórias ele carregava em sua estrutura de madeira escurecida pelo tempo. Os mais velhos lembravam que, quando crianças, corriam pelos corredores e escadarias em meio às brincadeiras, sempre acompanhados pelo compasso regular do pêndulo. Era ele quem marcava a hora da merenda, dos deveres escolares, das aulas de piano e do banho ...

Os Fantasmas da Memória

  Passaram-se muitos anos. Ela havia se recuperado, ao menos em aparência, das situações adversas que fizeram dela uma mulher triste e emocionalmente fragilizada. Mas certas feridas não desaparecem; apenas aprendem a se esconder. O mundo ao seu redor era um emaranhado de dúvidas e questionamentos. Nunca mais foi a mesma. Vivia em permanente estado de alerta, como se algo terrível estivesse prestes a acontecer. O simples toque do telefone podia anunciar uma tragédia. Um atraso de poucos minutos transformava-se em motivo para angústia. Tudo servia de combustível para seus medos. O apartamento, localizado no final de uma rua sem saída, tornou-se seu refúgio e sua prisão. Durante o dia, era apenas mais um imóvel cercado pelo silêncio do bairro. À noite, porém, assumia outra forma. Os corredores pareciam mais longos, as sombras mais densas, os ruídos mais ameaçadores. Ali, entre paredes que guardavam lembranças demais, ela enxergava criaturas imaginárias. Não eram monstros de de...

Ser Gaúcho é um Estado de Espírito

    Vivemos mais uma Semana Farroupilha, período em que o orgulho de ser gaúcho se fortalece por meio de grandes celebrações da nossa cultura. Entre os destaques estão a Expointer e o Acampamento Farroupilha, eventos que simbolizam a força das tradições do Rio Grande do Sul. Somam-se a eles dezenas de iniciativas realizadas em diferentes regiões do Estado, mantendo vivas nossas raízes e reforçando o sentimento de pertencimento e identidade com esta terra. Ano após ano, milhares de pessoas reúnem-se para prestigiar a pecuária, a agricultura, os concursos de animais, as provas campeiras, a música, a dança e a gastronomia típica. São manifestações que preservam costumes transmitidos de geração em geração. Mais do que eventos festivos, representam o encontro de um povo com suas raízes. Ali estão presentes a memória dos que desbravaram campos, enfrentaram adversidades e ajudaram a construir a história do Rio Grande do Sul. Cada mate compartilhado, cada churrasco em família ...

Procuração em Branco

    As esquinas do país transformaram-se em verdadeiros exércitos de bandeirolas. Uma fila interminável de rostos que jamais serão conhecidos, mas que se apresentam por meio de frases de efeito vazias de conteúdo. Minha vontade, como cidadão, é poder me dirigir a cada um desses pré-candidatos aos quais delego uma procuração assinada em branco, dando plenos poderes para representar meus anseios e expectativas de uma sociedade mais solidária e de leis mais justas em benefício de todos, sem distinção. Gostaria de perguntar-lhes o que fizeram ontem para merecer a confiança que pedem hoje. Gostaria de ouvir algo além dos slogans cuidadosamente ensaiados, das fotografias sorridentes e das promessas recicladas a cada eleição. Porque honestidade, trabalho e compromisso não deveriam ser promessas de campanha. Deveriam ser requisitos básicos para quem pretende ocupar um cargo público. E, depois de avaliar tudo, vejo apenas uma sucessão de rostos estampados em papel, disputando...

O Homem Só

    A cidade estava vazia naquela tarde. Uma brisa leve formava redemoinhos nas esquinas, levantando nuvens de poeira, jornais envelhecidos e pequenos restos de descartes que a vassoura do gari deixara escapar. O homem caminhava vagarosamente entre bancas de revistas fechadas e cavaletes de ambulantes abandonados. Estranhamente, naquela rua não havia sinal de viva alma. Era um deserto. De vez em quando, junto à sarjeta, um pequeno vulto se movia. Um rato. Nada mais. Nenhum carro, nenhuma conversa, nenhum telefone tocando. Apenas o som de seus próprios passos ecoando entre as fachadas silenciosas. Sem perceber, começou a acelerar o ritmo. Sua mente processava cada detalhe do ambiente ao redor. Algo estava errado. O silêncio não era apenas ausência de ruído; era uma presença inquietante, pesada, que parecia observá-lo de todos os cantos. Sentia-se só. Cada esquina que surgia diante de seus olhos trazia uma nova sensação de desconforto. Onde estavam todos? O que havia acontecid...

