Horas antes, ela havia chegado
mais cedo ao apartamento. Carregava uma tristeza profunda, dessas que não têm
nome nem motivo. Ligou a vitrola e aproximou a agulha do vinil gasto; o chiado
abriu espaço para a voz melancólica de Sinatra em “Strangers in the Night”.
Sobre a estante, um copo de uísque a esperava. Sorveu-o de um gole só, como
quem tenta calar um pensamento.
Então, o toque rouco da campainha
cortou o silêncio: trim-trim...
Ela ainda estava na banheira
quando ouviu o som. A água quente envolvia seu corpo nu, e a penumbra projetada
pela cortina desenhava sua silhueta como um traço frágil. A agulha da vitrola
feria o disco como unhas arranhando pele. Um arrepio percorreu sua espinha. Não
era frio. Não era prazer. Era algo que ela não soube nomear. Um espasmo,
talvez. Um pressentimento.
Ergueu-se abruptamente, a água
escorrendo como um véu rompido. Desceu as escadas com pressa, o coração batendo
fora do compasso. Parou no último degrau. Respirou fundo, mais fundo do que
jamais lembrava ter respirado.
A música na vitrola terminou.
Agora, porém, a vitrola — sozinha
— voltou a tocar. A agulha se moveu sem que ninguém a tocasse. E Sinatra, como
se zombasse da situação, sussurrou:
Strangers in the night…
Foi nesse instante que ela
compreendeu: quem estava do lado de fora não era o problema.
O problema já estava lá dentro.
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