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Mostrando postagens de 2026

A Taça de Vinho e o Beijo

  Samantha chamava atenção por onde passava. Alta, elegante, de cabelos loiros sobre os ombros, olhos esverdeados e sorriso misterioso, tinha uma presença difícil de ignorar. Na multinacional onde atuava em Finanças e Compliance, sua beleza frequentemente se sobrepunha à percepção de sua competência. Em reuniões, recebia olhares prolongados, elogios velados e comentários que desviavam o foco de suas observações técnicas. Percebia tudo, mas preferia deixar que o profissionalismo falasse por ela. O que mais a incomodava eram as confraternizações da empresa. Entre brindes e conversas aparentemente inocentes, surgiam abordagens que ultrapassavam limites. Nada explícito o suficiente para uma denúncia, mas bastante para fazê-la sentir-se observada e reduzida à própria imagem. Ainda assim, Samantha seguia firme em suas ambições profissionais. Em uma dessas festas, o diretor adjunto aproximou-se com uma taça de vinho. — À sua contribuição para a empresa. — Saúde. As taças se ...

Jogo do Bicho

  Esta questão de sorte e azar sempre me intrigou. Tenho o hábito de jogar na Lotofácil há muitos anos, sempre apostando nos mesmos números. Ao longo desse tempo, já fui contemplado diversas vezes com os prêmios menores e, em duas ocasiões, cheguei muito perto do prêmio principal. O valor recebido foi razoável, suficiente para alimentar ainda mais a esperança de um dia acertar tudo. Mas o que sempre me intrigou foi a maneira como esses números aparecem nos sorteios. Há números que parecem surgir repetidamente, enquanto outros desaparecem por longos períodos. E, apesar de toda a insistência e da fidelidade às mesmas dezenas, gabaritar o resultado continua sendo um desafio quase impossível. Por outro lado, existe o famoso “jogo do bicho”, essa espécie de instituição nacional não oficial que atravessa gerações. Nele, um simples papel preenchido à caneta sobre papel carbono, produzindo duas vias, transforma-se em comprovante de uma aposta. Dezenas, centenas, milhares e alguns pouco...

O Velório

  O dia amanheceu nublado naquele bairro da periferia da cidade. Quem passava pela velha casa de taipa podia enxergar, por entre a ramagem da cerca-viva, o interior da sala simples, onde repousava o caixão, ladeado por duas velas que iluminavam a parede tosca, na qual um crucifixo metálico se destacava, refletindo seu brilho. Nas cadeiras de palha enfileiradas ao redor do ataúde, parentes e amigos se revezavam enaltecendo as qualidades do falecido, fato comum nesse tipo de situação. A tradicional frase: "Como era bom o Deoclécio!" era repetida à exaustão. Num canto da sala, atrás da cortina puída, dois meninos curiosos e risonhos faziam feições de quem zombava da situação. Em outro lado do recinto, rezadeiras chamadas para orar e derramar lágrimas em nome do morto, todas vestidas de preto, entoavam seus cânticos e lamentos. A viúva, amparada pelo irmão do falecido, soluçava entre prantos e lamentações. O grupo de solteironas, em outro canto, fazia gracejos. Os homens, de se...

Salvo-Conduto

Dia desses, numa mesa de bar, reunido com antigos colegas de trabalho, entre uma cerveja gelada, petiscos e os assuntos de sempre, discutíamos política, futebol e, como não poderia faltar, as famosas bets . Foi então que um dos parceiros soltou uma observação que arrancou risos imediatos: — Essas reuniões mensais que fazemos são uma concessão da minha esposa. Segundo ela, eu preciso reservar um tempo para encontrar os amigos. A gargalhada foi geral. Alguns entenderam a ironia de imediato. Outros, mais sisudos, encararam a declaração com certa perplexidade. — Como assim? Tu precisas de autorização para sair de casa? Outro emendou, cheio de convicção: — Lá em casa sou eu quem manda. Vou aonde quero e ninguém se mete nos meus assuntos. O comentário produziu um silêncio curioso. Houve troca de olhares, mas ninguém quis entrar em debate. Afinal, certos assuntos são como vespeiros: melhor não cutucar. A conversa logo tomou outro rumo, mas a cena ficou martelando na minha...

