Os pardais da goiabeira são meus
vizinhos mais barulhentos. Todo amanhecer eles me acordam com um alarido que
mistura sinfonia e tumulto, como se a cidade inteira tivesse decidido ensaiar
no meu quintal. Vêm dos becos, das marquises, dos fios elétricos que cruzam o
céu em linhas tortas. Trazem no corpo pardo e ocre a paleta discreta das
fachadas antigas, como se fossem parte da arquitetura.
A goiabeira, teimosa sobrevivente
entre muros e concreto, os recebe como plateia fiel. Já me acostumei a esse
ritual. Eles marcam o compasso do meu dia com mais precisão que qualquer
despertador. Quando o sol atravessa as frestas da janela, eles já estão lá,
riscados no ar como grafites vivos, sobrevoando o quintal em trajetórias
improvisadas.
No chão, espalham-se como
pequenos pontos móveis, sementes inquietas sobre o gramado que resiste ao
avanço do cimento. Ocupam cada palmo de terreno, como se reivindicassem o
direito de existir naquele pedaço de terra.
E quando os vejo assim — frágeis,
insistentes, contracenando com o horizonte recortado por prédios, com o
concreto que tenta engolir tudo, com a goiabeira que insiste em ficar — percebo
que ainda sou sensível. Que ainda acredito no amor, mesmo cercado por buzinas,
ruídos e pressa.
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