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Mostrando postagens de junho, 2026

Divisor de Emoções

A alegria e a tristeza sempre foram coadjuvantes das grandes decisões. Nas arenas tingidas por bandeiras multicoloridas e vestimentas exóticas, ao som de cânticos e da vibração incessante das torcidas, o estádio pulsa como um organismo vivo. Dentro das quatro linhas, corações e emoções transbordam. Esquemas táticos desenham trajetórias invisíveis, antecipando o roteiro que levará à glória ou à desilusão do objetivo não alcançado. Nesse universo onde sorrisos e lágrimas se confundem, sonhos se concretizam e esperanças se desfazem em prantos. Assim foi a primeira rodada da Copa do Mundo de 2026. Brasil x Japão silenciou duas nações por longos minutos: uma acostumada às grandes conquistas, outra resiliente, disciplinada, moldada pela frieza característica das tradições orientais. Mais adiante, um Paraguai guerreiro evocou os grandes feitos de seu herói histórico — Solano López, na Guerra do Paraguai — para resistir além do esperado. E, ao anoitecer, junto às colinas mexicanas, a e...

Figa, arruda, trevo e ferradura

  Rapaz, hoje o Brasil entra em campo e o país inteiro já acordou com aquela sensação de que se a seleção ganhar, a semana melhora; se perder, a culpa é do técnico, do VAR e do cara que lavou a camisa da sorte fora de hora.   A mesa do bar já tá montada: figa pendurada no chaveiro, arruda atrás da orelha, trevo amassado na carteira, ferradura na porta (que ninguém sabe como foi parar ali, mas ninguém tira pra não dar azar).   O garçom passa perguntando se alguém quer mais uma, mas a verdade é que ninguém tá bebendo: estão rezando, cada um no seu estilo. Tem o torcedor que faz promessa, o que bate na madeira, o que não troca de lugar na cadeira desde 2002, e o que jura que se o Brasil fizer gol ele beija o garçom. Do outro lado, o Japão. Time ajeitado, disciplinado, que treina como se fosse prova de vestibular. Mas também tem um pezinho no Brasil: Zico virou praticamente santo padroeiro do futebol nipônico, Nelson Yoshimura abriu caminho lá em 67, e Ruy Ramos vir...

Saudade, da Temperoma

É sabido, desde os primórdios da humanidade, que a alimentação sempre foi uma necessidade vital dos seres humanos. Os homens das cavernas já enfrentavam desafios imensos para subsistir naqueles tempos rústicos e implacáveis. Bem mais recentemente, no tempo dos meus avós, as receitas passadas de pais para filhos cobriam as mesas com fartura. Minha mãe foi uma excelente cozinheira. Produzia maravilhas no seu fogão à lenha, com temperos de aromas inconfundíveis. Nessa miscelânia de sabores e aromas chegamos aos dias de hoje. E há um prato impossível de não constar nos cardápios modernos: a pizza . Sempre fui consumidor ávido dessa delícia — para muitos, de origem italiana, só que não. Em muitos momentos, alguns especiais, é a maneira de festejar ou brindar, como queiram; essa massa recheada de essências faz a felicidade geral e transforma qualquer encontro simples em celebração. Foram muitos locais, alguns marcantes. A “Pizzaria Chuvisco”, ali na Cristóvão, de pizza com sabor inconfundíve...

O Mundo ao Avesso

    Nos dias atuais, é difícil compreender certas atitudes humanas. Caminhando pelas ruas do meu bairro, deparei-me com uma moça de uns vinte anos. A jovem, de curvas marcantes — impossível não notar — tentava atravessar a avenida movimentada. O fluxo intenso de veículos, impiedoso como a própria cidade, não lhe permitia avançar. Agitava-se, inquieta, como se o mundo inteiro a empurrasse para o outro lado da rua. Talvez fosse o trabalho que não perdoa atrasos, o ônibus que não espera, o medo de perder o dia, o emprego, a chance. Talvez fosse apenas o hábito de viver correndo — esse vício social que nos ensinaram desde cedo, como se a vida fosse uma linha de chegada que nunca alcançamos Parei para observar a cena, que me devolveu a um pensamento que sempre me assombra: por que tanta pressa? Para onde vão? Por que vão? Estão sempre atrasados, ou apenas acreditam que estão? Enquanto eu observava — não por indiferença, mas porque já aprendi que a pressa não me serve — a mo...

