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Crônica de um Ex-Viciado em Garrafinhas de Vidro

 


Na minha infância, os refrigerantes tinham outros sabores. Eram muitas opções: Laranjinha, Crush, Grapette — quem bebe repete — e eu, na minha inocência infantil, juntava moedas naquele porquinho-cofrinho já descrito, que ficava sobre a geladeira da cozinha lá de casa.

Aos finais de semana, nas minhas aventuras pela praia de Ipanema — não a do Rio, mas a do Guaíba (e não me venham com “lago”, por favor) — eu corria para comprar minha garrafinha de vidro gelada, de “Pepsi”, minha preferida na época. Eu me deliciava com aquele líquido efervescente sem a menor preocupação com diabetes, triglicerídeos, glicose, glicemia, “glicotudo”. A única conta que eu fazia era: dá pra comprar outra?

Tomar refrigerante em garrafa de vidro tinha outro sabor. Talvez porque a gente não lia rótulo, não tinha nutricionista no “Instagram” e o máximo de advertência médica vinha da mãe dizendo: “não toma gelado que dá dor de garganta”. Hoje, se eu apareço com uma Pepsi, meu cardiologista me olha como quem flagra um crime ambiental, e meu dentista já prepara a broca.

Mas, enfim, o sabor era outro. E se hoje tenho alguma dor aqui ou ali — se é que tenho — talvez sejam apenas lembranças líquidas e gaseificadas daqueles tempos da garrafa de vidro. Ou talvez seja só a idade mesmo, mas prefiro culpar a Pepsi.

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