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O Merecimento


Dia destes, sentado numa roda de velhos amigos — daqueles que atravessaram conosco as décadas desde os anos 60 — surgiu, sem aviso, um tema que sempre volta quando a vida resolve nos cutucar: “o merecimento”. 

Entre lembranças de juventude, risadas gastas pelo tempo e algumas dores que insistem em acompanhar a idade, alguém comentou sobre pessoas que parecem receber de volta exatamente aquilo que plantam, enquanto outras enfrentam injustiças, dores e provações que ninguém ousaria desejar. 

Foi então que um dos presentes, espírita convicto, homem de bem e de vasto conhecimento da doutrina — embora a natureza não lhe tenha poupado de sofrimentos físicos — ergueu a voz com a serenidade de quem já conversou muito com a própria alma: 

— Isso é merecimento.

Disse assim, seco e firme, como quem enuncia uma lei da natureza. E começou a discorrer sobre suas próprias mazelas, comparando-as às dádivas que outros recebem. Para ele, tudo se encaixava numa lógica invisível, mas justa: cada um colhe exatamente aquilo que precisa colher. 

A roda se animou. Vieram histórias de outros amigos, alguns com vidas tão complicadas que dariam livros inteiros. E, no entanto, ali estavam: resilientes, sem amargura, sem revolta, enfrentando suas provações com uma dignidade que, por si só, já parecia uma recompensa. Em certos momentos, a vida lhes devolvia pequenas alegrias — talvez para lembrar que ninguém é esquecido. 

O debate se aprofundou. Entre um gole de café e outro de silêncio, chegamos a um consenso quase natural: merecimento não é prêmio, nem castigo. É consequência. 

O espiritismo, em sua essência, define assim: “o merecimento é a construção progressiva do espírito através de ações, intenções e aprendizados ao longo de múltiplas existências.” Não se trata de uma medalha entregue ao final da prova, mas da própria prova moldando quem somos. 

E naquela roda de amigos antigos, cada um com suas cicatrizes e suas pequenas vitórias, percebemos que o merecimento talvez seja isso: a matemática moral da vida, que não falha, mas também não tem pressa. 

No fim, ficamos todos em silêncio por alguns instantes. Não por falta de assunto, mas porque certas verdades, quando ditas, pedem respeito. 

E ali, entre velhos companheiros, compreendemos que o merecimento não está no que recebemos, mas no que nos tornamos. 

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