Carne Fake

    Hoje fui surpreendido por uma notícia que, embora bombástica, já não deveria causar espanto em tempos de evolução acelerada. Cientistas afirmam, com toda a segurança possível, que técnicas laboratoriais permitirão produzir carne a partir de proteína animal — sem abate, sem sangue, sem o ritual milenar que sempre acompanhou nossa alimentação. Sob o ponto de vista ético, há quem comemore. Para defensores da vida animal, é quase um alívio: enfim, carne sem morte. Mas o que me inquieta não é o fim do abate, e sim o começo de outra coisa. Como esse produto será introduzido no nosso cardápio diário? Que segurança teremos ao consumir alimentos processados em laboratório? Serão realmente saudáveis — mais saudáveis até do que os tradicionais? A verdade é que já convivemos há muito tempo com alimentos de origem duvidosa. Chocolate “sabor cacau”, leite que não é leite, embutidos que são uma mistura indecifrável de carnes e outros suprimentos. Pagamos caro por isso, muitas vez...

O Pequeno Mundo da Janela

    Todas as manhãs, ele ergue as folhas desgastadas da persiana, o retângulo da janela se abre como um pequeno mundo particular. É sempre o mesmo enquadramento, mas nunca a mesma história. Lá fora, a cidade desperta em sua coreografia repetida: o horizonte recortado pelas paredes frias dos prédios, árvores teimosas que insistem em existir entre camadas de concreto, o canto melancólico dos sabiás nas laranjeiras, as caturritas em suas algazarras matinais, e dezenas de janelas que se abrem para mais um dia — cada uma guardando vidas e segredos que jamais conhecerá. Ele fica ali, sentado diante da escrivaninha, as mãos repousadas sobre o teclado, a mente vagando por entre prédios, nuvens e lembranças. Busca inspiração como quem procura um sinal no céu. A rotina, às vezes pesada como chumbo, outras vezes leve como uma pluma que serpenteia perdida entre arbustos e sacadas, molda seus pensamentos. Entre silêncios e rabiscos, seus textos começam a nascer. Personagens surgem co...

Tudo é Possível, Quando o Impossível Acontece

    Ele havia sido demitido da gráfica: trabalhos rareando, funcionários demais, futuro nenhum. Juntou seus pertences — uma régua, lápis, papéis e um livro de Camões com folhas soltas —, objetos que guardava na gaveta da escrivaninha. Despediu-se dos colegas e enfrentou a tarde cinza da cidadezinha do interior. Ao dobrar a esquina, deu de frente com a placa luminosa da cafeteria. Entrou pela porta giratória e sentou-se à mesa de tampo de mármore. A garçonete loira de sempre anotou o pedido: um expresso, um copo d’água e um pastel frio da manhã. Comeu como quem encerra um capítulo. Do bolso puído da calça de brim retirou uma nota amassada, pagou a conta, respirou fundo e partiu sem rumo. Restava-lhe apenas a incerteza. Sem trabalho, sem amores, sem fé — caminhou até a pequena ponte que ligava a cidade ao nada. Parou no meio, suspirou. Ao erguer o olhar, viu uma menina tentando salvar um barquinho de papel levado pela correnteza. Ele se aproximou e, num gesto rápido, r...

Último Beijo

    Foi um encontro casual, desses que acontecem sem aviso. Uma troca de olhar, um sorriso tímido, e a vida seguiu seu curso. Ele ficou extasiado observando a imagem dela se dissolver na retina. Era a primeira vez que a via, e algo o desconcertou de imediato, como se uma peça interna tivesse se movido sem permissão. Os dias passaram. De vez em quando, lá estava ela: mesmo olhar, mesmo sorriso, nenhuma palavra. Havia algo de mágico naquela troca silenciosa, embora ele não imaginasse o tamanho do que estava por acontecer. Até que, num dia qualquer, tomado por uma coragem súbita e um fôlego descompassado, aproximou-se. — Oi… A resposta veio instantânea: — Oi! Qual é teu nome? Ele, num misto de encantamento e insegurança, balbuciou: — Eros. Ela sorriu, curiosa e irônica: — Eros? — Sim. E o seu? — Afrodite. A gargalhada ecoou ao redor dos dois, e assim começou uma amizade que logo se transformou em amor. Os anos passaram, e aquela fagulha que explodi...

