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Eu Vi o Papa


Julho de 1980 amanheceu diferente em Porto dos Casais. Havia um rumor no ar, desses que fazem a cidade inteira respirar mais devagar, como se cada esquina estivesse à espera de algo que não se repete. O frio gaúcho parecia menos áspero naquele dia, talvez por causa da expectativa, talvez porque todo mundo carregava um brilho nos olhos. O Papa João Paulo II vinha nos visitar, e isso, para nós, era quase como ver a história atravessar a rua.

As pessoas se amontoavam nas calçadas, enroladas em cachecóis, segurando bandeirinhas, rezando baixinho ou apenas sorrindo. E, claro, o coro que ecoava por toda parte — “ucho, ucho, ucho, o Papa é gaúcho — dava um tom de festa a um momento que, no fundo, era de pura devoção. Eu, jovem e cheio de curiosidade pela vida, caminhava entre aquela multidão como quem tenta guardar tudo num só olhar.

A fé, para mim, tinha começado muito antes. Lembro-me do dia em que o Papa João XXIII morreu. Eu tinha doze anos. A escola, sempre barulhenta, ficou tomada por um silêncio que parecia pesar no ar. Fomos dispensados, decretaram três dias de luto, e os adultos falavam baixo, como se a tristeza fosse uma visita que não se podia incomodar. Foi ali que percebi, pela primeira vez, que a religião não era apenas missa e catecismo — era sentimento, era comunidade, era uma espécie de laço invisível que unia as pessoas. Talvez tenha sido ali que minha fé começou a nascer, tímida, mas sincera.

Mas em 1980, tudo era movimento. Andei por todas as ruas por onde o cortejo passaria. Minha velha Kodak, que insistia em não focar direito, registrou o papamóvel em fotos tremidas, quase fantasmas. Ainda assim, guardo-as até hoje como quem guarda relíquias — não pela qualidade, as imagens estão desbotadas, mas a emoção permanece intacta. Eu vi o Papa — e isso, para mim, vale mais do que qualquer nitidez.

Quarenta e seis anos depois, já com outras histórias nos bolsos, visitei o Vaticano. Caminhei por corredores onde a história parece respirar pelas paredes. Entendi, com mais clareza, o poder da Igreja Católica, vi a suas luzes e suas sombras, suas glórias e suas culpas. Pensei na Inquisição, nas crueldades, nas marcas que ainda hoje se deixam ver. Mas, acima de tudo, compreendi a dimensão simbólica daquele homem vestido de branco, cuja investidura remonta aos primeiros seguidores de Cristo. Séculos de fé, de encíclicas, de decretos, de contradições e de devoção.

Não pretendo discutir crenças. Cada um carrega as suas como pode, como aprendeu, como escolheu. E, no fim das contas, percebi que minha memória mais preciosa não estava no Vaticano, nem nos livros, nem nas catedrais. Estava naquele julho frio, naquela rua cheia de gente, naquela foto tremida que insiste em sobreviver ao tempo.

Porque, afinal — e isso ninguém me tira — eu vi o Papa.

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