Girando, girando, multicolorida, rasgando o espaço num giro constante que dava nó na barriga.
Lembro como se fosse agora: os dias no parque de diversões tinham pipoca quente, algodão doce azul/rosa e tiro ao alvo. Era um mundo inteiro embalado por risadas, luzes piscando e aquela música meio desafinada que só parque de interior sabe tocar.
Mas era na roda-gigante que eu me transformava.
Ali, suspenso no alto, eu deixava de ser criança de pés descalços e virava astronauta dos meus próprios sonhos. A cada volta, o mundo diminuía lá embaixo, e eu navegava um universo inventado, infinito, onde tudo parecia possível.
E, claro, sempre tinha aquele momento em que a roda parava lá no alto. Todo mundo achava lindo, romântico, emocionante. Eu não. Eu só pensava no parafuso que o moço do macacão azul jurava ter apertado “ontem mesmo”. A fé da criança é uma coisa bonita, mas a minha confiança naquele parafuso era pura teimosia.
As luzes, as algazarras, o vento batendo no rosto…
Naquele tempo, eu era feliz sem saber.
Ou talvez soubesse — porque, lá do alto, a gente sempre enxerga melhor.
Comentários
Postar um comentário
Agradeço sinceramente pela sua leitura e pela presença neste espaço. Sua participação enriquece o diálogo e contribui para a construção de reflexões mais amplas. Seja sempre bem-vindo.