Hoje o Dia Acordou Mais Triste

  A evolução da espécie humana nos trouxe conquistas extraordinárias. Todos os dias, as mídias anunciam descobertas nas áreas da medicina, da tecnologia e da alimentação. Mas por trás de cada avanço há um preço silencioso: a exploração incessante dos recursos naturais. Manipulamos elementos essenciais do planeta como se fossem infinitos. Desestruturamos camadas geológicas, alteramos o clima, comprometemos rios, mares e florestas. A natureza exuberante — como a que ainda resiste na Amazônia brasileira — sofre as consequências da pressa humana em expandir-se, consumir e dominar. Criamos um ritmo de uso dos recursos que não acompanha o tempo de regeneração da Terra, e o resultado é a degradação crescente do solo, da água, do ar e da vida. Hoje, o dia amanheceu triste.   A América do Sul despertou sob o espectro da dor.   A natureza, indiferente às estruturas humanas e aos estudos que tentam prever seus movimentos, mostrou mais uma vez que não há tecnologia capaz de conter su...

Noite de São João

São João, celebrado em 24 de junho, sempre foi mais do que uma simples data no calendário. Lembro da expectativa que tomava conta da semana anterior aos festejos. Ainda garoto, saíamos em busca de madeira para montar a fogueira — quanto mais alta, mais parecia refletir nossa própria ideia de grandiosidade. Juntávamos taquaras, porque sabíamos que, ao tocarem o fogo, estourariam como rojões, busca-pés e outros pequenos artefatos que hoje, com a consciência ecológica e de segurança, já não são recomendáveis. Mas naquele tempo fazíamos coisas temerárias sem pensar duas vezes: colocar rojões sob latas para vê-las explodir, dilaceradas pelo impacto, era diversão garantida. Também fazíamos balões iluminados — hoje, nem pensar — e pendurávamos bandeirolas coloridas em longas cordas que cruzavam o pátio. No centro, cercada por pneus velhos, erguia-se ela: a fogueira, imponente, silenciosa, esperando o momento de ser acesa. Sobre as mesas, um banquete típico: pinhão, amendoim, rapadura, pipoca ...

Por que prefiro Pelé

  Sou de uma geração que viu o futebol arte nascer e crescer antes que a tecnologia o engolisse. Vi o jogo quando ainda era jogo — quando a bola era protagonista e não um dado estatístico, quando o drible era gesto espontâneo e não coreografia ensaiada. Naquele tempo, a lógica era simples e sábia: a bola deve correr mais que o jogador. E corria. Corria leve, obediente, guiada por pés que pareciam conversar com ela. Não se precisava olhar para baixo para dominá-la; bastava senti-la. Técnica era tato, era intimidade. O atleta sabia onde estava no campo como quem conhece a própria casa no escuro. Havia espaço para a invenção, para o improviso, para o lampejo que ninguém previa — nem o próprio autor. Hoje, não nego, há grandes jogadores. Há talento, há genialidade, há Messi — um maestro moderno, dono de uma visão espacial quase sobrenatural. Mas há também um futebol moldado em laboratório, milimetricamente planejado, onde cada passo, cada metro quadrado, cada movimento parece parte de ...

Quando o Que Parece Não É

    Estamos concluindo a primeira etapa classificatória desta Copa do Mundo espalhada por três países — por quê, exatamente, ainda não sei. Talvez um dia eu entenda, talvez não. Por enquanto, o que me importa é ajustar meu ponto de vista de leigo: aquele que, ou já está velho demais para absorver os novos conceitos, ou simplesmente não vê sentido nas mudanças que não acrescentam nada ao que sempre existiu. Afinal, a bola continua sendo uma bola — agora automatizada, sensível a estímulos, quase um ser vivo. O objetivo também permanece o mesmo: duas traves retangulares, separadas por alguns metros, onde atletas de equipes adversárias tentam fazer a bola passar. Simples. Ou pelo menos era. Hoje, o futebol virou um laboratório. Acrescentaram tempo de reposição, punições por gestos, intervalos para hidratação, e mais uma dezena de critérios que ninguém pediu. E claro, o VAR — essa invenção que prometia justiça, mas que mais atrapalha do que corrige. Frações imperceptíveis agora...

