Pular para o conteúdo principal

Caleidoscópio

 

O mundo começou a girar diante de mim numa tarde qualquer, dessas em que a luz entra pela janela como quem não pede licença. Eu estava distraído, talvez cansado demais para perceber que algo em mim também girava. Foi então que, sem aviso, tudo se tornou um grande caleidoscópio — com suas cores imprevisíveis e seus estilhaços de memória.

Cada movimento, por menor que fosse, reorganizava o cenário. As coisas que eu julgava sólidas se desfaziam em fragmentos luminosos, e outras, que eu nunca tinha notado, surgiam com uma nitidez quase insolente. Era como se o mundo insistisse em me mostrar que nada permanece igual por muito tempo.

Enquanto observava esse turbilhão íntimo, percebi que não era apenas o mundo que mudava. Eu também me via multiplicado em versões que se contradiziam e se completavam. Havia o eu que acreditava saber de tudo, o que fingia não sentir nada, o que sonhava alto demais, e aquele que só queria um pouco de silêncio. Todos coexistiam ali, refletidos como espelhos quebrados que, mesmo partidos, ainda guardam a verdade de um rosto.

Foi nesse instante que me perguntei o que era real e o que era ilusão. Mas a resposta veio simples, quase óbvia: no fundo, tudo era coração. Tudo era tentativa. Tudo era esse movimento contínuo de se reinventar, mesmo quando a gente não percebe.

A vida, percebi, é um prisma inquieto. Não aceita ficar parada, não tolera a monotonia. E talvez seja justamente isso que a torna tão fascinante. Há poesia na confusão, há sentido nas distorções, há intensidade nos momentos em que tudo parece fora do lugar.

Fechei os olhos por um instante, deixando que o caleidoscópio interno se acomodasse. Quando os abri, o mundo continuava girando — mas agora eu girava junto, sem medo de me perder nas cores que surgiam. Afinal, algumas coisas só fazem sentido quando vistas em movimento.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Perdão. Peço desculpa, eu errei

  Pedir desculpa sempre me soou como aquele momento em que precisamos admitir que colocamos sal demais na comida: ninguém quer confessar, mas todo mundo percebeu. Em debates acalorados, então, a dificuldade dobra. A gente entra cheio de certezas, argumentos afiados e aquela convicção quase teatral… até perceber que exagerou na dose.   Errar faz parte — é quase um item obrigatório do pacote “ser humano”. O problema é que, quando estamos defendendo nosso ponto de vista com entusiasmo demais, qualquer detalhe vira motivo para levantar a voz, esticar a frase e criar uma divergência que, no fundo, não precisava existir. Depois, olhando com calma, percebemos que algumas palavras saíram tortas, outras vieram fortes demais, e a intenção se perdeu no caminho.   É aí que entra o gesto que quero destacar: o simples, porém poderoso, ato de pedir perdão. Não aquele pedido automático, dito só para encerrar o assunto, mas o sincero, que reconhece que nossas interpretações foram exagera...

São Jorge: guardião das batalhas que nunca cessam

    Desde menino, antes mesmo de entender o peso das palavras ou o sentido das crenças, eu já convivia com a figura imponente de um cavaleiro que parecia vigiar a casa inteira. São Jorge — montado em seu cavalo branco, lança firme, dragão aos pés — era mais do que um santo. Era um guardião silencioso, desses que não precisam falar para que a gente sinta a presença. Na parede da sala, pendurado um pouco torto, vivia um quadro já desbotado pelo tempo. Minha mãe o tratava como relíquia. Ao lado dele, sempre repousava uma palma benta do Domingo de Ramos, guardada com o mesmo cuidado com que se protege um segredo antigo. Ela dizia que aquilo afastava maus olhados, invejas, sombras que às vezes rondam a vida da gente sem pedir licença. E quando o céu escurecia de repente, quando trovões rasgavam o silêncio e os relâmpagos iluminavam nossa casa humilde, lá ia minha mãe — firme, devota, corajosa — fazer sua prece ao guerreiro. Era bonito de ver: enquanto o mundo lá fora parecia ...

O Relógio

Sempre tivemos uma relação pouco amistosa, eu e ele.  Na infância, era o encarregado de me arrancar da cama para a escola. Nos dias em que alguma moléstia infantil me derrubava, lá estava ele marcando com precisão o horário dos remédios — aqueles de sabor salobro que pareciam castigo. Na adolescência, tivemos alguns momentos de trégua. Quando eu aguardava ansioso para encontrar a namoradinha, a pressa dos ponteiros finalmente jogava a meu favor. Mas, ao final das noitadas com amigos pelos bailes da vida, quando amanhecia, lá estava ele novamente, em parceria com minha mãe:  “Menino, já é hora de acordar. Você não tem vergonha de dormir até essa hora?” O tempo passou, e ele permaneceu. Registrou meu ingresso nos escritórios, definiu turnos, intervalos, almoços. Sempre ele, um perseguidor implacável do tempo.  Hoje, quando a idade enfim me concedeu o justo descanso da aposentadoria, continua marcando — agora com velocidade galáctica — o momento da minha extinção.  Mas,...