Ego – O Eu de Cada Um

  O ego é um daqueles habitantes silenciosos da nossa mente: não paga aluguel, mas ocupa espaço; não faz barulho, mas interfere em tudo. Na psicologia, dizem que ele é o mediador — o ponto de equilíbrio entre nossos desejos internos, as regras da sociedade e a realidade que insiste em nos lembrar que o mundo não gira ao nosso redor. É ele que nos dá a noção de identidade, personalidade, esse “eu” que carregamos como assinatura. Eu sei que estou mexendo numa área da qual não sou especialista. Mas, como indivíduo disponível para ser analisado, me permito observar esse personagem que vive dentro de mim — e dentro de todos nós. No meu ambiente familiar, há quem entenda disso com mais propriedade; ainda assim, arrisco minhas próprias conclusões. O ego, esse substantivo masculino tão pequeno na gramática e tão enorme na vida, muitas vezes atropela nosso destino. Faz isso por arrogância, por orgulho excessivo, por aquela mania de controle que nos prende mais do que nos protege. Outr...

O Lado Invisível de Gramado

Estive há poucos dias em Gramado. Retornar a essa cidade glamourosa é sempre uma experiência incrível. Sua aparência europeia, com construções que remetem às regiões italianas e germânicas — ainda que muitas outras etnias também tenham deixado sua marca por ali — sempre me encantou profundamente. Mas desta vez resolvemos inovar. Eu e minha companheira de toda a vida organizamos um roteiro pela Gramado invisível, aquela que não aparece nas propagandas nem nas filas intermináveis dos pontos turísticos tradicionais. E foi uma surpresa arrebatadora. Caminhamos por estradas rurais de paisagens deslumbrantes, onde o burburinho da cidade grande simplesmente não existe. Visitamos lugares que extasiam a retina: cascatas escondidas, vales silenciosos, paredões que parecem não ter fim, rios que serpenteiam entre matas e pequenas propriedades. Uma vida rural pulsante, ali, coladinha à Rua Coberta — quase inacreditável. Nunca havíamos imaginado que Gramado oferecesse algo além das atrações milimetr...

Quando o Jogo Murcha

    O Gre ‑ Nal n ã o perde intensidade por falta de vontade. Perde porque o desempenho dos dois times anda t ã o irregular com as mudan ç as dos projetos das dire çõ es; se é que existe, cada ano troca t é cnico, filosofia, contrata çõ es, discurso … nada amadurece. Os elencos são montados por urgência, não por ideia — jogadores chegam para “tapar buraco”, mas o buraco continua lá, firme, resiliente, quase heróico. A política interna é tão presente que às vezes parece que o clube joga com doze: onze em campo e um conselheiro soprando no cangote. O torcedor olha e não sabe se o time tenta atacar, defender ou apenas cumprir tabela. E a base, coitada, virou quase lenda: todo mundo diz que existe, mas ninguém vê. Com esse cenário, o clássico sofre. Porque Grenal é termômetro — e ultimamente anda marcando febre baixa. Quando os clubes estão fortes, o jogo explode, vira caos, vira ópera, vira guerra santa. Quando estão fracos, o Grenal murcha, desce a ladeira, vira aque...

Época de Eleição

    Hoje vou abordar um tema sensível. A disputa eleitoral chegou novamente e, para ser franco, insistir no óbvio já não faz sentido. As cartas estão expostas, e nenhuma alternativa oferece um projeto de governo consistente. É a mesma engrenagem desgastada que gira desde 15 de novembro de 1889. Naquele dia, tínhamos um marechal — Deodoro da Fonseca — à frente do golpe militar que depôs Dom Pedro II e proclamou a República. A história seguiu seu curso, mas o país nunca mais foi o mesmo. Iniciamos outra caminhada, marcada por lutas, discórdias, ideologias, suicídios e cassações. Entre tropeços e remendos, fomos nos acostumando a viver entre o futebol, o samba, a cachaça e certas práticas menos confessáveis. E, se o assunto for polêmica, o terreno é tão amplo quanto um campo de futebol: aqui, derrota nunca é aceita; se ela veio, é porque alguma coisa — inevitavelmente — estava errada. Mas o que pretendo dizer é simples: apesar da instituição do voto secreto — que de secreto tem...

