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O Xerife

 

Todo bairro tem suas lendas, mas poucas andam de bicicleta, carregam um apito e ostentam uma estrela no peito. No nosso pedaço de mundo, entre o cheiro de pitangueira e o vento frio vindo do Guaíba, reinava o “Xerife” — figura folclórica, meio guardião, meio artista, totalmente inesquecível.

Ele surgia sempre no silêncio da madrugada, quando até os vira-latas cochilavam e as janelas eram apenas sombras. A Monark dele, já cansada de guerra, rangia como se contasse histórias próprias. E antes mesmo de avistá-lo, vinha o aviso: o apito. Aquele silvo agudo, que atravessava a noite como um telegrama urgente: “Estou aqui.”

Para nós, moleques de calça curta, era música e susto ao mesmo tempo. A gente ria, claro — porque o Xerife, com seu quepe torto e o bigodinho à la Errol Flynn, parecia mais personagem de cinema do que autoridade. Mas também tremia um pouco, porque aquele uniforme de vigilante, com a estrela brilhando no peito, dava a ele um ar de policial de verdade. E policial, naquela época, era quase um mito.

O curioso é que, ao soprar o apito, ele entregava sua posição para qualquer mal-intencionado que estivesse rondando. A gente comentava isso entre risadas: 

— Mas bah, o Xerife avisa até fantasma. 

E talvez avisasse mesmo. Talvez fosse esse o acordo tácito entre ele e os “amigos do além”: ele soprava, eles respeitavam.

De dia, o Xerife trocava a ronda pela vida de bon vivant. Na sua pequena tenda às margens do Guaíba, vendendo refrigerante gelado, cerveja em garrafa e umas guloseimas que faziam a alegria da gurizada. Era ali que ele deixava o uniforme de lado e virava quase um filósofo do bairro, contando causos, rindo alto, ajeitando o bigode com vaidade de galã antigo.

Mas era à noite que ele se tornava lenda. 

A estrela no peito brilhava mais do que o poste da esquina. 

A Monark virava cavalo de patrulha. 

O apito, sua voz. 

E nós, seus eternos espectadores.

Hoje, quando o vento frio sopra do Guaíba e a cidade parece suspensa no tempo, ainda é possível imaginar o Xerife dobrando a esquina, apito na boca, bigodinho impecável, cumprindo sua ronda como quem cumpre destino. 

Porque certas figuras não pertencem só ao passado — pertencem à memória coletiva, ao folclore íntimo de cada bairro, ao coração de quem viveu para vê-las.

E o Xerife… ah, o Xerife sempre será uma dessas presenças que o tempo não leva.

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