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O Figurino da Mentira Veste Roupa de Verdade

Outro dia me peguei pensando que a mentira anda mais arrumada do que muita gente por aí. Sai de casa perfumada, alinhada, com aquele ar de quem sabe exatamente para onde vai. E nós, distraídos, seguimos rolando a tela como quem passeia pela vitrine de um shopping: olhando tudo, absorvendo nada.

A informação, que já foi artigo de luxo, virou poeira fina. Está em todo lugar, entra pelos olhos, pelos ouvidos, pelos cantos da casa. A gente respira notícia como quem respira ar poluído: sem perceber o que está entrando, só sentindo o peso depois. E no meio dessa névoa, surgem as frases motivacionais — essas pequenas almofadas de conforto que as redes sociais insistem em jogar no nosso colo. “Você é capaz”, “Acredite nos seus sonhos”, “Tudo acontece por um motivo”. A gente lê, dá um like automático e segue adiante, como quem passa por um outdoor repetido na estrada. Já nem repara.

As notícias, então, parecem sombras de si mesmas. Surgem por toda parte com a mesma cara, mudando apenas o disfarce. Basta um título mais chamativo ou uma vírgula fora do lugar para criar a sensação de novidade. No fim, porém, é o mesmo fato repetido e requentado, como se a repetição fosse sinônimo de relevância.

E é nesse cenário que a mentira encontrou seu palco. Não entra mais pela porta dos fundos, tímida. Agora desfila. Ganhou nome bonito: “narrativa alternativa”, “versão não confirmada”, “outra perspectiva”. É quase elegante. E o mais curioso é que arruma defensores fervorosos, gente que a abraça como quem encontra uma velha amiga. Afinal, a mentira tem uma qualidade sedutora: ela se molda ao que queremos ouvir.

A verdade, coitada, virou uma senhora inconveniente. Fala alto, exige atenção, pede que a gente pense — e pensar, hoje em dia, parece esforço demais. Muita gente prefere a mentira confortável, aquela que encaixa direitinho nas crenças já instaladas, que alimenta medos antigos, que dá razão às indignações de estimação.

No fim das contas, talvez o que esteja faltando seja justamente o intervalo. A pausa entre um scroll e outro. O silêncio onde a dúvida pode respirar. Porque, em tempos de excesso, pensar virou quase um ato de rebeldia. E duvidar, então, é quase revolucionário.

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