A pressa sempre foi uma velha conhecida nossa. Na juventude, ela nos
empurra pelas ruas como um vento impaciente, dizendo que o mundo é logo ali e
que tudo precisa ser vivido antes que o sol se ponha. E nós acreditamos.
Corremos. Pulamos fogueiras. Cantamos alto nas noites frias de São João, quando
o “Padroeiro das Festas Juninas” parece sorrir para cada balão que sobe,
teimoso, rumo ao céu.
Naquele tempo, a vida tinha cheiro de pinhão assado e quentão
fumegante. A fogueira ardia como se fosse eterna, e nós também achávamos que
éramos. As cantigas ecoavam sem pudor — “cai, cai balão, cai, cai balão aqui na
minha mão” — e tudo parecia possível, até pisar em madeiras em brasas. A
alegria era simples, imediata, quase infantil.
Mas o universo, esse velho relojoeiro, não para. E nós, que antes
corríamos, começamos a caminhar. Depois, a andar devagar. E um dia percebemos
que a pressa mudou de lado: já não é ela que nos empurra; somos nós que
tentamos segurá-la pelo braço, pedindo que fique mais um pouco.
Os anos passam — silenciosos, mas certeiros — e aquela chama da
mocidade vira brasa mansa. As festas continuam, claro, mas o entusiasmo se
acomoda, como quem se senta na cadeira de balanço para ver o desfile da vida
passar. E então, sem perceber, mudamos até as cantigas.
Nas noites juninas, já não pedimos que o balão caia na nossa mão. Agora
rimos, meio nostálgicos, meio resignados, quando ecoa a estrofe que parece
brincar com o tempo: “a pipa do vovô não sobe mais”.
E não é que sobe menos — é que já não há tanta pressa para fazê-la
subir. A gente aprende que o céu continua lá, generoso, mesmo quando não o
alcançamos.
Pura ironia, mas é assim que acontece.
Hoje, já participante ativo do bloco da saudade, tento atravessar uma
avenida do meu bairro, e lá se vão minutos sem fim. A pressa dos motoristas
supera a velocidade da minha visão. Todos, sem exceção, estamos escravizados
pelo rodar sem fim dos ponteiros do relógio — somos escravos da engenharia —
nossa pressa está associada ao visor que anuncia, segundo a segundo, o tempo da
nossa extinção.
E então, quase conspirando contra o cosmos, digo bem baixinho, para que
o tempo não escute:
“Não tenha pressa não.”
Porque, no fundo, envelhecer é isso: descobrir que a vida não precisa
correr para ser grande. Que a fogueira continua acesa, mesmo que a chama seja
outra. E que, às vezes, o maior gesto de sabedoria é simplesmente desacelerar —
e deixar o universo passar devagarinho.
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