Corneta

Ontem fui interpelado por um amigo de longa data, santista e torcedor do “Peixe”. Ele carrega na bagagem uma vantagem difícil de contestar, afinal, por muitos anos Pelé foi o maior símbolo do Santos e do futebol mundial. Mas não é sobre o Rei que quero falar. Quero falar dessas brincadeiras provocativas que os torcedores direcionam aos rivais. No futebol, criou-se o hábito de descontrair às custas da desgraça alheia, esportivamente falando. Perguntou ele: — E o teu Grêmio, vai ser rebaixado de novo? Respondi sem titubear: — Vai. E será o único clube tricampeão da Segundona. Um feito reservado apenas para quem é "Campeão de Tudo". Naturalmente, veio a réplica. Depois, a tréplica. E assim a conversa seguiu, como acontece há décadas entre torcedores que sabem rir das vitórias e das derrotas. O futebol, por ser uma paixão de massas, acabou transferindo para outras situações da vida essa disputa bem-humorada de zombar do adversário. Surgiu daí a famosa "cornet...

Churrasco de Costela

  Churrasco de costela é coisa sagrada na campanha. Basta um fogo de chão bem atiçado, uma costela no braseiro e meia dúzia de gaudérios em roda para a noite voar mais ligeiro que quero-quero assustado. No galpão, a chaleira chia na "trempe", o amargo corre de mão em mão e a "canha" aparece de vez em quando para espantar o sereno. Num canto, o cusco baio dorme de um olho só, sempre atento a algum naco desgarrado. Sentado num "cepo" de guajuvira, sobre um pelego batido de uso, o peão pica o fumo para o palheiro enquanto o angico crepita no fogo. As brasas alumiam os rostos curtidos de sol e fazem dançar as sombras pelas tábuas do galpão. Entre um mate e um gole de pinga, os "causos" vão crescendo. Um vivente garante que laçou um touro tão grande que levou três dias para encontrar a outra ponta do laço. Outro gaudério, já "entonado" pela canha, jurava ter um cavalo tão ligeiro que montava de manhã e apeava no destino no dia anterior. As g...

O Contragolpe

Amâncio era daqueles sujeitos que pareciam ter nascido à margem da afeição alheia. Tinha admiradores, é verdade, mas eram poucos. Suas sandices, quase sempre destituídas de lógica, faziam dele alvo constante das ironias que circulavam nas rodas de conversa à beira do fogo de chão, no galpão grande da fazenda. Com o passar dos anos, aquelas zombarias foram endurecendo o homem. Não lhe roubaram a ingenuidade, mas deixaram cicatrizes invisíveis. E como acontece com tantos na vida campeira, onde os dias são ásperos e as noites de geada não perdoam, Amâncio foi aprendendo a suportar os reveses sem dizer palavra. Ainda assim, guardava na alma um desejo que nunca revelou a ninguém. Numa manhã fria, durante a roda de chimarrão, as costumeiras provocações vieram outra vez. Eram as mesmas piadas, os mesmos risos, os mesmos olhares de canto. Mas naquele dia algo era diferente.  Talvez o cansaço de ser sempre o motivo da graça. O sangue lhe ferveu nas veias. A face ruborizou-se. Lentamente, ...

Espoletas

Cresci num tempo de inocência em que tudo era possível, pois conhecíamos os limites. Brincávamos de Forte Apache. Transformávamos quintais nas vastidões do Velho Oeste, vestidos a caráter, ao melhor estilo John Wayne . Atirávamos em malfeitores, encurralávamos "comanches e apaches" e, por certo, muitas vezes saíamos feridos pelas flechas de "Touro Sentado". Morríamos muitas vezes. Ressuscitávamos sempre. Éramos crianças simplórias, portando nossos revólveres "Estrela", cujo calibre disparava sonhos. Nenhum tiro derrubava homens; atingia apenas fantasias. Vivíamos da ilusão consentida de sermos Roy Rogers, Bat Masterson, Gene Autry e tantos outros. As armas reluzentes que eu portava no cinturão, decorado com franjas de couro, tinham o tambor rotativo onde inseríamos rolinhos de “espoletas”, pequenas centelhas de felicidade embrulhadas em papel vermelho. A cada disparo, o ar ficava impregnado pelo cheiro de pólvora queimada. Então eu saía em def...