Maratona na Cidade

  Sempre tive o desejo de presenciar, in loco, uma Olimpíada. Ver atletas superando limites, conquistando medalhas, desde o sincronismo impecável da ginástica até a exaustão heroica de uma maratona. Equipes inteiras, coordenadas, subindo ao pódio como se dançassem em perfeita harmonia. Mas a verdade é que a Olimpíada que eu realmente vivo acontece todos os dias, pelas ruas da minha cidade. Uma competição silenciosa, sem torcida, sem medalhas, mas repleta de obstáculos que, às vezes, me fazem desanimar. As avenidas são um desfile de tampas de ferro mal colocadas, verdadeiras armadilhas prontas para destruir pneus, torcer tornozelos e testar a paciência de qualquer cidadão. Buracos, desníveis, bueiros abertos — obstáculos dignos de uma prova de resistência, mas sem o encanto esportivo, onde o prêmio é simplesmente chegar ao destino sem tropeçar. Pago religiosamente meus impostos e, em troca, recebo o desinteresse das sucessivas administrações municipais, que jamais se preocupar...

Crônica de um Ex-Viciado em Garrafinhas de Vidro

  Na minha infância, os refrigerantes tinham outros sabores. Eram muitas opções: Laranjinha , Crush , Grapette — quem bebe repete — e eu, na minha inocência infantil, juntava moedas naquele porquinho-cofrinho já descrito, que ficava sobre a geladeira da cozinha lá de casa. Aos finais de semana, nas minhas aventuras pela praia de Ipanema — não a do Rio, mas a do Guaíba (e não me venham com “lago”, por favor) — eu corria para comprar minha garrafinha de vidro gelada, de “Pepsi”, minha preferida na época. Eu me deliciava com aquele líquido efervescente sem a menor preocupação com diabetes, triglicerídeos, glicose, glicemia, “glicotudo”. A única conta que eu fazia era: dá pra comprar outra? Tomar refrigerante em garrafa de vidro tinha outro sabor. Talvez porque a gente não lia rótulo, não tinha nutricionista no “Instagram” e o máximo de advertência médica vinha da mãe dizendo: “não toma gelado que dá dor de garganta”. Hoje, se eu apareço com uma Pepsi, meu cardiologista me olha como...

Fui ao Vaticano e o Papa Não Estava Lá

Por anos, carreguei comigo a fantasia silenciosa de pisar no Vaticano como quem retorna a um lugar que nunca visitou, mas sempre habitou. Imaginava a Basílica de São Pedro, a Capela Sistina, Michelangelo suspenso em andaimes invisíveis criando o encontro entre Criador e Criatura. Era meu roteiro perfeito. A realidade, porém, improvisou. No Vaticano, vi profetas em mármore, santos que atravessaram séculos, a tumba de Pedro — o primeiro dos papas, o guardião inaugural da fé. Caminhei entre colunas que pareciam sustentar o próprio tempo. Tudo estava lá — menos Ele. O Papa não estava. A expressão popular soou quase irônica: “É como ir a Roma e não ver o Papa.” Pois eu fui. E não vi. Sorri da própria expectativa, tão humana quanto a de qualquer peregrino que chega esperando tocar o sagrado. Mas o sagrado, às vezes, se esconde. Ou tem agenda. Enquanto circulava pela Praça de São Pedro, percebi que a ausência também fala. Ela nos obriga a olhar para o que ficou, não para o que faltou. E o que...

O Ciclo

  O passado sempre chega primeiro, como aquela chuva fina que batia no telhado da casa dos meus pais. Era um tempo em que tudo parecia caber dentro de uma xícara de café quente e de um pão de milho recém-saído do forno. Eu acordava cedo só para sentir o cheiro da manhã. Essas lembranças voltam agora, no presente, enquanto observo a chuva escorrer pela vidraça do meu quarto. O frio que entra pelas frestas não é o mesmo, mas provoca a mesma vontade de recolhimento. A vida adulta me ensinou que o tempo corre mais rápido do que deveria, e que a saudade não é um peso — é um mapa. Cada gota que desliza no vidro parece desenhar o caminho que percorri até aqui. E então penso no futuro. Não como algo distante, mas como uma continuação natural desse ciclo. Imagino um dia em que outras mãos, talvez pequenas como as minhas foram, despertem com o cheiro de um café que eu mesmo preparei. Imagino contar histórias de manhãs nebulosas, de casas simples e de amores que aqueciam mais do que qualquer ...