Um Fio Escuro de Cabelo

    Acordou sobressaltada, o coração em agitação. No escuro do quarto, acendeu o abajur de cabeceira, cuja luz difusa e amarelada inundou o ambiente. As sombras nas paredes pareceram esticar-se, ganhando vida própria. A brisa que vinha de fora moveu a cortina de seda, que se enroscou no espaldar da cadeira de descanso. O quarto parecia respirar, e ela sentiu o desconforto crescer — uma presença invisível que a observava. Ergueu-se rapidamente, abriu as janelas e deixou a cidade invadir o quarto. Um alívio imediato percorreu seu corpo ao ouvir o jornaleiro gritando as manchetes, o som das buzinas, o burburinho cotidiano que lhe devolvia a realidade. A claridade revelou cada detalhe do interior, e foi então que ela viu — sobre o lençol de seda — um fio escuro de cabelo. Correu até o espelho. A imagem refletida era a mesma: a mulher loira, exuberante em sua juventude. Fitou a própria cabeleira dourada e, em silêncio, interrogou-se. O fio preto na cama. Tentou reconstruir ...

Frio de Renguear Cusco - Memórias, música e um rancho na zona sul de Porto Alegre

    Desde menino — daqueles tempos de calça curta — convivo com a expressão gaudéria “frio de renguear cusco”. Ela sempre me acompanhou como uma espécie de termômetro afetivo: quando o frio apertava de verdade, era esse o jeito de medir a friagem. Lembro do meu pai chegando ao entardecer, depois da lida, enxaguando o corpo porque o frio parecia entrar pelas juntas. Logo se achegava ao fogão a lenha, a única mordomia possível naqueles tempos escassos. A lenha já estava cortada. Minha mãe, entre tantas tarefas, manejava o machado com uma habilidade admirável. Eu, vez ou outra, arriscava cortar umas “achas”, mas nunca fui um exímio cortador de lenha. Sobre o fogão, a velha chaleira de ferro — impregnada de fumaça, com uma crosta espessa de tanto uso — aquecia a água para o chimarrão, ritual sagrado das tardes invernais. Era ali, naquele cenário simples, que o frio parecia menos bravo. No último final de semana, essas lembranças voltaram com força. Estive na zona sul de ...

Entre a Razão e o Coração

    Neste final de semana, me juntei à desesperança dos amigos — ao ar pesado que paira sobre o futebol gaúcho — e às arquibancadas já vazias, onde Grêmio e Inter atravessam o Brasileirão como quem caminha sobre um fio esticado entre o abismo e a crença de que ainda é possível. A razão, essa velha conselheira, tenta sussurrar ao torcedor que o campeonato é longo, que matemática existe, que ainda há rodadas suficientes para corrigir rumos, reorganizar esquemas, reencontrar o futebol que se perdeu em algum lugar entre lesões, escolhas equivocadas e noites mal dormidas. Ela calcula, projeta, desenha cenários: “Se ganhar dois, empata um, torce por tropeço alheio…”. A razão é paciente, metódica, quase fria. Mas o coração — ah, o coração — esse não sabe esperar. Ele pulsa em vermelho e azul, exige reação imediata, cobra raça, entrega, mudança. Ele não entende por que o Grêmio sofre para sair da zona da confusão, por que o Inter tropeça quando mais precisa caminhar firme. Ele...

Os Músicos

  Para Miron e Mareu. Confesso sem pudor: carrego uma pequena inveja desses músicos que se espalham pelas noites, iluminando bares, cabarés e esquinas com aquilo que lhes transborda da alma. Eles são, muitas vezes, os responsáveis por minhas desilusões — e por minhas esperanças. Há dons que Deus distribui com generosidade seletiva, e isso sempre me inquietou. Talvez eu ainda precise aprender que cada pessoa nasce com uma missão, e que algumas delas vêm embaladas em acordes. A música — a verdadeira — é divina. É alívio, é companhia, é aquela mão invisível que ajeita o coração quando ele insiste em desandar. Tenho amigos músicos, e muitos outros que cruzei pelos bares da vida. Cada um com seu estilo, sua poesia, sua performance e suas habilidades. Tenho até um filho dotado desse poder de encantar com sua musicalidade e a desenvoltura ao dedilhar um violão. Mas, nesse vasto universo que é a arte musical, quero falar de um amigo em especial. Não dos mais chegados, como se d...

