Pular para o conteúdo principal

Espumas ao Vento

 

Confesso que, mesmo vivendo em plena era das fibras ópticas supersônicas — onde a informação atravessa continentes antes mesmo de eu terminar um gole de café — ainda me surpreendo com a capacidade humana de transformar qualquer coisa em assunto do momento. A modernidade me deixa atônito, mas nada, absolutamente nada, me preparou para ver um detergente assumir o papel de celebridade global.

Enquanto engenheiros enviam sondas para Marte e médicos imprimem órgãos em 3D, nós estamos aqui, firmes e fortes, debatendo apaixonadamente sobre um frasco de sabão. A humanidade realmente sabe priorizar.

É claro que existem órgãos fiscalizadores. Eles testam, analisam, certificam. Fazem o trabalho sério. Mas a internet? Ah, essa não precisa de laboratório. Basta um vídeo tremido, uma legenda dramática e pronto: nasce a nova verdade absoluta. O detergente, que só queria lavar um prato em paz, agora precisa se defender de acusações dignas de tribunal internacional.

E o mais fascinante é a criatividade coletiva. De repente, o produto que sempre serviu para tirar gordura virou vilão, herói, arma química, símbolo político. A situação é tão absurda que chega a ser terapêutica. Lava a alma perceber que, no grande circo digital, qualquer coisa pode virar polêmica — até algo criado para limpar sujeira. E, ironicamente, quanto mais espuma o assunto faz, menos clareza as pessoas têm.

No fim, o detergente sai dessa história como o personagem mais inocente. 
Porque, convenhamos, se tem alguém realmente limpinho nessa confusão toda… é ele.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Perdão. Peço desculpa, eu errei

  Pedir desculpa sempre me soou como aquele momento em que precisamos admitir que colocamos sal demais na comida: ninguém quer confessar, mas todo mundo percebeu. Em debates acalorados, então, a dificuldade dobra. A gente entra cheio de certezas, argumentos afiados e aquela convicção quase teatral… até perceber que exagerou na dose.   Errar faz parte — é quase um item obrigatório do pacote “ser humano”. O problema é que, quando estamos defendendo nosso ponto de vista com entusiasmo demais, qualquer detalhe vira motivo para levantar a voz, esticar a frase e criar uma divergência que, no fundo, não precisava existir. Depois, olhando com calma, percebemos que algumas palavras saíram tortas, outras vieram fortes demais, e a intenção se perdeu no caminho.   É aí que entra o gesto que quero destacar: o simples, porém poderoso, ato de pedir perdão. Não aquele pedido automático, dito só para encerrar o assunto, mas o sincero, que reconhece que nossas interpretações foram exagera...

São Jorge: guardião das batalhas que nunca cessam

    Desde menino, antes mesmo de entender o peso das palavras ou o sentido das crenças, eu já convivia com a figura imponente de um cavaleiro que parecia vigiar a casa inteira. São Jorge — montado em seu cavalo branco, lança firme, dragão aos pés — era mais do que um santo. Era um guardião silencioso, desses que não precisam falar para que a gente sinta a presença. Na parede da sala, pendurado um pouco torto, vivia um quadro já desbotado pelo tempo. Minha mãe o tratava como relíquia. Ao lado dele, sempre repousava uma palma benta do Domingo de Ramos, guardada com o mesmo cuidado com que se protege um segredo antigo. Ela dizia que aquilo afastava maus olhados, invejas, sombras que às vezes rondam a vida da gente sem pedir licença. E quando o céu escurecia de repente, quando trovões rasgavam o silêncio e os relâmpagos iluminavam nossa casa humilde, lá ia minha mãe — firme, devota, corajosa — fazer sua prece ao guerreiro. Era bonito de ver: enquanto o mundo lá fora parecia ...

O Relógio

Sempre tivemos uma relação pouco amistosa, eu e ele.  Na infância, era o encarregado de me arrancar da cama para a escola. Nos dias em que alguma moléstia infantil me derrubava, lá estava ele marcando com precisão o horário dos remédios — aqueles de sabor salobro que pareciam castigo. Na adolescência, tivemos alguns momentos de trégua. Quando eu aguardava ansioso para encontrar a namoradinha, a pressa dos ponteiros finalmente jogava a meu favor. Mas, ao final das noitadas com amigos pelos bailes da vida, quando amanhecia, lá estava ele novamente, em parceria com minha mãe:  “Menino, já é hora de acordar. Você não tem vergonha de dormir até essa hora?” O tempo passou, e ele permaneceu. Registrou meu ingresso nos escritórios, definiu turnos, intervalos, almoços. Sempre ele, um perseguidor implacável do tempo.  Hoje, quando a idade enfim me concedeu o justo descanso da aposentadoria, continua marcando — agora com velocidade galáctica — o momento da minha extinção.  Mas,...