Símbolos Fora do Lugar

    Outro dia, caminhando pela rua, reparei numa bandeira do Brasil pendurada na sacada de um prédio. Estava ali, meio desbotada, balançando preguiçosa no vento, como quem já viu demais e não se surpreende com mais nada. Pensei que, coitada, talvez estivesse cansada de ser convocada para tudo: protesto, jogo, briga, festa, campanha, churrasco, desabafo. Lembrei do hino também. Aquele que a gente cantava na escola, meio sem entender o que era “lábaro estrelado”, mas cantava. Hoje, o hino aparece em vídeos de internet, remixado, acelerado, usado como trilha sonora para discursos inflamados ou para dancinhas de 15 segundos. E o brasão? Esse então virou figurante. Aparece perdido em repartições públicas, em documentos que ninguém lê e em capas de cadernos escolares que ninguém guarda. Um símbolo que pede respeito, mas recebe olhares apressados, como quem passa por um velho conhecido na rua e finge que não viu. No fim das contas, os símbolos nacionais continuam lá, firmes, tentando...

A Copa Está Somente Iniciando

  Como sempre acontece nessas datas, a memória me puxa pela camisa e me arrasta de volta à infância.  Eu, menino sem grandes expectativas, inventava meu próprio futebol. Catava restos de trapos que minha mãe descartava e, com aquela teimosia criativa que só criança tem, moldava minha bola de meias. Era ela — pesada de pano, leve de sonhos — que eu chutava pelos campinhos da várzea. Cada corrida levantava poeira, cada chute levantava esperança. E não era apenas aquele amontoado de tecido que eu impulsionava, mas todas as ilusões que cabiam no meu peito pequeno. Ali, entre traves improvisadas e gritos de gol inventados, eu jogava mais do que futebol. Jogava meus desejos de futuro, minha vontade de ser grande, minha fé de que o mundo podia caber dentro de um drible. Para aquele menino, a Copa era um portal mágico: bastava o Brasil entrar em campo para que tudo — absolutamente tudo — pudesse dar certo. Hoje, adulto, sentado diante da televisão, percebo que aquele garoto ainda vive...

A Legião Estrangeira e o Vazio em Campo

  A Legião Estrangeira ruiu diante do próprio amadorismo e da desorganização tática, como já era previsível para qualquer brasileiro que não viva de fantasia patriótica. Já era sabido — embora muitos insistiam em negar — que a seleção enviada à Copa do Mundo está longe de representar o que temos de melhor em termos técnicos. O que se viu ontem foi um time acuado, tropeçando nas próprias pernas, incapaz de produzir um único lampejo de criatividade objetiva. O que restou de bom veio de fora das quatro linhas: a empolgação natural da torcida brasileira, sempre fiel, e o hino nacional, desta vez executado com a solenidade que merece, sem virar meme. No campo, porém, reinou o vazio — um silêncio tático que nem o grito das arquibancadas conseguiu preencher. Que venham, então, os guardiões da Cidadela Laferrière . Se não for para vencer, que ao menos sirva para nos lembrar que futebol, como a vida, não perdoa quem entra em campo sem alma.

A Lição Que Ninguém Aprendeu

  Quando a pandemia acabou, todo mundo prometeu virar gente melhor. Durou o quê? Três semanas. Obedecemos: aplaudimos das janelas, fizemos pão, ligamos para pessoas que não lembrávamos de amar. Juramos que, quando tudo passasse, seríamos diferentes — mais gentis, mais atentos, mais humanos. A pandemia foi um espelho enorme colocado diante de nós. Mostrou nossas fragilidades, nossos excessos, nossa incapacidade de lidar com o invisível. Mas, assim que o espelho foi retirado, fingimos que não tínhamos visto nada. É mais confortável assim. O silêncio acabou, e com ele acabou também a memória curta que sempre nos acompanha. Bastou o primeiro sinal de normalidade para que a pressa voltasse, arrogante. No primeiro engarrafamento, já tinha motorista buzinando como se o vírus tivesse sido culpa do pedestre. As máscaras caíram, literalmente e moralmente. A empatia voltou para o mesmo lugar onde guardamos manuais de eletrodomésticos: sabemos que existe, mas ninguém procura. Ainda assim, de v...

