Há dias em que Porto Alegre
parece acordar mais leve — não por encanto, mas por ausência. Falta-lhe um
pedaço. Um silêncio estranho paira onde antes havia um casarão de janelas
altas, um sobrado de azulejos portugueses, um muro coberto de heras que testemunhou
risos, brigas, encontros e despedidas.
A cada demolição, a cidade emagrece, mas
não de forma saudável: perde massa histórica, perde identidade, perde alma.
O estrondo das máquinas não é
apenas ruído urbano; é uma espécie de luto metálico. O concreto que cai não é
só concreto — são lembranças que se pulverizam no ar, como se a poeira
carregasse consigo histórias que ninguém mais contará. E o pior é que tudo isso
acontece sob o olhar cúmplice de legislações tortuosas, pareceres obscuros,
autorizações que surgem como mágica, sempre a favor da pressa, nunca da
preservação.
A modernização, palavra tão
bonita quando usada com cuidado, aqui vira desculpa. Especulação imobiliária se
veste de progresso, mas seu perfume é o da pressa e do lucro. No lugar de um
casarão centenário, ergue-se um prédio de vidro que reflete o céu, mas não
reflete a cidade. Porque para refletir a cidade é preciso conhecê-la — e esses
novos gigantes não conhecem nada além de seus próprios andares.
Cada vez que vejo tombar um velho
casarão, dói. Dói como se arrancassem um fio da minha própria memória. Como se
um pedaço de mim fosse sendo apagado junto com aquelas paredes. A visão fica
borrada — não só pelos olhos marejados, mas porque o horizonte vai se tornando
indistinto, igual, repetitivo. Nada resta para as gerações futuras além de
fotografias amareladas, relatos dispersos e uma saudade que elas nem saberão de
onde vem.
A "Mui Valerosa Porto dos Casais",
que resistiu a enchentes, guerras, intempéries e descasos, agora sucumbe ao
inimigo mais sorrateiro: o esquecimento autorizado. E o esquecimento, quando
institucionalizado, é devastador.
Talvez, no futuro, quando tudo
for vidro, aço e concreto, alguém pergunte: “Como era antes?” E talvez a
resposta venha não de um livro, não de um prédio preservado, mas de uma
inteligência artificial tentando reconstruir digitalmente aquilo que deixamos destruir
fisicamente. Uma ironia amarga: depender de máquinas para lembrar aquilo que
máquinas ajudaram a apagar.
E eu, que caminho pelas ruas
tentando resgatar fragmentos do que já foi, sigo com a sensação de que cada
demolição é também uma amputação. A cidade perde a memória. E nós perdemos
junto com ela.
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