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Postagens

O Mercado Público

    Sempre que viajo, minha agenda inclui uma visita ao Mercado Público da cidade em que estou. É automático, um ato espontâneo que me leva a caminhar por entre bancas repletas de cores, sabores e aromas. É um deleite para os olhos e para o olfato. Queijos, embutidos, temperos, carnes; prateleiras e tulhas transbordam de produtos das mais diversas procedências. Os vendedores, quase membros da família, abordam a freguesia, cada um oferecendo seu produto como o de melhor qualidade e o de preço mais acessível. São os mais variados condimentos: açafrão, cominho, páprica, pimentas, louro, tomilho. Há também bacalhau, carnes especiais, farinhas e uma boa erva-mate para o chimarrão, além do vinho verde português. Logicamente, como em todo bom mercado público, existem os bares e restaurantes, com suas comidinhas regionais. Cada estabelecimento apresenta um cardápio próprio, capaz de despertar a curiosidade e proporcionar o deleite dos visitantes. E assim, entre uma viagem ...
Postagens recentes

O Tempo Não Está Acabando

    Hoje estava divagando sobre a vida e sobre tudo o que fizemos em nossa passagem por este plano. Fui tomado por uma ansiedade repentina enquanto minha mente percorria momentos vividos. Tantas alegrias, tantas tristezas e tantas dúvidas. Perguntei a mim mesmo o que ainda estou deixando passar nesse fio de vida que, dia após dia, segue correndo. A vida é boa demais. Ainda tenho muito a fazer, muito a contribuir. Tenho uma vontade danada de sair pelo mundo, conhecer novos lugares, viver novas histórias e aproveitar todas as possibilidades que meu trabalho agora me proporciona nesta fase da aposentadoria. O melhor presente que a vida me deu foi a família e os amigos, peças indispensáveis nesta jornada. São eles que dão sentido aos dias, que transformam momentos simples em memórias eternas e que fazem valer cada passo do caminho. E agora, quando meu maior objetivo é simplesmente viver, viver muito e viver bem, percebo que o tempo não está acabando. Na verdade, ele está...

Picumã (1)

  A casa de madeira era pequena, com apenas duas peças: a cozinha e um cômodo adjacente que servia, ao mesmo tempo, de sala e dormitório. Nos rigorosos invernos dos campos do Sul, a família reunia-se em torno do fogão a lenha de quatro bocas. O crepitar das brasas e os lampejos avermelhados refletidos nas paredes aqueciam aquele ambiente simples, onde o tempo parecia correr mais devagar. Entre um mate e outro, a panela de ferro, encrostada de gordura, cozinhava a carne do almoço. A fumaça escapava do fogão e subia lentamente em direção ao telhado de telhas de barro. Ali, onde as vigas se encontravam formando ângulos semelhantes a pequenas pirâmides, acumulava-se o “picumã” . Negro e espesso, nascido da fuligem de incontáveis fogueiras, ele se agarrava às ripas como se fizesse parte da própria construção. Crescia devagar, ano após ano, formando franjas escuras que balançavam quando o vento encontrava frestas entre as tábuas da casa. As teias de aranha, recobertas pela fumaça...

A Batina do Padre Salvatore

  Houve um tempo em que as missas dominicais da igrejinha do bairro reuniam quase toda a comunidade. Dizia-se que metade dos presentes comparecia por fé e a outra metade por simples curiosidade. Ninguém sabia ao certo se a conta era verdadeira, mas bastava olhar ao redor para acreditar. Os velhos bancos de madeira, gastos por décadas de joelhos penitentes, acolhiam figuras que hoje permanecem apenas na memória daqueles que viveram aqueles dias. Entre elas estava o Vesgo Caolho, homem magro como vara de pescar, que jamais perdia uma missa. Os mais maldosos comentavam que ele aparecia apenas para receber a hóstia, como quem garantia uma refeição. Ele, porém, sempre negava. — Eu venho pela palavra de Deus — costumava responder, limpando a boca logo depois da comunhão. Na primeira fila sentavam-se as irmãs Margarida, Madalena e Magnólia. Já haviam passado dos quarenta e muitos anos e nunca se separavam. Vestiam-se com discrição, carregavam enormes terços e rezavam com uma dev...

O Sorriso Perturbador

    A gargalhada ecoou de forma sinistra pelos corredores da enfermaria, espalhando-se pelos outros andares do prédio. Havia nela um tom sarcástico e perturbador. Como acontecia quase todas as noites, ele despertava sob uma estranha agonia. Seus olhos percorriam o quarto escuro, enquanto vultos pareciam deslizar pelas paredes. As atendentes do andar ficavam atônitas sempre que ele insistia em afirmar que estava sendo perseguido. Com o dedo apontado para o vazio, balbuciava palavras indecifráveis, como se tentasse alertar alguém sobre uma ameaça que somente ele conseguia enxergar. O silêncio que se seguia era ainda mais assustador. As funcionárias trocavam olhares inquietos, sem saber ao certo se presenciavam os delírios de uma mente atormentada ou algo que escapava à compreensão de todos. Assim, os anos foram passando, e aquele corpo quase inerte sobre a cama já não lembrava em nada o jovem audacioso e esbelto que, um dia, atraíra os olhares apaixonados de tantas mul...