Para Minha Namorada

  Há amores que não se explicam — apenas se reconhecem, como quem reencontra um velho caminho. A vida, com suas curvas e desvios, parece brincar de esconder o destino. Um dia, sem aviso, coloca diante de nós alguém que se torna presença. E, quando percebemos, já não sabemos onde termina o acaso e começa o sentido. O amor, descobri, não é feito de promessas nem de grandes gestos. É tecido no cotidiano, nas conversas interrompidas, nos silêncios compartilhados. É o olhar que entende sem precisar de palavras, o toque que acalma sem exigir resposta. Com o tempo, ele deixa de ser fogo e se torna brasa — constante, discreta, mas capaz de aquecer até os dias mais frios. Talvez seja isso que chamamos de permanência. Não a insistência cega, mas a escolha consciente de ficar. Ficar quando seria mais fácil partir, quando o novo parece mais leve. Ficar porque há algo ali que transcende o instante — uma história, uma cumplicidade, uma paz que só se encontra depois de muitas tempestades. Qua...

Ficava Sempre Aos Meus Pés

  Sou de uma geração que era feliz, porque ser feliz era um modo de vida. Tínhamos amigos — muitos ainda estão por aí, outros viraram lembrança, e alguns já se foram deixando apenas a saudade pousada no peito. Mas havia também um amigo secreto. Um amigo de raça indefinida, que mudava de cor conforme o tempo: às vezes preto, às vezes branco, às vezes pardo. Não importava — nunca houve espaço para discriminar. Éramos felizes juntos. Companheiros de tantas jornadas, cúmplices nas alegrias e nas tristezas, nas dores e nos prazeres. Em certos dias, éramos gladiadores invencíveis, duros, quase desumanos na forma como enfrentávamos o mundo. Mas éramos parceiros. Inseparáveis. Conquistamos glórias, subimos pódios, celebramos vitórias como quem celebra a própria vida. E, quando a derrota vinha, chorávamos juntos — lágrimas sinceras, daquelas que lavam a alma. E nas vezes em que a vida me levou para longe, quando não pude estar contigo, você ficou ali, esquecido num canto. Silencioso, pacien...

Aquela Bermuda Lee

  O ano era 1966, às margens do rio Guaíba — uns insistem que é lago, mas eu sigo fiel ao que aprendi na escola: é rio, e ponto final. Essa discussão fica para outro dia. Naquele tempo, as rádios tocavam uma canção italiana sobre um rapaz que amava Beatles e Rolling Stones, e parecia que o mundo inteiro vibrava junto com ela. Mas o que importa aqui é ela: a gloriosa, lendária, épica bermuda de jeans que um dia foi calça. E que calça. Minha infância foi excelente, daquelas que só pobre entende: diversão barata, amigos barulhentos e criatividade sem limites. Mas, no meio dessa simplicidade toda, eu alimentava um sonho ousado, quase um delírio juvenil: vestir uma calça Lee , daquelas “ made in USA”. Coisa de adolescente que enxerga o mundo com olhos maiores que o bolso. A jornada para consegui-la foi longa. Economias, esperas, pequenos obstáculos que pareciam enormes. Até que um dia ela chegou: a tão desejada Lee . Vivi anos dentro dela. Festas, reuniões dançantes, amores. Ela acom...

