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O Relógio

Sempre tivemos uma relação pouco amistosa, eu e ele. Na infância, era o encarregado de me arrancar da cama para a escola. Nos dias em que alguma moléstia infantil me derrubava, lá estava ele marcando com precisão o horário dos remédios — aqueles de sabor salobro que pareciam castigo.
Na adolescência, tivemos alguns momentos de trégua. Quando eu aguardava ansioso para encontrar a namoradinha, a pressa dos ponteiros finalmente jogava a meu favor. Mas, ao final das noitadas com amigos pelos bailes da vida, quando amanhecia, lá estava ele novamente, em parceria com minha mãe: “Menino, já é hora de acordar. Você não tem vergonha de dormir até essa hora?”
O tempo passou, e ele permaneceu. Registrou meu ingresso nos escritórios, definiu turnos, intervalos, almoços. Sempre ele, um perseguidor implacável do tempo. Hoje, quando a idade enfim me concedeu o justo descanso da aposentadoria, continua marcando — agora com velocidade galáctica — o momento da minha extinção. 
Mas, para não dizer que sou incoerente com essa máquina quase infernal de contagem da vida, reconheço que ele também intervém na Copa do Mundo: define tempos e intervalos, acrescenta descontos em jogos já jogados, faz de nós simples joguetes de seus caprichos. E, muitas vezes, comete injustiças, porque sempre queremos que o tempo termine no nosso tempo.
Ah, relógio… você não fica tonto de tanto rodar em volta de mim?
Tic, tac, tic, tac.

Comentários

  1. E depois que nossos filhos nascem é que o tic tac fica mais e mais rápido.

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