Se Essa Rua…

    Acordei cedo, calcei meu velho tênis Conga desbotado e segui em direção ao mar. O céu, límpido, deixava o horizonte se revelar aos poucos. Caminhei alguns passos e, ao longe, o oceano se abriu diante de mim: um turbilh ã o de á gua inquieta. Vi veleiros riscando a superf í cie, navios e gaivotas que desenhavam arabescos no ar. Por um instante, tracei mentalmente rotas imaginárias — linhas que ligavam terras distantes ao ponto exato onde eu estava. Respirei fundo. Ao redor, a cidade despertava. Telhados, chaminés, e do pátio da escola vinha a algazarra das crianças, cantando com aquela alegria que só elas dominam: “Se essa rua, se essa rua fosse minha…” O coro infantil se misturava ao gorjear dos pássaros, como se todos participassem de um mesmo ensaio para celebrar o dia. Meu pensamento, sempre apressado, reorganizou-se na velocidade da luz — porque o cérebro, quando provocado, é assim: responde antes mesmo que a gente termine a pergunta. E então, num gesto qua...

A Campainha

      Horas antes, ela havia chegado mais cedo ao apartamento. Carregava uma tristeza profunda, dessas que não têm nome nem motivo. Ligou a vitrola e aproximou a agulha do vinil gasto; o chiado abriu espaço para a voz melancólica de Sinatra em “Strangers in the Night”. Sobre a estante, um copo de uísque a esperava. Sorveu-o de um gole só, como quem tenta calar um pensamento. Então, o toque rouco da campainha cortou o silêncio: trim-trim ... Ela ainda estava na banheira quando ouviu o som. A água quente envolvia seu corpo nu, e a penumbra projetada pela cortina desenhava sua silhueta como um traço frágil. A agulha da vitrola feria o disco como unhas arranhando pele. Um arrepio percorreu sua espinha. Não era frio. Não era prazer. Era algo que ela não soube nomear. Um espasmo, talvez. Um pressentimento. Ergueu-se abruptamente, a água escorrendo como um véu rompido. Desceu as escadas com pressa, o coração batendo fora do compasso. Parou no último degrau. Respirou fu...

O Economista

    Economia é uma palavra antiga, nascida lá na Grécia de Aristóteles: oikonomía : oiko s, casa; nomos , administração. No começo, tratava da arte de gerir os bens da família ou da pólis. Hoje, virou ciência, profissão, campo de estudo — mas também virou folclore. Porque, convenhamos, economia não vive só nos livros: vive nas pessoas. Tenho amigos economistas, profissionais brilhantes, dedicados, daqueles que enxergam números onde eu só vejo caos. Mas também tenho amigos “econômicos”. Não no sentido acadêmico — no sentido popular mesmo: canguinhas, pão-duro, mão de vaca, sovinas, avarentos, unha de fome. O dicionário inteiro cabe neles. E, claro, estão sempre presentes: nos churrascos, nas festas, nos encontros. São personagens fixos, quase patrimônio imaterial da amizade. Lembro de um episódio com a nitidez de quem revive a cena. Estávamos em um congresso da minha área profissional, e na hora do almoço fomos todos a um restaurante daqueles pé sujo de beira de praia, ond...

O Violinista

    Para o amigo João Carlos, que inspirou estas linhas.   O mês era junho — talvez julho; a memória insiste em borrar as bordas desse tempo. Na esquina, a velha mansão dormia sob a sombra dos jacarandás. As paredes brancas, exibiam rachaduras que lembravam veias expostas, sugerindo que o casarão tinha um corpo próprio, uma história que ainda pulsava sob a tinta desbotada. Imponente, guardava aquele pedaço da cidade como quem vigia um segredo. Dizem que, em seus dias de brilho, ali aconteciam saraus que atravessavam a madrugada. Senhores de cartola e bengala, damas com seus chapéus cloche , todos desfilando silhuetas elegantes pelo salão. Era um cenário que parecia arrancado do século XIX. A família que vivia ali — oito pessoas — orbitava em torno de um patriarca austríaco: homem alto, cabelos cor de fogo, barba espessa, postura que não admitia contestação. Entre os quatro filhos homens, havia um que se destacava pelos pendores artísticos. Tinha aquela alma se...