Quebra-Queixo

Na década de 1960, foi a alegria da gurizada e uma importante fonte de renda para os dentistas. Bastava uma mordida mais entusiasmada e lá se ia um dente, uma obturação ou parte da autoestima. Ainda assim, ninguém desistia. Pelo contrário: quanto mais perigosa a bala parecia, mais fascinante ela se tornava. Naquela época, o quebra-queixo era barato, cabia no orçamento da criançada e podia ser encontrado em qualquer quitanda. Nas matinês de domingo, marcava presença no tabuleiro do baleiro, aquele da cesta de vime que encantava crianças e adultos com sua miscelânea de cores e sabores. A diversão começava quando aquela pedra doce resistia bravamente às primeiras investidas da mordida. Depois de longos minutos de mastigação, finalmente se transformava num puxa-puxa macio. Era uma espécie de duelo entre a bala e a mandíbula. Hoje, certamente enfrentaria uma dura sabatina de nutricionistas, cardiologistas, endocrinologistas e, provavelmente, até de algum influenciador fitness . Seria acusad...

Carrinho de Lomba

Na adolescência, havia uma brincadeira que, para nós, valia mais do que qualquer esporte: construir carrinhos de lomba. O pátio de casa se transformava em uma verdadeira fábrica automobilística. Em meio à algazarra e marteladas, nasciam projetos audaciosos que ocupavam nossas tardes e alimentavam nossa imaginação. Entre nós havia os mais criativos, aqueles que pareciam enxergar além da madeira, dos pregos e dos “rolimãs”. Cada carrinho tinha personalidade própria, carregando a marca de quem o havia construído com as próprias mãos. Nosso almoxarifado era improvisado. Tábuas velhas, sobras de madeira, pregos tortos e as preciosas rolimãs eram tesouros disputados. Hoje, passados tantos anos, já não me recordo exatamente de onde vinham aqueles materiais. Talvez dos ferros-velhos da vizinhança ou de algum depósito de sucatas. O que lembro perfeitamente era da alegria de encontrar uma peça que faltava. A montagem era simples e rústica: uma tábua recortada em formato alongado, eixo traseiro...

A Máscara

Vivia gargalhando pelas calçadas da cidade. Era uma figura alta, de corpo esguio, mãos compridas e dedos que pareciam ter sido desenhados para assustar crianças. Vestia-se sempre de preto e exibia uma cartola. Não era pedinte. Sobrevivia dos pequenos favores oferecidos pelos comerciantes do mercado, talvez por generosidade, talvez por prudência. Afinal, nunca se sabe quando uma criatura daquelas pode guardar rancor. Para quem a via pela primeira vez, a impressão não era das mais acolhedoras. As crianças ao vê-la, simplesmente choravam e se escondiam atrás das mães. Em resposta a tão calorosa recepção, uma gargalhada metálica ecoava pela rua, como se aquilo fosse exatamente o efeito desejado. O rosto permanecia oculto sob uma máscara verde brilhante, adornada com chifres, dentes salientes, nariz exagerado e orelhas pontiagudas. Os moradores mais antigos juravam nunca ter visto o verdadeiro rosto por trás daquela fantasia. Dormia em bancos de praça sem ser incomodada porque nin...

O Peste

Ele era gordo, rosto sardento, cabelos cor de fogo, calçava tênis com os cadarços sempre soltos e adorava atirar pedras nas vidraças alheias. Fora o horário em que os professores da escola tinham de suportar suas travessuras, andava pelas ruas do bairro arrumando confusão. Ora corria atrás dos gatos da vizinhança, ora surrupiava laranjas da quitanda do seu Alfredo. Um dia ganhou do pai uma bicicleta verde e amarela. Na escola, não perdoaram: — Lá vem o papagaio! Ele respondia do jeito que sabia: na pancada. Naquele tempo, ainda não existia a palavra "bullying" , mas já existiam apelidos cruéis e crianças dispostas a transformar a vida umas das outras em um inferno. César “Brutus” , esse era seu nome, fazia questão de retribuir na mesma moeda, com juros e correção monetária. Depois de machucar seriamente um colega, foi expulso da escola. Sumiu das ruas e, pela primeira vez, o bairro conheceu certa tranquilidade. Os gatos agradeceram. Seu Alfredo também. Veio a pa...

Sempre a Mesma História

Não sei se é a velhice que me torna mais sensível ou se são as mudanças repentinas de rumo que a vida insiste em impor. Já escrevi mais de uma vez que sinto uma inveja desmedida desses músicos que tocam pelos bares. Nunca consegui arrancar sonoridade de instrumento algum, a não ser a batida seca e descompassada de um martelo, entortando os pregos da vida. Hoje, aqui diante do teclado, ouço o pontilhado de uma viola. É a execução primorosa de um músico a quem Deus concedeu o dom de encantar, com sua sonoridade, os ouvidos de qualquer alma sensível. Enquanto escuto as milongas, viajo em pensamentos. Pelo teclado, percorro caminhos da memória e repenso tantas coisas do cotidiano. As imagens vão surgindo lentamente, uma após outra, como cenas de um filme antigo. Então me pergunto: por que o mundo é assim? As milongas seguem seu rumo, a tarde envelhece na janela e a vida passa sem pedir licença. E eu, entre lembranças, dúvidas e silêncios, continuo aqui, escrevendo sempre a mesma história...

