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A Taça de Vinho e o Beijo

  Samantha chamava atenção por onde passava. Alta, elegante, de cabelos loiros sobre os ombros, olhos esverdeados e sorriso misterioso, tinha uma presença difícil de ignorar. Na multinacional onde atuava em Finanças e Compliance, sua beleza frequentemente se sobrepunha à percepção de sua competência. Em reuniões, recebia olhares prolongados, elogios velados e comentários que desviavam o foco de suas observações técnicas. Percebia tudo, mas preferia deixar que o profissionalismo falasse por ela. O que mais a incomodava eram as confraternizações da empresa. Entre brindes e conversas aparentemente inocentes, surgiam abordagens que ultrapassavam limites. Nada explícito o suficiente para uma denúncia, mas bastante para fazê-la sentir-se observada e reduzida à própria imagem. Ainda assim, Samantha seguia firme em suas ambições profissionais. Em uma dessas festas, o diretor adjunto aproximou-se com uma taça de vinho. — À sua contribuição para a empresa. — Saúde. As taças se ...
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Jogo do Bicho

  Esta questão de sorte e azar sempre me intrigou. Tenho o hábito de jogar na Lotofácil há muitos anos, sempre apostando nos mesmos números. Ao longo desse tempo, já fui contemplado diversas vezes com os prêmios menores e, em duas ocasiões, cheguei muito perto do prêmio principal. O valor recebido foi razoável, suficiente para alimentar ainda mais a esperança de um dia acertar tudo. Mas o que sempre me intrigou foi a maneira como esses números aparecem nos sorteios. Há números que parecem surgir repetidamente, enquanto outros desaparecem por longos períodos. E, apesar de toda a insistência e da fidelidade às mesmas dezenas, gabaritar o resultado continua sendo um desafio quase impossível. Por outro lado, existe o famoso “jogo do bicho”, essa espécie de instituição nacional não oficial que atravessa gerações. Nele, um simples papel preenchido à caneta sobre papel carbono, produzindo duas vias, transforma-se em comprovante de uma aposta. Dezenas, centenas, milhares e alguns pouco...

O Velório

  O dia amanheceu nublado naquele bairro da periferia da cidade. Quem passava pela velha casa de taipa podia enxergar, por entre a ramagem da cerca-viva, o interior da sala simples, onde repousava o caixão, ladeado por duas velas que iluminavam a parede tosca, na qual um crucifixo metálico se destacava, refletindo seu brilho. Nas cadeiras de palha enfileiradas ao redor do ataúde, parentes e amigos se revezavam enaltecendo as qualidades do falecido, fato comum nesse tipo de situação. A tradicional frase: "Como era bom o Deoclécio!" era repetida à exaustão. Num canto da sala, atrás da cortina puída, dois meninos curiosos e risonhos faziam feições de quem zombava da situação. Em outro lado do recinto, rezadeiras chamadas para orar e derramar lágrimas em nome do morto, todas vestidas de preto, entoavam seus cânticos e lamentos. A viúva, amparada pelo irmão do falecido, soluçava entre prantos e lamentações. O grupo de solteironas, em outro canto, fazia gracejos. Os homens, de se...

Salvo-Conduto

Dia desses, numa mesa de bar, reunido com antigos colegas de trabalho, entre uma cerveja gelada, petiscos e os assuntos de sempre, discutíamos política, futebol e, como não poderia faltar, as famosas bets . Foi então que um dos parceiros soltou uma observação que arrancou risos imediatos: — Essas reuniões mensais que fazemos são uma concessão da minha esposa. Segundo ela, eu preciso reservar um tempo para encontrar os amigos. A gargalhada foi geral. Alguns entenderam a ironia de imediato. Outros, mais sisudos, encararam a declaração com certa perplexidade. — Como assim? Tu precisas de autorização para sair de casa? Outro emendou, cheio de convicção: — Lá em casa sou eu quem manda. Vou aonde quero e ninguém se mete nos meus assuntos. O comentário produziu um silêncio curioso. Houve troca de olhares, mas ninguém quis entrar em debate. Afinal, certos assuntos são como vespeiros: melhor não cutucar. A conversa logo tomou outro rumo, mas a cena ficou martelando na minha...

Corneta

Ontem fui interpelado por um amigo de longa data, santista e torcedor do “Peixe”. Ele carrega na bagagem uma vantagem difícil de contestar, afinal, por muitos anos Pelé foi o maior símbolo do Santos e do futebol mundial. Mas não é sobre o Rei que quero falar. Quero falar dessas brincadeiras provocativas que os torcedores direcionam aos rivais. No futebol, criou-se o hábito de descontrair às custas da desgraça alheia, esportivamente falando. Perguntou ele: — E o teu Grêmio, vai ser rebaixado de novo? Respondi sem titubear: — Vai. E será o único clube tricampeão da Segundona. Um feito reservado apenas para quem é "Campeão de Tudo". Naturalmente, veio a réplica. Depois, a tréplica. E assim a conversa seguiu, como acontece há décadas entre torcedores que sabem rir das vitórias e das derrotas. O futebol, por ser uma paixão de massas, acabou transferindo para outras situações da vida essa disputa bem-humorada de zombar do adversário. Surgiu daí a famosa "cornet...

