Pular para o conteúdo principal

Noite de São João

São João, celebrado em 24 de junho, sempre foi mais do que uma simples data no calendário. Lembro da expectativa que tomava conta da semana anterior aos festejos. Ainda garoto, saíamos em busca de madeira para montar a fogueira — quanto mais alta, mais parecia refletir nossa própria ideia de grandiosidade.

Juntávamos taquaras, porque sabíamos que, ao tocarem o fogo, estourariam como rojões, busca-pés e outros pequenos artefatos que hoje, com a consciência ecológica e de segurança, já não são recomendáveis. Mas naquele tempo fazíamos coisas temerárias sem pensar duas vezes: colocar rojões sob latas para vê-las explodir, dilaceradas pelo impacto, era diversão garantida.

Também fazíamos balões iluminados — hoje, nem pensar — e pendurávamos bandeirolas coloridas em longas cordas que cruzavam o pátio. No centro, cercada por pneus velhos, erguia-se ela: a fogueira, imponente, silenciosa, esperando o momento de ser acesa.

Sobre as mesas, um banquete típico: pinhão, amendoim, rapadura, pipoca e quentão. Quando o fogo finalmente subia, iluminando a noite com seu clarão, começavam as cantorias, as danças, e nós, tímidos, arriscávamos passos com as namoradinhas da escola.

Ao final, vinha o ritual mais tenso: pisar sobre as brasas da fogueira. Era o teste de coragem que poucos ousavam enfrentar, mas que rendia histórias por semanas.

Sim, naquele tempo São João tinha outro significado. Nossos pais diziam que era a noite mais fria do ano, mas para nós era apenas uma das noites mais inesquecíveis da vida.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Perdão. Peço desculpa, eu errei

  Pedir desculpa sempre me soou como aquele momento em que precisamos admitir que colocamos sal demais na comida: ninguém quer confessar, mas todo mundo percebeu. Em debates acalorados, então, a dificuldade dobra. A gente entra cheio de certezas, argumentos afiados e aquela convicção quase teatral… até perceber que exagerou na dose.   Errar faz parte — é quase um item obrigatório do pacote “ser humano”. O problema é que, quando estamos defendendo nosso ponto de vista com entusiasmo demais, qualquer detalhe vira motivo para levantar a voz, esticar a frase e criar uma divergência que, no fundo, não precisava existir. Depois, olhando com calma, percebemos que algumas palavras saíram tortas, outras vieram fortes demais, e a intenção se perdeu no caminho.   É aí que entra o gesto que quero destacar: o simples, porém poderoso, ato de pedir perdão. Não aquele pedido automático, dito só para encerrar o assunto, mas o sincero, que reconhece que nossas interpretações foram exagera...

São Jorge: guardião das batalhas que nunca cessam

    Desde menino, antes mesmo de entender o peso das palavras ou o sentido das crenças, eu já convivia com a figura imponente de um cavaleiro que parecia vigiar a casa inteira. São Jorge — montado em seu cavalo branco, lança firme, dragão aos pés — era mais do que um santo. Era um guardião silencioso, desses que não precisam falar para que a gente sinta a presença. Na parede da sala, pendurado um pouco torto, vivia um quadro já desbotado pelo tempo. Minha mãe o tratava como relíquia. Ao lado dele, sempre repousava uma palma benta do Domingo de Ramos, guardada com o mesmo cuidado com que se protege um segredo antigo. Ela dizia que aquilo afastava maus olhados, invejas, sombras que às vezes rondam a vida da gente sem pedir licença. E quando o céu escurecia de repente, quando trovões rasgavam o silêncio e os relâmpagos iluminavam nossa casa humilde, lá ia minha mãe — firme, devota, corajosa — fazer sua prece ao guerreiro. Era bonito de ver: enquanto o mundo lá fora parecia ...

O Relógio

Sempre tivemos uma relação pouco amistosa, eu e ele.  Na infância, era o encarregado de me arrancar da cama para a escola. Nos dias em que alguma moléstia infantil me derrubava, lá estava ele marcando com precisão o horário dos remédios — aqueles de sabor salobro que pareciam castigo. Na adolescência, tivemos alguns momentos de trégua. Quando eu aguardava ansioso para encontrar a namoradinha, a pressa dos ponteiros finalmente jogava a meu favor. Mas, ao final das noitadas com amigos pelos bailes da vida, quando amanhecia, lá estava ele novamente, em parceria com minha mãe:  “Menino, já é hora de acordar. Você não tem vergonha de dormir até essa hora?” O tempo passou, e ele permaneceu. Registrou meu ingresso nos escritórios, definiu turnos, intervalos, almoços. Sempre ele, um perseguidor implacável do tempo.  Hoje, quando a idade enfim me concedeu o justo descanso da aposentadoria, continua marcando — agora com velocidade galáctica — o momento da minha extinção.  Mas,...