Crônica do Velho

    Ninguém sabia ao certo quando ele começara a ocupar aquele banco. Para muitos, o velho sempre estivera ali, como um marco silencioso da praça, tão permanente quanto as árvores que a cercavam. Chovesse ou fizesse sol, lá estava ele: o corpo arqueado, as mãos pousadas sobre o bastão gasto, o olhar perdido em algum ponto que ninguém mais conseguia enxergar. Eu o via todos os dias no caminho para o trabalho. No início, era apenas uma figura curiosa, um detalhe da paisagem. Mas com o tempo, comecei a notar que havia algo diferente na maneira como ele observava o mundo. Não era o olhar de quem espera; era o olhar de quem recorda. Seu rosto era um mapa de sulcos profundos, traçados pelo tempo com a precisão de quem escreve uma história longa demais para caber em palavras. Às vezes, quando o vento soprava mais frio, uma lágrima escorria devagar por aqueles vales. Não era tristeza — era memória. Uma memória tão antiga que parecia não pertencer mais ao corpo que a carregava....

Os Pardais da Goiabeira

    Os pardais da goiabeira são meus vizinhos mais barulhentos. Todo amanhecer eles me acordam com um alarido que mistura sinfonia e tumulto, como se a cidade inteira tivesse decidido ensaiar no meu quintal. Vêm dos becos, das marquises, dos fios elétricos que cruzam o céu em linhas tortas. Trazem no corpo pardo e ocre a paleta discreta das fachadas antigas, como se fossem parte da arquitetura. A goiabeira, teimosa sobrevivente entre muros e concreto, os recebe como plateia fiel. Já me acostumei a esse ritual. Eles marcam o compasso do meu dia com mais precisão que qualquer despertador. Quando o sol atravessa as frestas da janela, eles já estão lá, riscados no ar como grafites vivos, sobrevoando o quintal em trajetórias improvisadas. No chão, espalham-se como pequenos pontos móveis, sementes inquietas sobre o gramado que resiste ao avanço do cimento. Ocupam cada palmo de terreno, como se reivindicassem o direito de existir naquele pedaço de terra. E quando os vejo as...

O Aperol

    A Itália me recebeu como quem abre um livro antigo e precioso: cada viela era uma página marcada pelo tempo, cada pedra carregava o peso de uma história que não se apaga. Em Milão, com sua elegância urbana; em Pompeia, onde o silêncio das ruínas sussurrava segredos de um mundo que já não existe. De norte a sul, o país inteiro parece suspenso entre séculos, preservado com um zelo quase sagrado — uma dedicação que desperta uma inveja profunda. Como conseguiram guardar tanto, por tanto tempo, com tamanha beleza? Eu, viajante deslumbrado, deixei-me contaminar pela alegria espontânea do povo italiano. Caminhei por ruas estreitas, avenidas largas, becos escondidos, estradas que serpenteiam colinas. Entrei em bodegas, bares, tavernas, cafés que mais pareciam salas de estar abertas ao mundo. E em todos esses lugares, como um símbolo nacional, lá estava ele: o Aperol . Um ritual, uma celebração, uma pausa. Criado em 1919 pelos irmãos Barbieri, em Pádua, mas eterno como o sol ...

A Máquina de Escrever

    Todos os dias, quando me sento diante do teclado do computador, sinto o eco distante da velha máquina de escrever que marcou o início da minha caminhada. É curioso como certas memórias não se apagam; apenas mudam de forma, como se fossem letras migrando de um papel amarelado para uma tela iluminada. Era 1963, e eu ainda um menino de escola técnica, tentando descobrir que futuro cabia nas minhas mãos. A vida em casa era simples, apertada, mas nunca pequena. Minha mãe, lavadeira, carregava nos braços o peso das roupas e o peso dos sonhos que tinha para mim. Meu pai, consertador de sapatos, cuidava dos passos de tanta gente importante, enquanto sustentava os meus. Naquele tempo, cada tostão tinha destino certo. E foi juntando tostões — aqueles que minha mãe economizava — que ela me matriculou no curso de datilografia, lá na escola profissionalizante do bairro. Eu ainda nem sabia, mas aquele gesto era uma espécie de empurrão silencioso para o mundo. Lembro-me bem dos...