Mexer em Vespeiro

    Na vida, certas circunstâncias merecem ser tratadas com a devida cautela. A pressa quase nunca foi boa conselheira e a afoiteza, como dizem os antigos, nunca foi madrinha para ninguém. Mexer em vespeiro é assim. Antes de agir, convém avaliar as consequências. Nem toda provocação merece resposta, nem toda verdade precisa ser dita de qualquer maneira. A vida ensina que prudência não é covardia. Prudência é inteligência. É compreender que algumas batalhas podem ser evitadas e que a serenidade costuma produzir resultados melhores do que a impulsividade. Há momentos em que o silêncio vale mais do que uma resposta imediata. Muitas vezes, uma palavra dita no calor da emoção tem o poder de criar problemas que a razão jamais teria permitido. E embora se diga que "palavras ditas o vento leva", a verdade é que algumas permanecem por muito tempo na memória de quem as ouviu. No fim das contas, a sabedoria está em saber distinguir quando falar, quando agir e, principalmente, ...

Chorar Sobre o Leite Derramado

    Hoje me veio à memória um dito popular que sem nenhuma razão filosófica, resolvi misturar com um assunto que vive aparecendo nos noticiários. Coisas da idade: a gente começa lembrando do leite derramado e termina falando de transporte público. Lembro bem daquela época. Era o ano de 1976, quando o vereador Sadi Schwerdt, icônico lateral-esquerdo do Sport Club Internacional, foi o autor do projeto da lei dos táxis-lotação. Mas o que quero deixar registrado, de certa forma, tem a ver com o ditado: "Não adianta chorar sobre o leite derramado". A junção desses dois fatos me remete aos dias atuais. Apesar de já ter passado meio século, as modernidades disponibilizam meios de transporte em abundância. Os carros tornaram-se comuns em grande parte das famílias, desde as mais humildes, para as quais os veículos são ferramentas de trabalho, até as mais aquinhoadas, que os utilizam para deleite próprio e demonstração de status. Com a evolução, novas formas de locomoção fo...

O Paciente do Quarto 69

    Ninguém compreendia a aversão que ela demonstrava sempre que precisava entrar no quarto 69. Para a equipe, era apenas mais um paciente: um homem reservado, de meia-idade, internado havia meses. Nada parecia justificar tamanho desconforto. Mas, ao se aproximar daquela porta, sentia o estômago revirar e o coração disparar. Era como se fosse arrastada para um passado que tentava esquecer. Após ser afastada do trabalho, refugiou-se em seu apartamento. Entre garrafas de whisky vazias e noites sem sono, abriu uma velha caixa guardada no fundo do armário. Dentro dela havia fotografias, recortes de jornais e lembranças que jurara nunca mais revisitar. Foi então que encontrou uma fotografia. Ao vê-la, empalideceu. Era ele. Mais jovem, mas inconfundível. O paciente do quarto 69 não era um estranho. Vinte e sete anos antes, havia sido o principal suspeito de um desaparecimento jamais esclarecido. Sem provas, o caso foi arquivado, e ela seguiu a vida acreditando ter ...

O Relógio Cuco

  Por mais de dois séculos ele esteve ali, ao pé da grande escadaria da mansão. O velho relógio cuco, datado de 1730, era muito mais do que um simples objeto de decoração. Sua presença silenciosa atravessara gerações, testemunhando risos, lágrimas, celebrações e despedidas. A cada hora, o pequeno pássaro surgia para anunciar a passagem do tempo com seu inconfundível “cu-cu” , um som que se misturava à própria identidade da casa. Constava nos relatos familiares que o primeiro morador da mansão o trouxera entre seus pertences mais valiosos, recebido como herança de antigos antepassados. Ninguém mais sabia ao certo quantas mãos o haviam preservado ou quantas histórias ele carregava em sua estrutura de madeira escurecida pelo tempo. Os mais velhos lembravam que, quando crianças, corriam pelos corredores e escadarias em meio às brincadeiras, sempre acompanhados pelo compasso regular do pêndulo. Era ele quem marcava a hora da merenda, dos deveres escolares, das aulas de piano e do banho ...

Os Fantasmas da Memória

  Passaram-se muitos anos. Ela havia se recuperado, ao menos em aparência, das situações adversas que fizeram dela uma mulher triste e emocionalmente fragilizada. Mas certas feridas não desaparecem; apenas aprendem a se esconder. O mundo ao seu redor era um emaranhado de dúvidas e questionamentos. Nunca mais foi a mesma. Vivia em permanente estado de alerta, como se algo terrível estivesse prestes a acontecer. O simples toque do telefone podia anunciar uma tragédia. Um atraso de poucos minutos transformava-se em motivo para angústia. Tudo servia de combustível para seus medos. O apartamento, localizado no final de uma rua sem saída, tornou-se seu refúgio e sua prisão. Durante o dia, era apenas mais um imóvel cercado pelo silêncio do bairro. À noite, porém, assumia outra forma. Os corredores pareciam mais longos, as sombras mais densas, os ruídos mais ameaçadores. Ali, entre paredes que guardavam lembranças demais, ela enxergava criaturas imaginárias. Não eram monstros de de...