A Relevância dos Amistosos às Vésperas da Copa

  Às vésperas de uma Copa do Mundo, volta à cena um velho debate: para que servem os amistosos de última hora? A cada ciclo, repete-se o mesmo ritual — jogos protocolares, seleções incompletas, atletas exaustos — e, inevitavelmente, o mesmo desfecho: lesões, cortes e a sensação de que nada daquilo precisava ter acontecido. O que se viu recentemente com a seleção brasileira é um retrato fiel desse problema. Muitos dos convocados chegam da Europa com cargas físicas elevadíssimas, vindos de temporadas longas, intensas e cada vez mais exigentes. O futebol moderno cobra um preço alto: a condição física passou a se sobrepor à técnica, e o corpo, antes instrumento de arte, virou máquina submetida ao limite. Nesse cenário, submeter jogadores desgastados a amistosos de baixa relevância beira o contrassenso. O ganho tático é mínimo, especialmente quando o elenco já deveria ter assimilado os conceitos essenciais muito antes. O que se vê, na prática, é o oposto: improviso, ajustes de última ho...

O Sabor Que Sobrevive ao Tempo

  Há sabores que não pertencem apenas ao paladar, mas à memória. O “Rins à Moda do Gambrinus”, por exemplo, não é um prato: é um rito. Algo próximo do néctar dos deuses, servido no coração do Mercado Público de Porto Alegre, esse velho sobrevivente que já enfrentou mais tragédias do que muitos romances ousariam narrar. O casarão, erguido no século XIX, viu as águas subirem inúmeras vezes, como se o Guaíba, em seus humores antigos, quisesse testá-lo. Resistiu a enchentes que engoliram ruas, lojas, histórias. E, quando não era a água, era o fogo: o incêndio que devorou parte de sua estrutura deixou marcas que o tempo não apaga, e que o Mercado ostenta como cicatrizes de quem se recusa a tombar. Ainda assim, entre fumaça e escombros, o Gambrinus permaneceu — teimoso, firme, quase mítico. Sempre que o bolso permitia — e às vezes mesmo quando não permitia — eu me deixava conduzir por aquele labirinto de aromas, cores e vozes. O Gambrinus, inaugurado em 1889 por descendentes de alemães, ...

A Roda Gigante

  Girando, girando, multicolorida, rasgando o espaço num giro constante que dava nó na barriga.   Lembro como se fosse agora: os dias no parque de diversões tinham pipoca quente, algodão doce azul/rosa e tiro ao alvo. Era um mundo inteiro embalado por risadas, luzes piscando e aquela música meio desafinada que só parque de interior sabe tocar. Mas era na roda-gigante que eu me transformava. Ali, suspenso no alto, eu deixava de ser criança de pés descalços e virava astronauta dos meus próprios sonhos. A cada volta, o mundo diminuía lá embaixo, e eu navegava um universo inventado, infinito, onde tudo parecia possível. E, claro, sempre tinha aquele momento em que a roda parava lá no alto. Todo mundo achava lindo, romântico, emocionante. Eu não. Eu só pensava no parafuso que o moço do macacão azul jurava ter apertado “ontem mesmo”. A fé da criança é uma coisa bonita, mas a minha confiança naquele parafuso era pura teimosia. As luzes, as algazarras, o vento batendo no rosto… Naquel...

Maria Fumaça

  Há coisas que a gente não conta para muita gente. Não porque sejam segredos, mas porque moram num lugar tão delicado da memória que dá medo de estragar ao tocar. A Maria Fumaça é uma dessas coisas minhas — dessas que vivem entre o peito e o silêncio. Lembro-me, ainda muito pequeno, de estar dentro de um daqueles vagões de madeira. As imagens são vagas, como fotografias antigas meio desbotadas, mas ainda assim carregadas de afeto. Os bancos forrados de couro, o balanço suave da composição, o trocador passando com seu perfurador de bilhetes — tec, tec, tec — e a paisagem se abrindo pelas janelas como um filme que só existia para quem estivesse ali. Depois veio o trenzinho de lata, no Natal. Colorido, barulhento, meio torto. Mas era meu. E eu o fazia rodar pela casa inteira, como se pudesse recriar, na sala, a emoção que eu ainda não sabia nomear. Acho que foi ali que percebi que algumas paixões não se escolhem — elas simplesmente acontecem, como um sopro. Na adolescência, quando o...

