A cada quatro anos, o Brasil parece acordar de um torpor coletivo apenas para mergulhar em outro: o da Copa do Mundo. É como se o país, tão acostumado às suas próprias crises, encontrasse no futebol uma espécie de anestesia social. De repente, tudo respira bola. Nos bares do centro, nos botecos escondidos nas vilas, nos salões climatizados dos hotéis cinco estrelas da orla de Copacabana — o idioma é um só, e a gramática é a da paixão.
A velha expressão “pátria de
chuteiras” volta a fazer sentido, mesmo que o país já não seja o mesmo, e o
futebol tampouco. A sociedade evolui, transforma-se, e o esporte acompanha — às
vezes tropeçando, às vezes correndo atrás do próprio rabo. O que não muda é a
expectativa. Mas, convenhamos, nas últimas décadas o escrete canarinho não tem
correspondido às expectativas. Não por falta de talento, mas talvez por falta
de pertencimento.
A seleção virou uma espécie de
“legião estrangeira”: atletas brasileiros, sim, mas moldados em outros
gramados, outros ritmos, outras culturas. Jogadores que, embora carreguem o
verde e amarelo no passaporte, já não carregam o barro dos nossos estádios nas
chuteiras. Enquanto isso, a verdadeira seleção — aquela dos atletas raízes, que
enfrentam gramados irregulares, torcidas impacientes e calendários insanos —
fica de fora, assistindo pela televisão. São eles que vivem o futebol
brasileiro em sua forma mais crua: exaltados num domingo, vaiados na
quarta-feira seguinte.
E nas mesas dos bares, onde a
democracia é plena e a lógica é opcional, milhões de treinadores improvisados
discutem escalações, esquemas táticos e injustiças históricas. Agora, com um
técnico estrangeiro no comando, a sensação de desenraizamento só aumenta.
“Perdemos a identidade”, dizem alguns. “Precisamos de renovação”, dizem outros.
E no meio desse emaranhado de opiniões, comparações e nostalgias, surge sempre
o mesmo nome — aquele que divide, irrita, encanta e, paradoxalmente, une.
O injustiçado. O salvador. O
craque que apanha mais do que joga, que provoca mais do que agrada, que carrega
o peso de uma geração inteira nas costas.
A unanimidade nacional: Neymar.
Porque, no fim das contas, quando
a bola rola e o país entra em transe, todo mundo — até quem jura que não —
acaba esperando que seja ele a resolver. E talvez seja justamente isso que nos
define: essa fé quase infantil de que, apesar de tudo, ainda pode dar certo.
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