Ele havia sido demitido da gráfica: trabalhos rareando, funcionários demais, futuro nenhum. Juntou seus pertences — uma régua, lápis, papéis e um livro de Camões com folhas soltas —, objetos que guardava na gaveta da escrivaninha. Despediu-se dos colegas e enfrentou a tarde cinza da cidadezinha do interior. Ao dobrar a esquina, deu de frente com a placa luminosa da cafeteria. Entrou pela porta giratória e sentou-se à mesa de tampo de mármore. A garçonete loira de sempre anotou o pedido: um expresso, um copo d’água e um pastel frio da manhã. Comeu como quem encerra um capítulo. Do bolso puído da calça de brim retirou uma nota amassada, pagou a conta, respirou fundo e partiu sem rumo. Restava-lhe apenas a incerteza. Sem trabalho, sem amores, sem fé — caminhou até a pequena ponte que ligava a cidade ao nada. Parou no meio, suspirou. Ao erguer o olhar, viu uma menina tentando salvar um barquinho de papel levado pela correnteza. Ele se aproximou e, num gesto rápido, r...
Bem‑vindo ao blog de Nélson Menezes Florisbal — um lugar para histórias simples, humanas e cheias de verdade. Aqui você encontra crônicas breves que registram momentos do cotidiano: um gesto, um ruído, um encontro, um pensamento que surge no meio da pressa. São relatos que abraçam o leitor e mostram que, mesmo nos dias mais comuns, sempre há algo digno de ser contado.