Em tempos de Copa do Mundo, é normal falarmos de álbum
de figurinhas. Eu mesmo financiava minha coleção com um esquema altamente
sofisticado: os tostões “esquecidos” nos bolsos do paletó do meu pai ou no
cofrinho de barro — aquele do porquinho gorducho que minha mãe guardava. Era
tipo banco estatal: difícil de abrir, mas, quando abria, vinha verba. Eram
tempos difíceis, e o único alimento possível era o pão nosso de cada dia.
Lembro bem: os farelos espalhados sobre a mesa
confundiam-se com os cromos coloridos. O mundo inteiro cabia naquele retângulo
de madeira — continentes, estádios, heróis, sonhos. E eu, menino, acreditava
que podia viajar sem sair de casa; bastava completar mais uma página do álbum.
Havia álbuns de tudo: Tarzan pendurado em cipós, Jane
com cara de quem já sabia que o Tarzan não ia dar futuro, e a Chita olhando de
lado, tipo sogra desconfiada. As figurinhas vinham grudadas em balas
carameladas, adoçando a infância com açúcar e aventura. Mas nenhum deles me
fazia viajar tanto quanto os álbuns da Copa. Ali, sim, moravam os deuses: Pelé,
Garrincha, Didi, Eusébio, Bobby Charlton, Beckenbauer, Yashin, Di Stéfano…
nomes que soavam como constelações, cada um brilhando com luz própria.
Abrir um envelope era quase um ritual. O coração batia
mais rápido, os olhos brilhavam antes mesmo de ver o que vinha. E, quando
surgia um craque raro — um desses que ninguém da rua tinha —, o sorriso tentava
se esconder, mas escapava pelo canto da boca. Era êxtase puro, desses que só a
infância sabe produzir.
Lá em casa, tínhamos dois álbuns: o meu e o do meu
irmão. Ele, por ser o mais novo, ganhava certas regalias, mas, no fim,
prevalecia a lei silenciosa do primogênito. As figurinhas duplas — aquelas sem
muito prestígio, quase várzea — iam para ele. As joias, claro, ficavam comigo.
Justiça da época, digamos assim.
O futebol também era outro. Publicidade não invadia
cuecas nem painéis eletrônicos. Era outdoor simples, em volta do
alambrado, dividindo o campo dos mestres da bola da vida real. E como era
bonito aquele mundo sem pressa, sem brilho artificial, sem algoritmos decidindo
o que a gente devia gostar.
Hoje, tudo é adesivo, dourado, reluzente. Mas nenhuma
tecnologia do mundo substitui o instante em que a gente soprava a figurinha
para secar a cola, como quem sopra vida. Nenhum design moderno supera o brilho
nos olhos de uma criança que acredita que completou o time perfeito.
O meu álbum se perdeu no tempo — talvez numa mudança,
talvez numa gaveta esquecida, talvez tenha sido levado pelo vento da vida. Mas
a verdade é que ele nunca me deixou. Ficou aqui, no peito, colado com a
saudade, como as figurinhas que eu grudava com a pasta branca feita no fogão a
lenha. Farinha, água e paciência. Firme. Irremovível.
E, quando a Copa chega, quando o hino toca, quando a
bola rola, sinto de novo aquele menino dentro de mim, com os pés balançando na
cadeira da cozinha, esperando o próximo envelope.
E lá no fundo — bem no fundo — ainda escuto o mesmo grito que
atravessou gerações:
É goooool do Brasil!!!
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