A Ascensão

Na última década, a inteligência artificial impulsionou avanços importantes na medicina, na indústria automotiva e no setor alimentício. No entanto, novas tecnologias surgem em ritmo tão acelerado que, muitas vezes, temos dificuldade para acompanhá-las. Porém, os efeitos dessas novas tecnologias também criaram uma ordem mundial, na qual surgem castas de influenciadores, uma nova forma de atribuir significado ao conhecimento. Em meio a uma infinidade de informações, proliferam as chamadas fake news , praga que entope nossas caixas de e-mail, redes sociais e sites. São conteúdos desprovidos de consistência e veracidade, trazendo um turbilhão de palavras desconexas, narrativas irreais e, muitas vezes, deliberadamente falsas. Mas o que mais me deixa atônito é a disseminação em massa dessas informações, replicadas diariamente e causando um congestionamento de versões distorcidas da realidade. Muitas delas são produzidas com o intuito de desviar a atenção de fatos relevantes, enquant...

Eu Sempre Soube

  Horácio era homem do campo. Mestiço, de poucas palavras, fumava palheiro, domava cavalos como poucos e carregava no olhar uma desconfiança antiga. Vivia recluso nas lidas da estância e, embora evitasse demonstrar sentimentos, guardava um segredo que o consumia.   Numa manhã qualquer, encilhou o cavalo, ajuntou as tralhas e o pelego tubiano¹. Despediu-se dos companheiros e partiu.   Levava consigo a imagem de Izadora: os olhos negros, os cabelos escorridos pelos ombros e o perfume que insistia em povoar seus pensamentos. Mas ela era esposa do patrão, homem justo, amigo e dedicado à família. Por isso, durante anos, Horácio sufocou o que sentia.   Da janela da casa grande, Izadora observava a poeira da partida quando uma mão pousou sobre seu ombro.   Era o marido.   — Foi embora.   Ela apenas concordou com a cabeça.   O homem retirou do bolso uma carta amarelada.   — Encontrei isso entre os arreios do cavalo dele. Nunca teve coragem de entrega...

A Última Fatiota

No ano de 1956, morávamos com meus tios, numa fase de transição familiar. Minha tia, irmã do meu pai, era uma mulher de beleza interiorana, carinhosa e de voz mansa. Lembro-me muito dela. Como nunca pôde ter filhos, adotou-me como se eu fosse o tão desejado herdeiro. Alguns anos mais tarde, com o nascimento do meu irmão, transferiu para ele os cuidados e o carinho que antes dedicava a mim. Meu tio era alfaiate de mão cheia. Homem de porte atlético, bonachão e sempre com feições alegres, trabalhava com uma energia inesgotável. Lembro-me do seu ateliê coberto de peças de tecido, réguas de madeira, giz e moldes recortados em papel de embrulho. Na época a que se refere esta narrativa, ele e minha tia, que também tinha mãos de fada para a costura, produziam centenas de uniformes militares: calças, jaquetas e quepes verde-oliva. A tesoura deslizava pelo tecido, recortando cada peça com capricho e esmero. Ao final, lotes e mais lotes de uniformes eram amarrados em fardos, depois de pass...

Por Favor, Salvem a Santinha!

Hoje acordei sem a criatividade habitual para escrever. Tenho textos prontos e inacabados, mas resolvi não os publicar. Falam de política, esporte e outros assuntos que costumam ocupar espaço demais no cotidiano. Fui até a janela do apartamento. Lá fora, o tempo estava carrancudo. Dizem que a culpa é do “El Niño” . Eu suspeito que seja outra coisa. Mas deixemos as questões existenciais para outro momento. Ontem teve Gre-Nal. Notadamente uma pelada, no sentido mais pejorativo da palavra. Se alguém me dissesse que a bola era um objeto desconhecido para os jogadores, eu acreditaria. Faltava criatividade, sobrava cautela. Os dois times pareciam ter assinado um pacto de não agressão. Chega a ser risível. Talvez por isso minha atenção tenha escapado do jogo. Como um relâmpago, o presente se apagou. De repente, voltei a ser criança. Estou novamente à beira de um riacho. A água corre tranquila, sem conhecer a pressa dos adultos. Nas minhas mãos, um barquinho feito de folha de cad...

