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O Bobo da Corte e a Inquisição dos Preços


A vida me ensinou muitas coisas, mas nenhuma tão intrigante quanto uma interrogação. Sim, uma simples interrogação — esse gancho torto que, ao invés de puxar respostas, puxa metade da minha capacidade de entender o mundo. Parece exagero, mas não é. Eu realmente travo. Principalmente quando o assunto envolve… combustível.
Porque lá estou eu, inocente, diante da bomba — não há que explode, a outra, a que suga a alma e o salário — e leio em letras garrafais: GASOLINA. Só gasolina. Simples. Direta. Objetiva. Só que não.
A tal gasolina, descubro eu, é um fóssil. Não no sentido de ultrapassada, mas no sentido literal: restos de dinossauros, samambaias jurássicas e sei lá mais o quê. Até aí tudo bem. O problema é quando vem a Gasolina Comum, que de comum não tem nada. Tem 27% de álcool anidro, um toque de enxofre, e provavelmente um pouco de lágrimas de consumidores, mas isso a lei não exige declarar.
E as outras variações? Ah, essas são um carnaval químico. Cada uma com seu tempero, seu aroma, sua personalidade. Só falta lançarem a “Gasolina Gourmet”, com notas amadeiradas e final levemente cítrico.
Mas respira, porque o show não acaba na bomba.
As indústrias alimentícias, gênias da criatividade, inventaram um truque digno de mágico de Las Vegas: a redução invisível. Antes você comprava 1 kg de produto. Agora compra 750g. O preço? O mesmo. A embalagem? A mesma. A cara de pau? Aumentou.
É como se o pacote dissesse:— Reduzi, mas você finge que não viu, tá?
E eu, pobre mortal, fico ali tentando entender se o preço subiu, se o peso caiu ou se minha visão foi sabotada pela IA. No fim, descubro que não importa: quem cai, sou eu mesmo.
E assim sigo, nesse universo perverso onde cada compra é uma prova da inquisição econômica. Ou aceito que está tudo certo, ou sinto as rudezas no holerite — ou contracheque, para quem gosta de sofrer com mais sílabas.
E lá vou eu, mês após mês, sendo queimado na fogueira do consumo, enquanto o mercado me olha de cima e diz:
— Próximo.
Sou o verdadeiro bobo da Corte, reclama, não entende, mas continua indo ao mercado e ao posto como quem vai a um casamento do qual não pode fugir.
E sigo, com minha interrogação eterna, tentando decifrar o mundo — enquanto o mundo me decifra no cartão de crédito. 

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