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Já Não Somos Mais os Garotos Que Amavam os Beatles e os Rolling Stones

 

Há dias em que a memória me pega pelo braço, como um velho amigo insistindo para revisitar histórias que o tempo tentou guardar em silêncio. Basta abrir a caixa de papelão no alto do armário — aquela mesma que já mudou de casa mais vezes do que eu gostaria de admitir — e lá estão eles: meus discos de vinil, sobreviventes de tantas mudanças e fases da vida.

As capas, desbotadas como fotografias esquecidas, ainda carregam o cheiro de tardes mormacentas no bairro Ipanema. Era ali, entre ruas tranquilas e sonhos barulhentos, que a vida parecia sempre prestes a começar. Os bailes de garagem, improvisados com caixas de som que chiavam mais do que tocavam, eram o nosso passaporte para um mundo onde tudo era possível. A soda gelada, a Cuba Libre mal feita — mais rum do que cola, mais ousadia do que técnica — era o nosso batismo.

Bebíamos fazendo careta, fingindo que entendíamos de drinques, quando na verdade só queríamos sentir que estávamos crescendo. Era o gosto da liberdade improvisada, da coragem adolescente servida em copos de vidro arranhados, a calça boca de sino que insistia em arrastar no chão — tudo isso compunha o cenário perfeito para a trilha sonora que vinha da vitrola: um "iê-iê-iê" vibrante, quase insolente, que nos fazia acreditar que a juventude era eterna.

E no centro de tudo, como personagens principais de um filme que nunca gravamos, estavam elas: as meninas do sonho. As que nos tiravam o sono, nos davam o primeiro beijo, nos ensinavam que o coração podia ser ao mesmo tempo leve e desajeitado. Aquelas que, sem saber, moldaram nossas primeiras certezas e nossas primeiras dúvidas.

Naquele tempo, a felicidade tinha um jeito simples. Não havia maldade, apenas uma pitada de malícia inocente, quase pueril. A gente acreditava que Bob Dylan tinha respostas para tudo, que Janis Joplin cantava direto para nós, que Hendrix era um semideus elétrico. E, claro, que os Beatles e os Rolling Stones eram mais do que bandas — eram bússolas apontando para um futuro que imaginávamos brilhante, infinito, nosso.

Hoje, ao segurar esses discos, percebo que já não somos mais aqueles garotos. O mundo mudou, nós mudamos, e a vida tratou de nos ensinar que nem toda estrada é reta, nem todo refrão se repete. Mas, curiosamente, ao colocar a agulha sobre o vinil e ouvir o primeiro estalo, algo dentro de mim se ajeita. Como se, por alguns minutos, eu pudesse voltar a ser aquele jovem que acreditava que a música podia salvar tudo.

Talvez seja isso que a nostalgia faz: não nos devolve o passado, mas nos lembra que ele existiu — e que, de algum modo, continua vivo em nós.

E, no fundo, ainda bem. Porque, mesmo que “já não sejamos mais os garotos que amavam os Beatles e os Rolling Stones”, continuamos sendo os homens que aprenderam a sentir o mundo através dessas canções.

E isso, ah, isso o tempo não desbota.

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