O Espelho

  Desde o primeiro ser humano, de Afrodite a Cleópatra, de Narciso aos influenciadores digitais, contemplar a própria imagem parece ser uma das atividades favoritas da humanidade. Hoje, o espelho continua exercendo essa nobre missão. Está ali, paciente, aguardando nossa chegada matinal para entregar um relatório nem sempre solicitado. Ele informa, sem a menor diplomacia, que surgiram novas rugas, que os cabelos brancos avançaram durante a madrugada e que aquela sobremesa da semana passada não desapareceu por milagre. Confesso que o utilizo apenas por necessidade. Mas reconheço seu enorme prestígio social. Há quem passe diante dele cinco vezes antes de sair de casa e retorne uma sexta apenas para confirmar a quinta avaliação. Dizem que o espelho revela a verdade. Tenho minhas reservas. Se fosse tão sincero assim, mostraria também a arrogância escondida atrás de um sorriso perfeito, a bondade por trás de um rosto comum ou a generosidade de alguém que jamais apareceu em capa d...

Cerração

  No Rio Grande do Sul, a neblina resolveu adotar um nome mais elegante e misterioso: cerração. E convenhamos, combina muito mais com o personagem. Afinal, "neblina" parece algo que aparece discretamente. Já "cerração" chega ocupando tudo. Nos meses de inverno, ou naqueles dias abafados que prometem chuva e entregam indecisão, ela surge silenciosamente. Quando percebemos, ruas, campos, árvores e até o vizinho fofoqueiro da esquina desapareceram atrás de um gigantesco lençol branco. A sensação é de ter sido transportado para a Londres dos filmes de suspense. Falta apenas um investigador de sobretudo caminhando lentamente entre sombras, desconfiando de cada esquina. Não é à toa que essa atmosfera lembra os cenários ligados às histórias de Jack, o Estripador. Entre becos, postes e silhuetas indefinidas, qualquer gato vira suspeito e qualquer arbusto parece esconder um segredo sombrio. Os escritores adoram uma boa névoa. Edgar Allan Poe 1 certamente sabia disso...

O Gol Que Não Foi Meu

  Olhando pela tela da memória, ainda vejo a cena como uma velha fotografia em preto e branco. O ginásio da SABI estava lotado, as torcidas cantavam e, na quadra, disputava-se uma partida daquelas em que perder significava voltar para casa. O jogo terminou empatado e a decisão foi para os pênaltis. Na época, um único jogador fazia toda a série de cobranças. Por algum motivo que até hoje não entendo, fui o escolhido. As cobranças seguiram equilibradas até a última. Se eu marcasse, estaríamos classificados. Caminhei até a bola com as pernas pesadas e o coração disparado. Chutei com toda a força e vi a bola explodir no goleiro adversário. Fim da história. Ou assim pensei. O árbitro apitou. O goleiro havia se adiantado. Depois de algumas discussões e muitos protestos, a irregularidade foi confirmada. O pênalti teria de ser repetido. Confesso que não lembro de ter visto a infração. Recoloquei a bola na marca fatal. Sem pensar em técnica ou estratégia, apenas chutei. Dest...

Tinha Uma Borboleta Azul

    Na infância, quando a primavera chegava, uma das brincadeiras que mais nos encantava era caçar borboletas. Nas tardes ensolaradas, pelo jardim de casa, entre gerânios, rosas e margaridas, elas dançavam no ar com uma liberdade que só hoje compreendo. Passeavam de flor em flor, como se bordassem caminhos invisíveis sobre os canteiros. Às vezes surgia apenas uma; outras, um verdadeiro “panapaná” (1) colorido tomava conta do jardim. Havia borboletas amarelas, vermelhas, verdes e pretas. Mas existia uma que despertava nossa fascinação: uma rara borboleta de azul cintilante que parecia carregar um pedaço do céu nas asas. Justamente por ser a mais bela, era também a mais perseguida. Na inocência daqueles dias, não entendíamos que aqueles frágeis seres estavam apenas cumprindo o curso natural da vida. Ignorávamos a longa jornada que começa no ovo, passa pela lagarta e pela crisálida, até florescer na forma perfeita da borboleta. Armados com nossos “puçás” (2) , seguíamo...

