Pular para o conteúdo principal

Figa, arruda, trevo e ferradura

 

Rapaz, hoje o Brasil entra em campo e o país inteiro já acordou com aquela sensação de que se a seleção ganhar, a semana melhora; se perder, a culpa é do técnico, do VAR e do cara que lavou a camisa da sorte fora de hora.  
A mesa do bar já tá montada: figa pendurada no chaveiro, arruda atrás da orelha, trevo amassado na carteira, ferradura na porta (que ninguém sabe como foi parar ali, mas ninguém tira pra não dar azar).  
O garçom passa perguntando se alguém quer mais uma, mas a verdade é que ninguém tá bebendo: estão rezando, cada um no seu estilo. Tem o torcedor que faz promessa, o que bate na madeira, o que não troca de lugar na cadeira desde 2002, e o que jura que se o Brasil fizer gol ele beija o garçom.
Do outro lado, o Japão. Time ajeitado, disciplinado, que treina como se fosse prova de vestibular. Mas também tem um pezinho no Brasil: Zico virou praticamente santo padroeiro do futebol nipônico, Nelson Yoshimura abriu caminho lá em 67, e Ruy Ramos virou lenda — daqueles que se você falar mal no bar japonês, o pessoal te olha torto.
Só que hoje, meu amigo, cordialidade é só depois do apito final. Hoje é dia de Brasil, e quando é dia de Brasil, até o cachorro da vizinha usa camisa amarela.
E como diria Zagallo — aquele que já nasceu com a camisa 13 tatuada na alma — “vocês vão ter que me engolir”. Porque se superstição resolvesse jogo, o Brasil já entrava em campo ganhando de 3 a 0 só com o arsenal de amuletos que o povo carrega.
Agora é esperar. O juiz apita, o coração dispara, o país para. E no bar, alguém sempre solta a frase clássica:  
 “Se não ganhar, a culpa é do técnico. Se ganhar, fui eu que trouxe sorte.”

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Perdão. Peço desculpa, eu errei

  Pedir desculpa sempre me soou como aquele momento em que precisamos admitir que colocamos sal demais na comida: ninguém quer confessar, mas todo mundo percebeu. Em debates acalorados, então, a dificuldade dobra. A gente entra cheio de certezas, argumentos afiados e aquela convicção quase teatral… até perceber que exagerou na dose.   Errar faz parte — é quase um item obrigatório do pacote “ser humano”. O problema é que, quando estamos defendendo nosso ponto de vista com entusiasmo demais, qualquer detalhe vira motivo para levantar a voz, esticar a frase e criar uma divergência que, no fundo, não precisava existir. Depois, olhando com calma, percebemos que algumas palavras saíram tortas, outras vieram fortes demais, e a intenção se perdeu no caminho.   É aí que entra o gesto que quero destacar: o simples, porém poderoso, ato de pedir perdão. Não aquele pedido automático, dito só para encerrar o assunto, mas o sincero, que reconhece que nossas interpretações foram exagera...

São Jorge: guardião das batalhas que nunca cessam

    Desde menino, antes mesmo de entender o peso das palavras ou o sentido das crenças, eu já convivia com a figura imponente de um cavaleiro que parecia vigiar a casa inteira. São Jorge — montado em seu cavalo branco, lança firme, dragão aos pés — era mais do que um santo. Era um guardião silencioso, desses que não precisam falar para que a gente sinta a presença. Na parede da sala, pendurado um pouco torto, vivia um quadro já desbotado pelo tempo. Minha mãe o tratava como relíquia. Ao lado dele, sempre repousava uma palma benta do Domingo de Ramos, guardada com o mesmo cuidado com que se protege um segredo antigo. Ela dizia que aquilo afastava maus olhados, invejas, sombras que às vezes rondam a vida da gente sem pedir licença. E quando o céu escurecia de repente, quando trovões rasgavam o silêncio e os relâmpagos iluminavam nossa casa humilde, lá ia minha mãe — firme, devota, corajosa — fazer sua prece ao guerreiro. Era bonito de ver: enquanto o mundo lá fora parecia ...

O Relógio

Sempre tivemos uma relação pouco amistosa, eu e ele.  Na infância, era o encarregado de me arrancar da cama para a escola. Nos dias em que alguma moléstia infantil me derrubava, lá estava ele marcando com precisão o horário dos remédios — aqueles de sabor salobro que pareciam castigo. Na adolescência, tivemos alguns momentos de trégua. Quando eu aguardava ansioso para encontrar a namoradinha, a pressa dos ponteiros finalmente jogava a meu favor. Mas, ao final das noitadas com amigos pelos bailes da vida, quando amanhecia, lá estava ele novamente, em parceria com minha mãe:  “Menino, já é hora de acordar. Você não tem vergonha de dormir até essa hora?” O tempo passou, e ele permaneceu. Registrou meu ingresso nos escritórios, definiu turnos, intervalos, almoços. Sempre ele, um perseguidor implacável do tempo.  Hoje, quando a idade enfim me concedeu o justo descanso da aposentadoria, continua marcando — agora com velocidade galáctica — o momento da minha extinção.  Mas,...