Churrasco de Costela

  Churrasco de costela é coisa sagrada na campanha. Basta um fogo de chão bem atiçado, uma costela no braseiro e meia dúzia de gaudérios em roda para a noite voar mais ligeiro que quero-quero assustado. No galpão, a chaleira chia na "trempe", o amargo corre de mão em mão e a "canha" aparece de vez em quando para espantar o sereno. Num canto, o cusco baio dorme de um olho só, sempre atento a algum naco desgarrado. Sentado num "cepo" de guajuvira, sobre um pelego batido de uso, o peão pica o fumo para o palheiro enquanto o angico crepita no fogo. As brasas alumiam os rostos curtidos de sol e fazem dançar as sombras pelas tábuas do galpão. Entre um mate e um gole de pinga, os "causos" vão crescendo. Um vivente garante que laçou um touro tão grande que levou três dias para encontrar a outra ponta do laço. Outro gaudério, já "entonado" pela canha, jurava ter um cavalo tão ligeiro que montava de manhã e apeava no destino no dia anterior. As g...

O Contragolpe

Amâncio era daqueles sujeitos que pareciam ter nascido à margem da afeição alheia. Tinha admiradores, é verdade, mas eram poucos. Suas sandices, quase sempre destituídas de lógica, faziam dele alvo constante das ironias que circulavam nas rodas de conversa à beira do fogo de chão, no galpão grande da fazenda. Com o passar dos anos, aquelas zombarias foram endurecendo o homem. Não lhe roubaram a ingenuidade, mas deixaram cicatrizes invisíveis. E como acontece com tantos na vida campeira, onde os dias são ásperos e as noites de geada não perdoam, Amâncio foi aprendendo a suportar os reveses sem dizer palavra. Ainda assim, guardava na alma um desejo que nunca revelou a ninguém. Numa manhã fria, durante a roda de chimarrão, as costumeiras provocações vieram outra vez. Eram as mesmas piadas, os mesmos risos, os mesmos olhares de canto. Mas naquele dia algo era diferente.  Talvez o cansaço de ser sempre o motivo da graça. O sangue lhe ferveu nas veias. A face ruborizou-se. Lentamente, ...

Espoletas

Cresci num tempo de inocência em que tudo era possível, pois conhecíamos os limites. Brincávamos de Forte Apache. Transformávamos quintais nas vastidões do Velho Oeste, vestidos a caráter, ao melhor estilo John Wayne . Atirávamos em malfeitores, encurralávamos "comanches e apaches" e, por certo, muitas vezes saíamos feridos pelas flechas de "Touro Sentado". Morríamos muitas vezes. Ressuscitávamos sempre. Éramos crianças simplórias, portando nossos revólveres "Estrela", cujo calibre disparava sonhos. Nenhum tiro derrubava homens; atingia apenas fantasias. Vivíamos da ilusão consentida de sermos Roy Rogers, Bat Masterson, Gene Autry e tantos outros. As armas reluzentes que eu portava no cinturão, decorado com franjas de couro, tinham o tambor rotativo onde inseríamos rolinhos de “espoletas”, pequenas centelhas de felicidade embrulhadas em papel vermelho. A cada disparo, o ar ficava impregnado pelo cheiro de pólvora queimada. Então eu saía em def...

Quebra-Queixo

Na década de 1960, foi a alegria da gurizada e uma importante fonte de renda para os dentistas. Bastava uma mordida mais entusiasmada e lá se ia um dente, uma obturação ou parte da autoestima. Ainda assim, ninguém desistia. Pelo contrário: quanto mais perigosa a bala parecia, mais fascinante ela se tornava. Naquela época, o quebra-queixo era barato, cabia no orçamento da criançada e podia ser encontrado em qualquer quitanda. Nas matinês de domingo, marcava presença no tabuleiro do baleiro, aquele da cesta de vime que encantava crianças e adultos com sua miscelânea de cores e sabores. A diversão começava quando aquela pedra doce resistia bravamente às primeiras investidas da mordida. Depois de longos minutos de mastigação, finalmente se transformava num puxa-puxa macio. Era uma espécie de duelo entre a bala e a mandíbula. Hoje, certamente enfrentaria uma dura sabatina de nutricionistas, cardiologistas, endocrinologistas e, provavelmente, até de algum influenciador fitness . Seria acusad...

Carrinho de Lomba

Na adolescência, havia uma brincadeira que, para nós, valia mais do que qualquer esporte: construir carrinhos de lomba. O pátio de casa se transformava em uma verdadeira fábrica automobilística. Em meio à algazarra e marteladas, nasciam projetos audaciosos que ocupavam nossas tardes e alimentavam nossa imaginação. Entre nós havia os mais criativos, aqueles que pareciam enxergar além da madeira, dos pregos e dos “rolimãs”. Cada carrinho tinha personalidade própria, carregando a marca de quem o havia construído com as próprias mãos. Nosso almoxarifado era improvisado. Tábuas velhas, sobras de madeira, pregos tortos e as preciosas rolimãs eram tesouros disputados. Hoje, passados tantos anos, já não me recordo exatamente de onde vinham aqueles materiais. Talvez dos ferros-velhos da vizinhança ou de algum depósito de sucatas. O que lembro perfeitamente era da alegria de encontrar uma peça que faltava. A montagem era simples e rústica: uma tábua recortada em formato alongado, eixo traseiro...