Pescaria de Sanga

Não sou adepto da pescaria, pois não possuo habilidade nem, tampouco, paciência para iscar anzóis, muito menos para molhar minhocas. A prática da pesca nunca foi minha especialidade. Juro que até tentei, mas não consegui. A máxima popular "está nervoso, vá pescar" não faz efeito para mim. Antes, pelo contrário, me estressa ainda mais. Nas poucas vezes em que acompanhei algum pescador de ofício, passei vexame: enfiei anzóis nos dedos, enrosquei linhas nos arbustos e perdi minhas iscas para lambaris de açude. Um verdadeiro fracasso. Mas, para que minhas peripécias aquáticas não passem em brancas nuvens, preciso confessar que, na infância, isso não conta muito, eu pescava na sanga lá da fazenda. Até que o pior aconteceu. Fisguei um dos grandões. Foi uma luta de Davi contra Golias. Ao final, abandonei tudo: caniço, iscas e alguns peixinhos de açude. Na ponta do caniço de taquara estava fisgado um muçum. Eu não tinha a menor ideia do que se tratava. Debandei em retirada de...

De Roupão e Pantufa

  Por anos, durante minha jornada laboral, conversávamos sobre como seria a aposentadoria. Aquele momento tão aguardado após o cumprimento da missão de trabalho, num país de tantas contradições, onde o sistema previdenciário nem sempre funciona adequadamente. Tudo girava em torno de projetos futuros: viajar, morar na praia, ter mais tempo com a família, enfim, desfrutar das conquistas, se é que elas vieram. Foram muitos os projetos de vida. Lembro bem das brincadeiras que fazíamos sobre como seria o dia de um aposentado. Acordar tarde, olhar pela janela e sorrir. Tudo era curiosidade e imaginação O fato é que, quando esse dia chegou para mim, algo curioso aconteceu. Já aposentado, com o ato administrativo devidamente publicado, afinal eu era servidor público, acordei cedo, como sempre fazia. Tomei banho, tomei café, dei um beijo na esposa e nos filhos, vesti o melhor terno, coloquei a gravata e lá fui eu para mais um dia de labuta. Ao chegar à sala onde, por mais de trinta anos, ...

No Me Gusta

  Às vezes me pego refletindo sobre os inconvenientes da vida: doenças, pessoas chatas, milho (continuo achando um equívoco gastronômico) e certas manifestações da irracionalidade humana. Também tenho minhas incoerências. Sou filho de Deus, não uma ata de reunião. Mas procuro não transformar meus equívocos em tese. Gosto de uma boa resenha. Gosto do contraditório. Nada enriquece mais uma conversa do que descobrir que estávamos errados. O problema começa quando o debate deixa de ser troca de ideias e vira um campeonato de convicções infundadas. Discordar é saudável. Rever opiniões é sinal de inteligência. Agora, defender o absurdo com autoconfiança inabalável não é personalidade, é apenas uma homenagem involuntária ao ridículo. Há uma diferença entre divergência e falta de bom senso. A primeira constrói. A segunda só produz ruído. E para certos ruídos, a única resposta intelectualmente honesta, emocionalmente saudável e socialmente elegante continua sendo: “No me gusta...

Nuno, o Incontestável Contestador

  Ele é um contestador nato, provocador por vocação. Suas manifestações e a defesa intransigente de seus pontos de vista costumam criar situações, no mínimo, curiosas; às vezes conflitantes, outras tantas embaraçosas. Mas é justamente aí que reside seu encanto. Nas rodas de conversa espalhadas pelos bares da cidade, ou nos encontros de amigos em que uma boa resenha é o prato principal, lá está Nuno, sempre pronto para o debate. Combativo, eloquente e absolutamente convicto de suas opiniões, ele defende com fervor quase acadêmico teses fundamentais para a humanidade: o ponto perfeito da carne no churrasco, a temperatura exata da cerveja e os critérios infalíveis para identificar um bom vinho. Não importa quantos especialistas estejam à mesa. Nuno sempre parece possuir uma informação adicional, uma experiência definitiva ou uma teoria capaz de virar a discussão de cabeça para baixo. Quando todos concordam, ele discorda. Quando todos discordam, ele encontra uma terceira via. Par...

Chá de Mastruço

A herança do conhecimento medicinal baseia-se na transmissão oral de saberes sobre plantas, raízes e práticas de cura entre gerações. Os mais velhos, nossos pais e avós, possuíam um vasto conhecimento sobre ervas e remédios caseiros que, nos dias de hoje, talvez levassem qualquer curandeira a responder perante a lei. Eram saberes adquiridos pela observação, pela experiência e pela necessidade, passados de boca em boca ao longo dos anos. Foram muitos os chás que consumi na infância, cada qual com suas supostas propriedades terapêuticas. Havia emplastros de ervas maceradas, líquidos, xaropes e infusões de toda sorte, todos cercados pela crença em seus poderes curativos. Mas houve um remédio caseiro que consumi além da conta: mastruço com leite. Era a receita predileta para aliviar os sintomas das gripes, dos resfriados, da bronquite e da tosse com catarro. Bastava surgir o primeiro espirro para que alguém colocasse a mistura no fogo. O aroma era inconfundível; o sabor, nem tanto. Ainda a...

