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Buracos no Caminho

Já subi a encosta do Vesúvio, sentindo sob os pés o silêncio quente de um vulcão que ainda respira. Pisei nas alamedas de Pompéia, onde o tempo se petrificou em cinzas e memórias. Desbravei as encostas da ilha de Capri, deixando que as águas do Mediterrâneo molhassem minha pele como quem batiza um viajante para novas jornadas.

Do Atol das Rocas ao ponto mais setentrional do continente europeu, atravessei latitudes como quem coleciona horizontes. Observei o Atlântico com a visão de um desbravador desde a torre de Belém, imaginando caravelas rasgando mares desconhecidos.

No Coliseu senti a energia dos gladiadores ecoando pelas pedras, e quase ouvi a agitação na Tribuna de Júlio César. Caminhei pelas ruínas do Fórum Romano, onde imperadores conduziam os destinos de Roma com gestos que ainda parecem vibrar no ar. Nos labirintos subterrâneos da cidade, percorri caminhos tocados por Da Vinci e Michelangelo, mestres que moldaram o Renascimento com mãos que pareciam conversar com a luz.

Senti de perto o poderio da Igreja Católica, seus altares dourados, seus corredores solenes, e a sombra da Inquisição, que ainda paira como um aviso sobre o que o poder pode fazer quando se esquece da humanidade.

E apesar de tudo isso — vulcões, mares, impérios, catedrais — ainda me surpreendo com os buracos no caminho. Não os das estradas, mas os que se abrem dentro de nós: aqueles que nos fazem parar, repensar, tropeçar, recomeçar. Buracos que não se evitam; atravessam-se. Porque são eles que lembram que, mesmo depois de tanto mundo, ainda há muito de nós a descobrir.

Mas basta voltar para casa para perceber que os buracos que realmente me desafiam não estão nas encostas de vulcões adormecidos, nem nos labirintos subterrâneos de Roma. Estão aqui, nas ruas esburacadas das cidades modernas — crateras que não guardam memórias, apenas o rastro do descaso. Não contam histórias de impérios, não revelam civilizações soterradas; apenas denunciam a pressa de quem constrói e o esquecimento de quem deveria cuidar.

Se em Pompéia o chão preserva séculos, aqui ele mal resiste a uma estação de chuva. Cada buraco é um lembrete de que o tempo passa, mas a negligência permanece. E, ironicamente, é nesses caminhos tortos que tropeçamos mais do que nas trilhas de Capri ou nas ladeiras de Lisboa.

E como se não bastassem os buracos físicos, há também os outros — invisíveis, mas igualmente profundos. Os cobradores de impostos de Vila Rica, que um dia batiam às portas com livros de couro e penas de escrever, agora retornam em versão futurista. Não usam botas de couro nem chapéus tricórnios; chegam por notificações no celular, e-mails automáticos, mensagens que piscam na tela com a frieza de um algoritmo.

O erário continua o mesmo personagem voraz de sempre, ávido em arrecadar, incansável em lembrar que a dívida nunca dorme. Antes vinham a cavalo; agora chegam pela fibra óptica. A eficiência aumentou, mas a sensação é a mesma: a de que o Estado sempre encontra o caminho até nós, mesmo quando as ruas estão intransitáveis.

E assim sigo, entre ruínas gloriosas e calçadas remendadas, entre memórias que resistem há milênios e asfaltos que não resistem a um verão. Talvez seja essa a ironia dos nossos tempos: viajamos o mundo para tocar a história, mas tropeçamos no presente todos os dias.

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