Toda cidade pequena tem uma casa que ninguém jura ter medo, mas também
ninguém entra depois do pôr do sol. Aqui, é a mansão da rua da ladeira. Um
casarão antigo, de madeira escura, que parece ter sido construído não para
abrigar gente, mas para guardar segredos. E guarda bem. À noite, os corredores
estalam como quem respira, as janelas observam sem pudor, e o silêncio… o
silêncio nunca é completo.
Os mais velhos contam que ali viveu um barão — severo, porém “justo”,
como gostam de dizer, talvez para aliviar a própria consciência. A esposa dele,
delicada, criou três filhos com esmero: duas moças de modos finos e um rapaz
que falava baixo e andava sempre alinhado. Mas, veja bem, a história que corre
por aqui não é sobre eles. Nem sobre os escravizados que trabalharam, sofreram
e sobreviveram naquele chão. É sobre outra presença. Uma que não aparece em
livro de história.
Dizem que, de tempos em tempos, algo sumia na casa. Nada valioso:
comida, ferramentas, pequenos objetos. E, como era costume, a culpa caía sempre
sobre quem não podia se defender. A punição vinha em silêncio — menos comida,
mais desconfiança. Só que ninguém confessava. E as noites… ah, as noites eram
cheias de ruídos que ninguém sabia explicar. Passos leves, arranhões no forro,
sussurros que pareciam vir de dentro das paredes.
Até que, num dia comum, desses que começam sem pressa e terminam com
uma história que vira lenda, o feitor resolveu investigar. Desceu ao porão com
uma lamparina trêmula, o ar pesado de mofo e farinha. Ouviu um ruído. Depois
outro. E mais outro. Foi seguindo, devagar, como quem tenta não acordar o
próprio medo.
E então viu.
As sombras se mexiam sozinhas. No canto, sobre um saco de batatas,
havia uma figura pálida, quase transparente, sentada como quem descansa depois
de um longo dia. Não tinha rosto, só a sugestão de olhos fundos. Nas mãos — se
eram mãos — segurava algo que desaparecia aos poucos, como se fosse devorado
pelo ar.
A aparição levantou-se devagar. E, num sopro gelado, murmurou algo que
o feitor jurou ter entendido como um “boa noite”.
A lamparina caiu. A chama morreu. Quando ele piscou, a figura já não
estava lá. Só o eco de passos que não deixavam marcas.
Depois disso, ninguém mais ousou culpar os escravizados. A história
correu pela casa, pela rua, pela cidade. Cada um acrescentou um detalhe, como
sempre acontece. No fim, ficou assim: dizem que era um fantasma.
Dizem.
Mas até hoje, quando a casa fica silenciosa demais, alguns juram ouvir
alguém caminhando no porão — alguém que não deveria estar ali. E ninguém sabe
ao certo se ele algum dia foi embora.
Há quem diga que é o barão. Outros preferem nem comentar. Eu,
sinceramente, só passo pela rua da ladeira de dia. E mesmo assim, sem olhar
muito para as janelas.
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