Minha jornada pelo território
portenho parecia simples no mapa, mas tinha a precisão de uma operação militar.
Entramos pela velha Uruguaiana, terra da Califórnia da Canção, e seguimos rumo
a Paso de Los Libres — onde a normalidade, aquela que sempre engana
viajante experiente, resolveu acabar.
As histórias sobre o trajeto até
Buenos Aires variavam entre verdade, exagero e pura superstição de fronteira.
Mas quem carrega o espírito do pampa não teme o desconhecido; apenas o
respeita. E assim seguimos, até sermos parados na aduana por uma figura sisuda,
bigode de décadas e postura de decreto oficial. Entre nós, ganhou imediatamente
o apelido inevitável: Sargento García.
"La documentación del vehículo, matafuego, botiquín
de primeros auxílios e control en el baúl, por favor.” Foi aí que a comédia
começou: ao abrir o porta‑malas, surgiu um paredão de malas que desanimaria qualquer fiscal motivado. García franziu o cenho — não por suspeita, mas por preguiça.
Consultou “su capitón”, voltou com o chefe e, após uma conversa em que pude exibir meu espanhol de sobrevivência, fomos liberados com a recomendação de
comprar os itens “cuando posible”.
Tudo resolvido… até que o
sargento, o Garcia agora em modo confidencial, pediu uma “colaboración para
el almuerzo”. Na dúvida entre negar ou cooperar, entregamos uma nota de 100
pesos — gloriosos R$ 2,00 aproximados na cotação local. Ele recebeu como se
fosse uma medalha; nós arrancamos como quem foge de cena comprometedora.
E assim seguimos, entre causos,
risadas e pequenas diplomacias de fronteira, adentrando a Argentina — terra de
paixões, batalhas e discussões eternas. Inclusive aquela que sempre volta, cedo
ou tarde:
Maradona ou Pelé?
A resposta, como sempre, depende
menos do gramado e mais do coração de quem responde.
O resto… já é outra história.
Comentários
Postar um comentário
Agradeço sinceramente pela sua leitura e pela presença neste espaço. Sua participação enriquece o diálogo e contribui para a construção de reflexões mais amplas. Seja sempre bem-vindo.