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Sete Décadas e Um Oceano

Setenta anos. A vida, com seu enredo imprevisível, desenhou caminhos inesperados, mas o desejo permaneceu intacto — como uma carta guardada com carinho, à espera do momento certo para ser aberta. O sonho de pisar em solo europeu nunca se desfez; apenas amadureceu, como um vinho bem envelhecido. E, quando finalmente chegou o dia, tudo se transformou em expectativa.

Portugal era o destino. A terra de Camões, de Fernando Pessoa, dos navegadores que partiram em caravelas e cruzaram mares nunca antes navegados — ao menos por olhos europeus. Há quem diga que descobriram terras novas, mas, se já havia quem as habitasse, então talvez o verbo correto fosse “encontrar”. Mas essa história fica para outro momento. Hoje, a viagem começa com outro tipo de descoberta: a pessoal.

O avião decolou, cortando o oceano com sua precisão calculada. Pela janela, o Atlântico se estendia infinito, um mistério líquido que separava meu passado do meu futuro. Atravessar aquele mar era mais do que uma travessia geográfica; era cruzar décadas de espera, de imaginação, de pequenas construções mentais sobre como seria finalmente estar do outro lado.

Minha chegada foi por Lisboa, mas mal toquei o chão e já segui para Porto, onde passaria os primeiros dias. Lá, entre ruas de pedras, margens do Douro e fachadas coloridas, senti a alma portuguesa pulsar a cada esquina. Porto me recebeu com sua brisa e sua história, e foi ali que meus primeiros passos europeus se firmaram.

O Tejo ficaria para depois. Por ora, eram os barcos rabelos deslizando sobre o rio, os aromas de café e vinho do Porto, os sons dos passos nas vielas estreitas, enquanto um fado distante — quase um sussurro antigo — parecia erguer-se do próprio coração da cidade, — tudo compondo o cenário da minha estreia em Portugal.

E não havia dúvida: minha jornada começara pelo lugar certo. Após setenta anos de espera, a terra dos navegadores agora era também minha terra, minha história, minha primeira grande travessia.

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