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O Vendedor de Bilhetes

 Na frente do Mercado Público, entre o cheiro de peixe fresco e o barulho dos ônibus que nunca chegam no horário, ele está lá. Camisa surrada, boné desbotado, um maço de bilhetes na mão e esperança no bolso. É o vendedor de sorte - ou, como ele mesmo diz, "o distribuidor de sonhos". Seu nome é Afrânio, mas poucos perguntam. Para a maioria, é só "o cara da loteria". Está ali todos os dias, faça sol, faça chuva, faça greve. Com um sorriso que desafia estatísticas, oferece bilhetes como quem oferece milagres.

Vai que hoje é teu dia, chefe!- diz, com a convicção de quem já viu gente ganhar e desaparecer, e muito mais gente perder e continuar tentando.Afrânio conhece os fregueses pelo andar. Sabe quem joga por superstição, quem joga por desespero, quem joga por hábito. E sabe também quem só para pra conversar, porque às vezes o bilhete é só desculpa pra um papo rápido sobre futebol, política ou o preço do tomate.

Ele mesmo nunca ganhou. Diz que sorte não gosta de quem a vende. Mas não reclama. Gosta do movimento, da rua, do burburinho da cidade. Gosta de ver os olhos brilharem quando alguém compra o bilhete "certo". Gosta de imaginar que, por um instante, ele foi o mensageiro da virada.

Entre um cliente e outro, Afrânio observa Porto Alegre como quem lê um livro antigo. Vê os prédios envelhecendo, os rostos mudando, os sonhos se repetindo. E ali, no meio do caos urbano, ele segue distribuindo possibilidades- mesmo que a maioria expire sem aviso.

Porque há quem venda produtos, e há quem venda promessas. E Afrânio, o vendedor de bilhetes, é desses que vendem o que ninguém pode garantir, mas todo mundo quer: uma chance.

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