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Crônica de Uma Mãe Invencível

 

Minha mãe era dessas mulheres que o tempo não apaga. Não porque fez barulho no mundo, mas porque fez silêncio — e dentro dele construiu vidas inteiras. A minha, sobretudo.

Foi ela quem me deu a vida e, depois disso, nunca mais descansou. Quando eu era pequeno, cuidava de mim como quem protege um tesouro raro. Quando cresci, continuou me protegendo, como se o mundo lá fora fosse grande demais para um filho só. E talvez fosse mesmo, mas com ela por perto tudo parecia caber na palma da mão.

Eu e meu irmão crescemos vendo aquela mulher transformar esforço em amor. As roupas lavadas no tanque de concreto, a água gelada cortando a pele nos invernos rigorosos, o sabão em barra deslizando firme entre os dedos. O ferro a carvão chiando, cuspindo calor, enquanto ela engomava camisas alvas para comissários e pilotos da Varig — um brilho de céu dentro da nossa casa simples. Havia também as fardas militares, os ternos alinhados dos diretores do Banco do Brasil. Cada peça que ela entregava parecia carregar um pouco da dignidade que ela cultivava como quem cultiva fé.

Era assim sua vida: dedicada, honesta, incansável. Um exemplo de caráter, retidão e coragem. E nós dois, eu e meu irmão, aprendíamos ali — sem discursos, sem lições formais — o valor da honestidade, da coragem e do trabalho. Aprendíamos observando. Aprendíamos vivendo ao lado dela.

Passou por maus bocados, enfrentou tempestades que teriam derrubado muita gente. Mas ela não. Ela se erguia, sempre. Às vezes com lágrimas, às vezes com silêncio, mas sempre com força. Uma força que vinha de dentro, de um lugar que só as mães conhecem.

E como cozinhava. Ah, seus quitutes. Os bolos recheados que perfumavam a casa inteira, os pastéis dourados, os croquetes que eram sua especialidade e que pareciam abraçar a gente por dentro. No meu aniversário — primeiro de janeiro, dia que já nasce em festa — ela sempre inventava algo especial. Era o jeito dela de dizer que o amor também se cozinha, se tempera, se serve quente.

Recordo tantas noites em que a via acordada, altas horas, empilhando peças sobre peças de roupas. O corpo cansado, mas o olhar firme. E nos dias de frio intenso, quando a água do tanque parecia gelo, lá estava ela, esfregando tecidos como quem luta contra o próprio inverno.

Minha mãe. Minha fortaleza. Minha saudade.

Hoje, quando penso nela, não lembro apenas do que fez, mas de quem foi. Uma mulher que transformou trabalho em dignidade, cansaço em cuidado, dificuldades em fé. Uma mulher que, sem pedir nada, deu tudo.

E eu, seu filho, sigo aqui — lembrando, honrando, sentindo falta. Sempre lembrarei de ti, mãe. Em cada cheiro de sabão, em cada camisa engomada, em cada bolo quente, em cada gesto de amor que aprendi contigo.

Porque algumas presenças continuam vivas mesmo quando já não estão. E a tua, mãe, é eterna.

 

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