Sou de uma geração que era feliz, porque ser feliz era um modo de vida.
Tínhamos amigos — muitos ainda estão por aí, outros viraram lembrança, e alguns já se foram deixando apenas a saudade pousada no peito.
Mas havia também um amigo secreto. Um amigo de raça indefinida, que mudava de cor conforme o tempo: às vezes preto, às vezes branco, às vezes pardo. Não importava — nunca houve espaço para discriminar.
Éramos felizes juntos. Companheiros de tantas jornadas, cúmplices nas alegrias e nas tristezas, nas dores e nos prazeres. Em certos dias, éramos gladiadores invencíveis, duros, quase desumanos na forma como enfrentávamos o mundo. Mas éramos parceiros. Inseparáveis.
Conquistamos glórias, subimos pódios, celebramos vitórias como quem celebra a própria vida. E, quando a derrota vinha, chorávamos juntos — lágrimas sinceras, daquelas que lavam a alma.
E nas vezes em que a vida me levou para longe, quando não pude estar contigo, você ficou ali, esquecido num canto. Silencioso, paciente, fiel.
Meu bom e velho par de tênis.
Meu amigo de tantas histórias.
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