Na frente do Mercado Público, entre o cheiro de peixe fresco e o barulho dos ônibus que nunca chegam no horário, ele está lá. Camisa surrada, boné desbotado, um maço de bilhetes na mão e esperança no bolso. É o vendedor de sorte - ou, como ele mesmo diz, "o distribuidor de sonhos". Seu nome é Afrânio, mas poucos perguntam. Para a maioria, é só "o cara da loteria". Está ali todos os dias, faça sol, faça chuva, faça greve. Com um sorriso que desafia estatísticas, oferece bilhetes como quem oferece milagres. - Vai que hoje é teu dia, chefe!- diz, com a convicção de quem já viu gente ganhar e desaparecer, e muito mais gente perder e continuar tentando. Afrânio conhece os fregueses pelo andar. Sabe quem joga por superstição, quem joga por desespero, quem joga por hábito. E sabe também quem só para pra conversar, porque às vezes o bilhete é só desculpa pra um papo rápido sobre futebol, política ou o preço do tomate. Ele mesmo nunca ganhou. Diz que sorte não gosta de q...
Bem‑vindo ao blog de Nélson Menezes Florisbal — um lugar para histórias simples, humanas e cheias de verdade. Aqui você encontra crônicas breves que registram momentos do cotidiano: um gesto, um ruído, um encontro, um pensamento que surge no meio da pressa. São relatos que abraçam o leitor e mostram que, mesmo nos dias mais comuns, sempre há algo digno de ser contado.