Mais Rápido do Que Pegar Avestruz de Tamanco

  Os antigos tinham a mania de usar metáforas para descrever certos "acontecidos" . Lembro especialmente do meu pai, “Seu Alcides”, quando narrava suas histórias do tempo de rapaz. Dizia ele: "Certa feita, estávamos em um baile lá pelo interior de Amaral Ferrador". Meu pai nasceu em Encruzilhada do Sul." Segundo ele, foi nessa ocasião que Tibúrcio, mestiço de cabelos pretos, barba rala e chapéu quebrado na testa, resolveu se engraçar com uma moça da redondeza. Não era homem de boa índole; por qualquer desajeito, arrumava um rebuliço. Porém, havia um “senão”. A moça era filha do velho Gomercindo, fazendeiro daqueles truculentos, acostumado a impor respeito apenas com o olhar. Gaita vai, gaita vem, Gomercindo resolveu pôr fim àquela parceria. Menina de família não dança com qualquer um. Bastou. Tibúrcio puxou sua faca prateada e riscou o assoalho do salão. Abriu-se um clarão em meio ao baile. Cadeiras tombaram, bebidas se esparramaram pelo tabuão ...

De Onde Nascem os Meus Textos

  Dias desses, estava entre amigos, em um churrasco regado a muita resenha, quando fui inquirido sobre como criava meus textos e como conseguia manter uma periodicidade de publicações. Respondi que os temas surgem a todo instante. São fatos do cotidiano, lembranças, palavras soltas que me remetem à criação de situações curiosas e, muitas vezes, hilárias. Não sigo um rito específico, mas confesso que tenho bastante criatividade. Agora mesmo, enquanto escrevo este relato, escuto na vitrola o vinil “A Hard Day's Night” , dos Beatles. Eis aí palavras que poderiam render um texto: Beatles, vinil e recordações da juventude. E assim minha alma foi contemplada por palavras de reconhecimento, enquanto o velho ego ficou inflado. Há coisa melhor para quem escreve do que ser reconhecido por seus méritos? Creio que não. E isso, sem dúvida, é profundamente gratificante.  

Onde Anda a Tal Criatividade?

  Andamos carentes de ideias originais, úteis e relevantes. Eu, que nasci há muitas décadas e testemunhei mudanças radicais na sociedade, espanto-me com esse vazio cultural que parece se alastrar por todos os cantos. Especialmente na música, faz alguns anos que não vejo algo que possa ser chamado de verdadeiramente original e criativo. Na literatura, de tempos em tempos ainda surgem bons escritores. Talvez não apareçam novos “Balzacs ou Ernest Hemingways”, mas há vozes interessantes refletindo sobre a sociedade do presente e os desafios do futuro. Em nosso país, contudo, educação e cultura parecem caminhar de mãos dadas em direção ao abismo. Por isso, quando surge alguma mente pensante que se destaca da multidão de zumbis digitais, é motivo de comemoração. Estamos nos transformando em máquinas de repetição em massa, esvaziadas de criatividade. Repetimos até a exaustão aquilo que nos é apresentado, divulgado e vendido como tendência. A figura do influenciador, hoje, tornou-s...

A Alma da Roça

  A xícara de café repousava sobre a mesa. Embaixo dela, uma toalha de tecido áspero exibia manchas de tantas refeições passadas. O aroma forte do café misturava-se ao cheiro de lenha, fumo e tempo. Os farelos de pão espalhados pela mesa desenhavam estranhas figuras, dependendo da imaginação de quem olhasse. Ao lado, o cinzeiro de vidro acumulava bitucas como troféus havia décadas. Sentado num banco de madeira gasto pelos anos, Honório dormia o sono dos justos, dos que juravam estar apenas "descansando os olhos". A cabeça pendia perigosamente para um lado, os braços estavam largados, e de sua boca entreaberta escorria um fio de baba que desafiava a gravidade. Aos seus pés, o cusco Pitoco acompanhava tudo, lambendo o assoalho de tábuas. Para o cachorro, aquela baba representava um café da manhã inesperado. No canto da peça, iluminado pela luz alaranjada do fogão a lenha, o cenário parecia uma exposição de relíquias familiares. Na parede enfumaçada repousava uma fotog...