Coincidência… ou algo mais

  Entre as décadas de 1940 e 1960, existiu um personagem chamado Amigo da Onça , criado pelo cartunista Péricles. Ao lembrar dessa figura, vem à mente seu humor satírico, irônico e sempre crítico — mestre em provocar aquela sensação incômoda de “será que isso foi coincidência mesmo?” E quando observamos certos sorteios — em especial os que envolvem a disputa nacional — é difícil não perceber um sopro desse espírito irônico pairando no ar. Clássicos regionais, rivalidades históricas, confrontos que parecem escritos por roteiristas… tudo isso alimenta a imaginação. Tecnicamente, sorteios são eventos aleatórios.   Mas o cérebro humano não gosta de aleatoriedade pura — ele busca padrões, narrativas, explicações. Quando o sorteio coloca frente a frente rivais tradicionais, caminhos que parecem “desenhados” para uma final específica, confrontos que inflamam audiência e mídia, a matemática vira coadjuvante e o imaginário popular assume o protagonismo. Não é que exista f...

A Arte de Não Conversar

    Andamos tão apressados, tão ocupados em cumprir metas, que esquecemos das pequenas gentilezas — aquelas que antes costuravam o tecido das relações humanas com pontos firmes e delicados.   Hoje, conversamos por atalhos. A fala virou ícone. As palavras, coitadas, foram reduzidas a símbolos que exigem quase um curso de arqueologia para serem decifrados. Às vezes me sinto diante de uma escrita cuneiforme moderna, tentando entender o que significa aquele conjunto de carinhas, corações, foguinhos e mãos que apontam para todos os lados.   Conversar com os mais jovens, então, é uma aventura antropológica, quase um exercício de resistência. Eles falam rápido, digitam mais rápido ainda, e respondem com uma economia de vocábulos que faria qualquer gramático chorar. Um “kk”, um “blz”, ou pior: um emoji que você não sabe se significa aprovação, sarcasmo ou pedido de socorro. E eu fico pensando: estamos perdendo a capacidade de comunicação verbal ou apenas terceiriza...

O Varredor Filósofo

  Com seu uniforme laranja e vassoura gasta, Seu Orlando varre as ruas do Centro como quem medita. Não reclama do lixo — entende que ele é parte da cidade, como o barulho, o cheiro e a pressa. Varre com ritmo, com respeito, com filosofia. Já foi professor, já foi bancário, já foi esquecido. Hoje, é guardião da calçada. Às vezes, enquanto limpa a sujeira dos outros, recita trechos de Drummond: “No meio do caminho tinha uma pedra...”   “...e no meio da calçada, tinha um papel de bala, uma bituca, um silêncio”. Os versos se misturam ao som dos passos apressados, ao chiado dos ônibus, ao murmúrio dos vendedores. Poucos escutam. Mas ele segue, como quem planta palavras no asfalto. Os jovens o ignoram, os adultos o evitam. Alguns desviam como se a vassoura fosse ameaça. Outros jogam lixo no chão logo após ele passar. Seu Orlando não se ofende. Ele entende que a pressa cega, e que o chão é o último lugar onde se olha. Mas uma vez por semana, uma menina chamada Luana — s...

Os Santinhos da Web

    Diariamente recebo centenas. É um verdadeiro congestionamento de “Santos” atravessando minha tela, disputando espaço como se o smartphone fosse uma procissão infinita. Eles chegam sem pedir licença, empurrando-se uns aos outros, obstruindo minha capacidade de entender os limites da fé — se é que ainda existem limites quando o assunto é corrente religiosa digital. Entre uma imagem de Santo Antônio borrada e uma Nossa Senhora em resolução duvidosa, surgem também as mensagens motivacionais. Todas carregam doses generosas de amor, esperança e justiça, como se fossem vitaminas espirituais prescritas para o bom funcionamento da alma. “Bom dia!”, “Deus te abençoe!”, “Que Nossa Senhora Mãe dos Homens ilumine seu dia!” — incentivos diários para que eu cumpra minha jornada com a serenidade de um monge tibetano. São tantas manifestações que minha caixa postal transborda. Entope. Fica saturada de pequenos “cookies 1 ” emocionais — fragmentos de fé, carinho e boas intenções que...