Ele havia sido demitido da
gráfica: trabalhos rareando, funcionários demais, futuro nenhum. Juntou seus
pertences — uma régua, lápis, papéis e um livro de Camões com folhas soltas —,
objetos que guardava na gaveta da escrivaninha. Despediu-se dos colegas e
enfrentou a tarde cinza da cidadezinha do interior.
Ao dobrar a esquina, deu de
frente com a placa luminosa da cafeteria. Entrou pela porta giratória e
sentou-se à mesa de tampo de mármore. A garçonete loira de sempre anotou o
pedido: um expresso, um copo d’água e um pastel frio da manhã. Comeu como quem
encerra um capítulo. Do bolso puído da calça de brim retirou uma nota amassada,
pagou a conta, respirou fundo e partiu sem rumo.
Restava-lhe apenas a incerteza.
Sem trabalho, sem amores, sem fé — caminhou até a pequena ponte que ligava a
cidade ao nada. Parou no meio, suspirou.
Ao erguer o olhar, viu uma menina
tentando salvar um barquinho de papel levado pela correnteza. Ele se aproximou
e, num gesto rápido, resgatou o barco. A menina sorriu como se ele tivesse
feito muito mais. “Obrigada, moço”, disse, e saiu correndo com o barco nas
mãos.
Ele ficou parado, observando a
cena. Era tão simples, — mas havia ali uma espécie de lembrança de que a vida
não se resume ao que nos tiram. Às vezes, é o que ainda podemos devolver...
“Tudo é possível, quando o impossível acontece”, murmurou, sem saber de onde
vinha a frase. Talvez do livro, talvez de si mesmo.
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