Caleidoscópio

  O mundo começou a girar diante de mim numa tarde qualquer, dessas em que a luz entra pela janela como quem não pede licença. Eu estava distraído, talvez cansado demais para perceber que algo em mim também girava. Foi então que, sem aviso, tudo se tornou um grande caleidoscópio — com suas cores imprevisíveis e seus estilhaços de memória. Cada movimento, por menor que fosse, reorganizava o cenário. As coisas que eu julgava sólidas se desfaziam em fragmentos luminosos, e outras, que eu nunca tinha notado, surgiam com uma nitidez quase insolente. Era como se o mundo insistisse em me mostrar que nada permanece igual por muito tempo. Enquanto observava esse turbilhão íntimo, percebi que não era apenas o mundo que mudava. Eu também me via multiplicado em versões que se contradiziam e se completavam. Havia o eu que acreditava saber de tudo, o que fingia não sentir nada, o que sonhava alto demais, e aquele que só queria um pouco de silêncio. Todos coexistiam ali, refletidos como espelhos ...

Eu Vi o Papa

Julho de 1980 amanheceu diferente em Porto dos Casais. Havia um rumor no ar, desses que fazem a cidade inteira respirar mais devagar, como se cada esquina estivesse à espera de algo que não se repete. O frio gaúcho parecia menos áspero naquele dia, talvez por causa da expectativa, talvez porque todo mundo carregava um brilho nos olhos. O Papa João Paulo II vinha nos visitar, e isso, para nós, era quase como ver a história atravessar a rua. As pessoas se amontoavam nas calçadas, enroladas em cachecóis, segurando bandeirinhas, rezando baixinho ou apenas sorrindo. E, claro, o coro que ecoava por toda parte — “ucho, ucho, ucho, o Papa é gaúcho ” — dava um tom de festa a um momento que, no fundo, era de pura devoção. Eu, jovem e cheio de curiosidade pela vida, caminhava entre aquela multidão como quem tenta guardar tudo num só olhar. A fé, para mim, tinha começado muito antes. Lembro-me do dia em que o Papa João XXIII morreu. Eu tinha doze anos. A escola, sempre barulhenta, ficou to...

O Vendedor de Bilhetes

  Na frente do Mercado Público, entre o cheiro de peixe fresco e o barulho dos ônibus que nunca chegam no horário, ele está lá. Camisa surrada, boné desbotado, um maço de bilhetes na mão e esperança no bolso. É o vendedor de sorte - ou, como ele mesmo diz, "o distribuidor de sonhos".  Seu nome é Afrânio, mas poucos perguntam. Para a maioria, é só "o cara da loteria". Está ali todos os dias, faça sol, faça chuva, faça greve. Com um sorriso que desafia estatísticas, oferece bilhetes como quem oferece milagres. -  Vai que hoje é teu dia, chefe!- diz, com a convicção de quem já viu gente ganhar e desaparecer, e muito mais gente perder e continuar tentando. Afrânio conhece os fregueses pelo andar. Sabe quem joga por superstição, quem joga por desespero, quem joga por hábito. E sabe também quem só para pra conversar, porque às vezes o bilhete é só desculpa pra um papo rápido sobre futebol, política ou o preço do tomate. Ele mesmo nunca ganhou. Diz que sorte não gosta de q...

Saudação a João Fonseca

  Sempre acreditei que o tênis era um território reservado aos ricos: uniformes alvíssimos, gestos contidos, clubes onde o silêncio valia mais que qualquer aplauso. Para nós, que vivíamos do lado de fora da cerca, restava a fresta na parede — aquela pequena abertura por onde víamos a bola amarela riscar o ar como um cometa, levantar poeira do saibro e desaparecer no brilho do sol. Era um espetáculo distante, quase proibido, habitado por figuras de postura nobre, como se o esporte fosse um salão aristocrático ao ar livre. Mas o tempo, esse grande desarrumador de certezas, tratou de mexer nas peças. A sociedade mudou, os muros ficaram mais baixos, e um dia surgiu um menino magricela lá do Sul, de sorriso fácil e cabelos desgrenhados. Guga — assim, simples, íntimo, como se já fosse da família. Ele fez o Brasil descobrir que também podia vibrar com uma raquete na mão. Transformou o país em arquibancada, em torcida, em sonho. O tênis deixou de ser exclusividade dos abastados e virou ass...