A Lembrança

  Para Trajano Ibarra Gusmão   Os anos haviam passado como marés silenciosas, levando consigo quase tudo. Agora, ele era um velho de mãos marcadas pelo tempo e de olhar gasto pelas distâncias percorridas. Do passado, restavam apenas fragmentos dispersos. Sentado em sua cadeira de palha na varanda da casa de praia, contemplava o horizonte com a serenidade de quem já não tinha pressa de chegar a lugar algum. À sua frente, o azul infinito do mar confundia-se com o céu, enquanto a espuma branca das ondas beijava a areia morna em movimentos eternos e repetidos. Mais ao longe, gaivotas cortavam o vento em círculos inquietos. Seus gritos ásperos pairavam sobre a praia enquanto observavam os pescadores que retornavam lentamente em seus barcos. Foi então que algo despertou dentro dele. Não uma lembrança completa. Apenas um lampejo. Um rosto. Tentou agarrar aquela memória antes que ela escapasse. Mas a memória tem vontade própria. Quanto mais se tenta capturá-la, mai...

Freeway

    Inaugurada em 1973, a Freeway continua moderna. Tão moderna que o asfalto parece estar permanentemente em atualização. Por ela pilotei meu Chevette 77, que, para a época, era uma verdadeira máquina, no melhor estilo James Dean. Também foi por ela que acompanhei a evolução tecnológica dos veículos, da era dos combustíveis fósseis aos carros elétricos. E foi justamente numa viagem de retorno do litoral, em um trajeto fatiado por praças de pedágio que seguem agredindo o bolso do usuário, que o moderno automóvel que hoje dirijo, nada semelhante àquele velho Chevette, enfrentou a dureza de um asfalto em constante reforma de si mesmo. Há remendo sobre remendo. Alguns são discretos. Outros surgem de surpresa, fazendo o motorista conferir se perdeu uma roda ou apenas alguns anos de expectativa de vida. Tudo isso ocorre em terras gaúchas, onde os pedágios figuram entre os mais caros do país. E a Rodovia Oswaldo Aranha, cujo ilustre personagem certamente não merece ver seu...

A Marvada Pinga

  Pedro do Burro, como era conhecido na vila, morava à beira do riacho. Para chegar em casa, só havia um caminho: atravessar uma velha pinguela de madeira. Em dias de chuva, a ladeira que levava até ela transformava-se num verdadeiro tobogã de barro. Ficar de pé naquela ribanceira era quase impossível. Mas Pedro conseguia. Lá ia ele, ladeira abaixo, equilibrando-se nos chinelos de tira de couro, presos entre dedos tortos de joanetes e unhas que mais pareciam garras. Ao avistar a ponte, suspensa por cordas castigadas pelo tempo e pelas intempéries, aprumava o olhar, balbuciava palavras incompreensíveis e seguia adiante. Nem sempre dava certo. Às vezes, o chinelo escapava, o pé deslizava e o tombo era inevitável. Mãos e joelhos esfolados, levantava-se resmungando contra a sorte e amaldiçoando o bolicheiro que lhe tinha vendido uma cachaça de péssima qualidade. Nessas horas, apelava para Nossa Senhora do Rosário. A pobre santinha já devia ter esgotado todo o seu estoque de bên...

A Benzedeira

  Ainda menino, por volta dos cinco anos de idade, conheci uma benzedeira de ascendência quilombola. Minha mãe tinha uma fé imensa naquela mulher que, com suas orações e saberes populares, oferecia alívio para as dores do corpo e da alma. Sempre que surgia alguma aflição, era a ela que recorríamos. Lembro-me com nitidez daquela senhora. Os cabelos grisalhos permaneciam escondidos sob um lenço cuidadosamente amarrado. O rosto, marcado pelo tempo e pelas dificuldades da vida, transmitia serenidade. O olhar profundo e expressivo, que parece enxergar além do plano físico. Vestia roupas simples, geralmente estampadas com flores, e carregava consigo medalhas de santos e guias de proteção. O ritual era simples. Sobre a mesa havia quase sempre um copo d'água, uma vela acesa e alguns ramos de arruda ou guiné. Enquanto fazia o sinal da cruz sobre a pessoa atendida, murmurava orações que eu não conseguia compreender. Naquela época, eu não entendia o significado de tudo aquilo. Apenas ...